Como o antagonismo ameaça e também sustenta Bolsonaro

Dois cientistas políticos analisam a tensão permanente do governo e seus embates recorrentes com forças de contorno difuso

     

    O presidente Jair Bolsonaro compartilhou em grupos de Whatsapp, no dia 17 de maio, um texto que diz que o Brasil “é ingovernável”. Desde então, aliados e adversários tentam entender se o chefe do Executivo está se dizendo impotente ou se ele está convocando apoiadores para desafiar os outros Poderes: Legislativo e Judiciário.

    A mensagem distribuída pelo presidente é de autoria de Paulo Portinho, um analista da Comissão de Valores Imobiliários que, em 2016, tentou sem sucesso ser vereador do Rio pelo partido Novo. Bolsonaro gostou e compartilhou o texto, dando a entender que endossava seu conteúdo.

    “Está em consonância com o pensamento dele”, confirmou o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, quando perguntado por jornalistas sobre o conteúdo da mensagem compartilhada por Bolsonaro.

    O texto, em tom enigmático, circulou quando o governo Bolsonaro atravessa um mau momento. Dois dias antes, milhares de manifestantes haviam saído às ruas de aproximadamente 200 cidades brasileiras para protestar contra os cortes de verba na área da educação.

    Além disso, o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), tornou-se alvo de suspeitas de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, algo que ele nega.

    A aprovação do presidente, por sua vez, está em queda. Em abril, a popularidade do governo era a mais baixa entre todos os presidentes em início de mandato desde a redemocratização.

    Com menos de cinco meses de governo, a palavra impeachment começou a circular no entorno do poder. Menos na boca da oposição do que no entorno do próprio presidente. Jair Bolsonaro já cita riscos de um possível processo. Seus filhos, também.

    “O que está por vir pode derrubar o capitão eleito”, disse Carlos Bolsonaro, vereador do Rio e outro dos filhos do presidente, em mensagem postada nas redes sociais no dia 15 de maio. Junto com a mensagem, Carlos compartilhou um vídeo intitulado “já está tudo engatilhado em Brasília para derrubar o presidente”.

    As “teorias crescentemente conspiratórias”, conforme definiu a deputada estadual e aliada de Bolsonaro Janaina Paschoal (PSL-SP), também se fizeram presentes no cabeçalho que o próprio presidente escreveu para introduzir o texto de Portinho, distribuído pelo Whatsapp.

    Janaina Paschoal, coautora do pedido de impeachment que acabou na derrubada de Dilma Rousseff em 2016, aliás, já sugere estar disposta a deixar o PSL, partido de Bolsonaro.

    No cabeçalho do texto compartilhado na sexta-feira (17), Bolsonaro fez referência ao atentado a faca sofrido durante a campanha, em setembro de 2018: “Em Juiz de Fora, tive um sentimento e avisei meus seguranças: essa é a última vez que me exporei junto ao povo. O sistema vai me matar. Com o texto abaixo cada um de vocês pode tirar suas próprias conclusões.”

    “As pessoas estão apavoradas, escrevendo que nosso presidente está correndo risco [...], mas quem o está colocando em risco é ele, os filhos dele e alguns assessores que o cercam”

    Janaina Paschoal

    deputada estadual pelo PSL em São Paulo, em sua conta no Twitter, no dia 19 de maio de 2019

    Bolsonaro foi eleito presidente em outubro de 2018, com 58 milhões de votos, na esteira da crise dos partidos tradicionais, atingidos em cheio pela Operação Lava Jato. E num momento de instabilidade política e econômica. 

    Desde que tomou posse, em janeiro de 2019, vem enfrentando problemas na relação com o Congresso. Sofreu derrotas pontuais. E também lida com dificuldades para fazer andar sua proposta de reforma da Previdência, considerada prioritária pelo governo.

    Tudo isso num cenário de alto desemprego, crescimento do valor do dólar e redução de expectativa de aumento do PIB (Produto Interno Bruto).

    Apoiadores de Bolsonaro convocaram uma manifestação para o dia 26 de maio, cuja pauta varia da defesa da reforma da Previdência e do chamado pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro, até o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

    O discurso de enfrentamento de Bolsonaro foi reiterado segunda-feira (20), pela manhã, em evento no Rio. Ele disse que “o grande problema do Brasil é a classe política”. À tarde, em Brasília, o presidente ensaiou um recuo, dizendo que valoriza o Congresso.

    Duas análises sobre o momento do governo

    Para entender como esse ambiente ameaça ou alimenta politicamente Bolsonaro, o Nexo fez três perguntas a dois especialistas:

    • Maria Hermínia Tavares, cientista política da USP e do Cebrap
    • Fernando Schüler, cientista político e professor no Insper

    Diante dos mais recentes fatos envolvendo o governo, acredita que o país está perto de uma nova ruptura política? Ou está longe?

    Maria Hermínia Tavares  O presidente não se comporta como chefe de Estado e de governo, com responsabilidades diante dos cidadãos, mas como chefe de facção, que atiça conflitos em lugar de tentar apaziguá-los. Nesse sentido, Bolsonaro e seus filhos são criadores de crises políticas. Creio que entenderam mal o sentido de sua vitória e parecem governar apenas para os grupos mais radicais que os apoiam nas redes sociais. A continuarem assim é difícil imaginar que o presidente possa cumprir integralmente seu mandato.

    Fernando Schüler  Esses fatos são parte essencialmente da instabilidade que é própria do momento político brasileiro e, de maneira mais ampla, de uma instabilidade que caracteriza a democracia atual. O traço da democracia marcada pela era digital é o imediatismo, é a resposta muitas vezes impensada, um certo exagero no trato das questões e uma polarização acentuada. Nós acabamos de ter uma eleição. O governo tem pouco mais de quatro meses. Não há nenhum sinal de crise institucional, muito menos de ruptura no horizonte.

    O próprio presidente e seu entorno colocam o impeachment na pauta pública. Isso tem qual objetivo? Fortalece ou enfraquece o governo?

    Maria Hermínia Tavares  Não sei o que se passa na cabeça do presidente e de seu círculo mais fiel. Talvez achem que podem se beneficiar de um confronto com o Legislativo e o Judiciário. Talvez não tenham noção das consequências de seus atos. Objetivamente estão enfraquecendo o governo, sem que a oposição faça qualquer coisa para reduzir sua força. Impeachment é um instrumento que existe para não ser usado, a não ser em casos muito graves. Não equivale ao voto de desconfiança existente no parlamentarismo. Sua banalização enfraquece a democracia.

    Fernando Schüler  A ideia de impeachment foi colocada por ambos os lados. Eu acho isso algo de uma extraordinária irresponsabilidade, venha de gente do governo ou da oposição. O Brasil viveu dois processos de impeachment nos últimos 30 anos [Fernando Collor em 1992 e Dilma Rousseff em 2016]. Acho um enorme equívoco considerar que isso seja parte da normalidade da vida democrática. Impeachment é algo muito sério – é algo que supõe crime de responsabilidade, supõe um tipo de agudização da crise política que é muito particular. Não há nada disso no horizonte brasileiro atual. O que há é um clima de radicalização política no ar, produzido em grande medida por erros do próprio governo. Mas daí a imaginar o impedimento do presidente é um caminho longo demais. Falar de impeachment neste momento diz algo sobre a inabilidade do governo, mas diz mais ainda sobre a irresponsabilidade que paira sobre o debate político contemporâneo.

    O estado de crise política permanente é ‘o novo normal’ do Brasil? Isso tem a ver com a característica do presidente ou com a polarização do país no geral?

    Maria Hermínia Tavares  Crise é oposto de normalidade. Desde 2014 [quando a Lava Jato foi deflagrada e Dilma Rousseff foi reeleita], as elites dirigentes e a opinião pública mais informada se polarizaram. Não creio que a polarização tenha atingido a população que, por outro lado, sofre suas consequências. No passado, a polarização foi alimentada pelo PSDB e pelo PT. Tendo ganhado as eleições por folgada margem, caberia ao presidente desarmar os ânimos. Mas ele não o fez e, neste momento, é quem os alimenta. Que o presidente alimente a polarização é novo, mas não é normal.

    Fernando Schüler É um traço da vida brasileira desde as manifestações de 2013, que introduziram essa participação intensa das pessoas no debate político. É algo que tem a internet como ecossistema. Hoje, algo como 15% dos brasileiros participam do debate público pela internet. Esse ambiente tem algumas características: de baixa empatia, agressivo, de pouco incentivo ao diálogo e ao consenso e é marcado pelo imediatismo e por um certo cultivo da irrelevância política. Até 15 dias, o debate era sobre as notas que o ministro da Educação tirou no primeiro semestre da faculdade. Esse é um traço não apenas da instabilidade política brasileira, mas do mal estar da democracia contemporânea. Aí sim é um novo normal, é um estado de coisas que veio para ficar. Temos de aprender a lidar com isso.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que a manifestação pró-governo iria ocorrer em 26 de abril, quando na verdade é 26 maio. A informação foi corrigida às 11h55 de 21 de maio de 2019.

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