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Como a manifestação pró-Bolsonaro divide aliados do governo

Convocação rachou a direita. Enquanto entorno do presidente incentiva pessoas nas ruas, Janaína Paschoal e MBL veem erro de estratégia e pedem mais diálogo com Congresso

     

    O presidente Jair Bolsonaro enfrentou no dia 15 de maio o primeiro protesto nacional contra seu governo, motivado por cortes de verba na área da educação e realizado quando ele ainda não havia completado nem cinco meses de mandato. Agora, apoiadores fiéis de Bolsonaro que atuam nas redes prometem fazer uma manifestação em apoio ao presidente, marcada para 26 de maio, um domingo.

    A mobilização para atos de rua ocorre num momento de instabilidade do governo, com crises causadas por disputas internas e seguidas derrotas no Congresso. Na sexta-feira (17), Bolsonaro chegou a distribuir via WhatsApp um texto no qual o autor, um candidato derrotado a vereador do Rio, afirma que o Brasil é “ingovernável” sem “conchavos”.

    A bandeira do protesto pró-governo

    A chamada para os atos do dia 26 surgiu no Twitter com a hashtag #dia26nasruas. Nas convocatórias, o principal objetivo não é medir forças com os protestos de 15 de maio, contra os cortes na educação, e sim pressionar o Congresso para que aprove medidas apresentadas por Bolsonaro.

    No sábado (18), Bolsonaro agradeceu a seus apoiadores que compartilharam a hashtag #BolsonaroNossoPresidente, que também virou uma forma de convocação para o protesto. O presidente escreveu: “somente com o apoio de todos vocês poderemos mudar de vez o futuro do nosso Brasil”.

    No domingo (19), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) deu seu apoio explícito aos atos de domingo (26). O filho do presidente disse que nada era “mais democrático do que uma manifestação ordeira que cobra dos representantes a mesma postura de seus representados”.

    Eduardo mencionou três propostas de interesse do governo que estão na Câmara: reforma administrativa (que reordenou o organograma do governo e reduziu ministérios), a reforma da Previdência e o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro. O deputado também compartilhou post de um apoiador dizendo que o presidente está “diante de chantagens e traições”.

    Congressista do partido do presidente, o senador Major Olímpio (PSL-SP) também compartilhou uma convocação para o ato, dizendo ser necessário que apoiadores de Bolsonaro saíssem às ruas.

    Outros líderes e forças políticas que apoiaram Bolsonaro nas eleições de 2018, contudo, apontam riscos na realização dos atos pró-governo.

    Riscos

    NÚMERO DE MANIFESTANTES

    Se não levar muitas pessoas para as ruas, as manifestações podem explicitar a perda de apoio do presidente, que segundo pesquisas vem registrando quedas seguidas de popularidade.

    RECADO DOS MANIFESTANTES

    A pauta das manifestações também preocupa, já que inclui ataques ao Congresso e ao Judiciário, os outros Poderes da República. Nas redes sociais, há mensagens que pedem saídas golpistas.

    A reação de Janaína Paschoal

    Janaína Paschoal ficou conhecida como signatária do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, ao lado dos também advogados Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo. A petista caiu em 2016, em meio ao avanço da Operação Lava Jato, a uma grave crise econômica e a uma série de protestos de rua dos quais Janaína participava.

    A advogada foi eleita deputada estadual em São Paulo pelo PSL, mesmo partido do presidente. Recebeu mais de 2 milhões de votos. Tornou-se, assim, a pessoa que recebeu mais votos numa eleição proporcional na história do Brasil. Antes, chegou a ser cogitada para ocupar a vaga de vice-presidente na chapa de Bolsonaro.

    Numa sequência de tuítes publicados no domingo (19), ela demonstrou sua insatisfação com os atos pró-governo convocados pelas redes sociais.

    “Essas manifestações não têm racionalidade. O presidente foi eleito para governar nas regras democráticas, nos termos da Constituição Federal. Propositalmente, ele está confundindo discussões democráticas com toma-lá-dá-cá”
    “Não tem cabimento deputados eleitos legitimamente fugirem das dificuldades de convencer os colegas (ser parlamentar é difícil) e ficarem instigando o povo a gerar o caos”
    “Não me calei diante dos crimes da esquerda, não me calarei diante da irresponsabilidade da direita”

    Janaína Paschoal

    deputada estadual pelo PSL de São Paulo

    A reação do MBL

    O MBL (Movimento Brasil Livre) foi criado na esteira das grandes manifestações que tomaram o país em junho de 2013. O grupo de jovens de direita ganhou destaque a partir de 2015, nos primeiros protestos contra Dilma, e liderou, ao lado de outros grupos, como o Vem Pra Rua e o Revoltados Online, os grandes atos do ano seguinte, quando a petista foi derrubada.

    No governo do vice Michel Temer, o grupo realizou protestos pontuais, de apoio à Lava Jato, e apoiou a agenda econômica liberalizante do novo presidente. Seus membros entraram formalmente para a política, elegendo-se vereadores e deputados. Os líderes mais conhecidos filiaram-se ao DEM, antigo PFL.

    Agora, eles afirmam que colocar o povo contra os congressistas reduzirá ainda mais as chances de a gestão Bolsonaro aprovar as reformas e ter sucesso.

    “A retórica antipolítica do governo escalou. O objetivo é culminar num ato de rua ‘forçando a barra’ contra Congresso e Supremo, assustando também militares”
    “Textão compartillhado na sexta [por Bolsonaro] serviu para coroar tese da ingovernabilidade”
    “O sucesso de um ato girando em torno dessa retórica é péssimo para as reformas. É uma declaração de guerra ao Congresso (...) Sem [reforma da] Previdência o país quebra. E não tem Previdência com guerra institucional”

    Renan Santos

    coordenador nacional do MBL

    O presidencialismo de coalizão

    O diálogo entre o presidente da República e os membros da Câmara e do Senado requer habilidade e dedicação do governo. O chefe do Executivo precisa do apoio para implementar suas promessas, num sistema definido em 1988 pelo cientista político Sérgio Abranches como presidencialismo de coalizão.

    Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, os dois únicos presidentes eleitos no período pós-redemocratização que conseguiram terminar seus mandatos, tiveram sucesso razoável nesse diálogo com o Congresso.

    O tucano, porém, teve de lidar com denúncias de comprar votos para aprovar a emenda da Constituição que permitiu sua reeleição. Já o petista enfrentou o mensalão, em que a cúpula de seu partido foi condenada por compra de votos no Congresso.

    A partir de 2014, a Operação Lava Jato escancarou esquemas que, segundo o delator Sérgio Machado, ex-senador e ex-presidente da Transpetro, uma subsidiária da Petrobras, fazem parte da realidade brasileira ao menos desde 1946. Lula foi preso pela operação em abril de 2018.

    Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016, sofreram impeachment. A petista, assim como Bolsonaro, foi eleita em um contexto de maior pulverização partidária, o que torna ainda mais difícil a tarefa de alinhar os interesses do presidente aos do Congresso.

    O discurso antissistema e as derrotas

    Bolsonaro venceu a eleição com um discurso antissistema, se apresentando como um político de fora do sistema que governaria de forma autêntica, sem toma-lá-dá-cá. Falta diálogo, porém, com o Congresso, segundo líderes partidários e analistas políticos. O Palácio do Planalto não trabalha, dessa forma, com uma articulação política, algo que não pode ser confundido com fisiologismo ou corrupção.

    Neste mês de maio, a tensão ficou mais aparente com derrotas do presidente no Legislativo. Uma delas ocorreu no dia 9, quando a comissão mista que analisa a medida provisória da reforma administrativa implementada por Bolsonaro decidiu alterar diversos pontos da reorganização do governo federal. Por exemplo, os congressistas determinaram que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) deve ficar no Ministério da Economia, e não no da Justiça, e que a Funai (Fundação Nacional do Índio) deve seguir com o poder de demarcar novas terras indígenas, ao contrário do desejado pelo governo.

    A medida provisória de Bolsonaro, que também reduziu de 29 para 22 o número de pastas com status ministerial, ainda precisa ser votada pelos plenários da Câmara e do Congresso até 3 de junho, quando expira. As mudanças tiveram o apoio de deputados do centrão, grupo formado por partidos sem identidade ideológica cujo objetivo é aumentar o poder de pressão sobre o governo. Há ainda outras 10 medidas provisórias editadas pelo Palácio do Planalto que expiram nos próximos 15 dias.

    Outra derrota do governo ocorreu no dia 14 de maio, quando a Câmara aprovou a convocação do ministro da Educação, Abraham Weintraub, para prestar esclarecimentos sobre bloqueios orçamentários do setor, por 307 votos a favor e 82 contra. Somente o PSL, partido de Bolsonaro, e o Novo pediram que seus deputados votassem contra a convocação. Weintraub foi obrigado a ir à Câmara no dia seguinte.

    Além disso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), dá sinais de insatisfação com a gestão Bolsonaro e quer destituir o atual líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO), de seu posto.

    Em outro nível, também desgasta a imagem de Bolsonaro e preocupa o presidente o avanço das investigações do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro contra o seu filho Flávio Bolsonaro, senador pelo PSL do Rio. Nove pessoas que são alvo da quebra de sigilo bancário já trabalharam como assessores do presidente durante o tempo em que ele foi deputado federal. Entre eles, estão Nathália Queiroz, personal trainer que é filha de Fabrício Queiroz, além de 13 parentes do presidente da República.

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