Ir direto ao conteúdo

O que ‘Game of Thrones’ diz sobre o futuro do streaming

Fenômeno de audiência global, série chega ao fim e deixa questões abertas sobre hábitos de consumo na TV e na internet

     

    O último episódio de “Game of Thrones”, a série inspirada na saga “A Song of Ice and Fire” (As Crônicas de Gelo e Fogo, em português) de George R.R. Martin, vai ao ar neste domingo (19), às 22 horas no horário de Brasília.

    Ao longo de oito temporadas (totalizando 73 episódios), a produção dirigida por David Benioff e D.B. Weiss rendeu 47 Prêmios Emmy, milhões de fãs e US$ 1 bilhão de faturamento anual para a HBO. Desde a estreia da série, em 2011, o canal por assinatura conquistou 50 milhões de novos clientes.

    O penúltimo episódio, “The Bell”, transmitido no dia 12 de maio, quebrou recorde de audiência americana. Foram 18,4 milhões de espectadores, na TV e nos serviços de streaming. A expectativa é que o episódio final ultrapasse essa marca.

    Veja abaixo o trailer do último episódio:

     

    Nesta temporada final, a alta audiência enfrentou instabilidades nos serviços de streaming (HBO Go e HBO Now) nos Estados Unidos e na América Latina. No Brasil, fãs registraram milhares de reclamações referentes à falhas do sistema. Consultada pelo Nexo, a HBO não retornou o pedido de informações sobre os problemas técnicos.

    Streaming é uma tecnologia de transmissão instantânea e contínua de dados. Trata-se de um tipo de distribuição digital em tempo real, ou seja, não é necessário fazer o download dos arquivos.

    A ocorrência de falhas reflete uma característica da série mais popular do mundo: a forte presença na TV e, ao mesmo tempo, na internet (além dos serviços de streaming, a produção domina as redes sociais e é alvo do maior número de download ilegais).

    A experiência de ‘Game of Thrones’

    Fãs costumam assistir episódios de “Game of Thrones” em tempo real de lançamento, despertando discussões antes, durante e depois das exibições.

    A experiência de esperar a estreia dos episódios, em horário determinado pela HBO, é diferente de “maratonar” séries em plataformas de streaming sob demanda (como as presentes no catálogo da líder do segmento, a Netflix).

    'Game of Thrones' tornou-se fenômeno de audiência não só por sua produção, mas sua transmissão – ao vivo –, o que mobilizou o público a compartilhar experiências a cada episódio

    “Há uma atmosfera de evento”, definiu Pedro Curi, coordenador do curso de cinema e audiovisual da ESPM Rio, em entrevista ao Nexo em abril de 2019. “É algo contraditório, neste momento do streaming no audiovisual. Mas essa característica dá força à série”, acrescentou.

    Na tese “The Winter Is Coming”, Mateus Dias Vilela, professor da Faculdade SATC, também discutiu como “Game of Thrones” ultrapassa a TV e domina a internet – o fenômeno é conhecido como “social TV”, a integração de novas tecnologias à experiência de assistir programas televisivos.

    A partir de 2011, a consolidação do streaming como tendência no consumo de cultura digital mudou os hábitos de consumo de TV. Vídeos já respondem por mais de 70% do tráfego global de dados na internet, segundo estimativas da consultoria Boston Consulting Group, citada em reportagem da revista Exame, em março de 2019.

    “Passamos de uma experiência, basicamente comunitária, para uma experiência cada vez mais individual e solitária. Ou seja, o que mudou é o habitus de consumo audiovisual”, avaliou ao Nexo Fernando Carlos Moura, professor dos cursos de design digital, jornalismo, publicidade e propaganda da PUC-Campinas e do curso de produção executiva e gestão de televisão da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado).

    Na cultura da TV, o consumo é linear, pois os programas possuem data e hora marcados. Na cultura do streaming, não é linear: o usuário escolhe onde e quando assistir a determinado conteúdo. A novidade implica pensar modelos novos de negócios para emissoras de TV.

    “[Mas], ‘Game of Thrones’ demonstrou que a experiência ainda pode ser coletiva”, ponderou Moura. Além de comentar episódios em tempo real na internet, fãs também se reúnem em casas, bares e festas para assistir os capítulos juntos.

    A era pós-‘Game of Thrones’

    Às vésperas do fim de “Game of Thrones”, levantou-se o debate sobre o futuro da HBO, do streaming e da disputa dos produtores para lançar “o próximo ‘Game of Thrones’”, ou seja, um produto cultural que se torne um fenômeno de audiência global, conforme sintetizou o jornal americano Financial Times, em reportagem de 10 de abril de 2019.

    Diante da concorrências de plataformas de streaming, também produtoras de séries originais (como Netflix, Amazon e Apple), o futuro incerto da HBO pós-"Game of Thrones" também foi abordado por publicações como Los Angeles Times, Fox Business e Forbes.

    Em entrevista à revista Vulture, publicada em 15 de abril de 2019, os executivos Bob Greenblatt e Casey Bloys comentaram os próximos passos e produções da HBO previstas para 2019-2020. 

    “Obviamente ter um programa como ‘Game of Thrones’ é muito especial. E se o pessoal quisesse produzir mais temporadas, nós estaríamos de acordo. Mas tudo que é bom tem um fim”

    Casey Bloys

    chefe de programação da HBO, em entrevista à revista Vulture

    Em junho de 2019 começam as gravações do piloto de uma das séries derivadas de “Game of Thrones” – uma delas, segundo a revista Variety, será estrelada pela atriz Naomi Watts.

    Para especialistas de marketing digital e mídia, a série possui potencial para se desdobrar em “prequels” (produção que narra eventos anteriores à obra original) e “sequels” (produção que dá continuidade ou expande a obra original).

    “Tem dois elementos que são importantes: primeiro o grau de engajamento, são realmente fanáticos; o segundo é que ‘Game of Thrones’ explodiu pré-Netflix. Então é um dos últimos grandes símbolos dessa era. Quem se apega de tal maneira, gosta de manter esse culto de hábito. Coisa que se enfraquece muito daqui em diante”, disse Artur Igreja, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas),  em entrevista ao portal iG, em 9 de abril de 2019.

    Também são incertos os impactos nos hábitos de consumo na TV e no streaming.

    Para Fernando Carlos Moura, editor da Revista da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão) e organizador do curso de extensão “Streaming Digital: Técnicas Audiovisuais” na PUC-Campinas, as experiências de consumo na TV e no streaming são complementares, e não necessariamente excludentes.

    Segundo Moura, a diferença é que há um novo tipo de telespectador, que combina diversos serviços com “experiências multitelas” em diferentes suportes, incluindo smartphones, laptops e aparelhos de TV.

    “Estamos em um momento de transformação, que passa por uma experiência em múltiplas telas, nas quais o conteúdo ao vivo continuará a ser preponderante para os serviços de TV e os serviços sob demanda (como SvoD, VoD, OTT e TV Everywhere) sejam plataformas de exibição que juntem conteúdos ao vivo e acervos. Todos juntos ou separados. Nada é definitivo”

    Fernando Carlos Moura

    professor da PUC-Campinas e da FAAP, em entrevista ao Nexo

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!