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A mobilização nas ruas. E a instabilidade do governo

Sucesso de público no primeiro grande ato contra Bolsonaro diz mais sobre ‘o momento’ do que sobre ‘a legitimidade dos convocantes’, diz professor da USP. Presidente aposta no enfrentamento

     

    Os protestos de quarta-feira (15) contra cortes no orçamento da educação realizados pelo governo de Jair Bolsonaro reuniram um público diverso, do qual se destacaram estudantes, professores e pesquisadores. Foi o primeiro grande ato de abrangência nacional – houve manifestações em mais de 200 cidades – contra um presidente que está há menos de cinco meses no poder.

    Declarações iniciais do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que o corte seria uma resposta à “balbúrdia” em algumas universidades federais, seguido pela suspensão de bolsas de estudo, despertaram reação da comunidade acadêmica.

    A reação do próprio presidente quando as pessoas estavam nas ruas ajudou a inflamar ainda mais os manifestantes, chamados de “imbecis” e “idiotas úteis”. Na quinta-feira (16), Bolsonaro disse que só viu “faixa de Lula Livre, mais nada” na manifestação, tentando associá-la a uma iniciativa petista.

    A situação instável. E os novos atos

    Bolsonaro assumiu o comando do país em janeiro de 2019. Sua popularidade caiu desde então. O presidente já emplacou promessas de campanha, como a flexibilização nas regras de posse e de porte de armas. Ao mesmo tempo, vem adotando uma comunicação errática, com anúncios e recuos em série. Nas redes sociais, privilegia o tom moralista, com foco na guerra cultural.

    No Congresso, o presidente coleciona derrotas, além de embates com os líderes dos partidos e também com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A reforma da Previdência, principal aposta do governo para lidar com a crise fiscal pela qual passa o país, enfrenta resistências.

     

    Na sexta-feira (17), Bolsonaro enviou em grupos de WhatsApp um texto de um ex-candidato a vereador do Rio, endossando, na prática, seu conteúdo. O texto afirma que o Brasil é “ingovernável” sem que haja “conchavos” com o Congresso, reclama dos limites de poder de um presidente da República, ataca as “corporações” e sugere, no final, que donos de ativos vendam tudo porque o país é “disfuncional”.

    As interpretações foram muitas a respeito desse ato presidencial: foram desde aqueles que veem uma radicalização no enfrentamento com o Congresso – passando por quem aponta uma tentativa de abafar as novas suspeitas contra seu filho mais velho, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) –até aqueles que apontam a divulgação do texto como mais um ato impensado de Bolsonaro.

    Diante de um contexto de instabilidade, e com o sucesso da mobilização de 15 de maio, a UNE (União Nacional dos Estudantes) decidiu convocar um novo protesto contra o governo para o dia 30 de maio. A rede bolsonarista na internet, por sua vez, também se movimenta. Os apoiadores do presidente falam em fazer um ato a favor do governo no dia 26 de maio.

    A origem da primeira mobilização

    A manifestação nacional contra o governo teve origem em torno de outro tema. Ela estava sendo organizada, inicialmente, pelas centrais sindicais, que se opõem à reforma da Previdência em debate no Congresso. Mas o anúncio do corte no orçamento, no fim de abril, elevou a defesa da educação pública a pauta central.

    “Essa mobilização diz muito mais respeito sobre o momento em que ela foi feita do que à legitimidade dos convocantes”, disse ao Nexo Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas na USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do projeto “Monitor do debate político no meio digital”. “Claro que os convocantes foram percebidos como minimamente legítimos, mas em outra oportunidade eles não teriam mobilizado dessa maneira”, afirmou.

    O contexto que contribuiu para o protesto inclui os cortes orçamentários, as declarações do ministro da Educação e a percepção de que o governo estaria atacando as universidades.

    A UNE, que agora tenta reeditar a mobilização nacional contra Bolsonaro no dia 30 de maio, foi protagonista nas manifestações dos cara-pintadas contra Fernando Collor de Mello em 1992, numa série de atos que engrossaram o coro pelo impeachment do então presidente. A entidade, porém, perdeu centralidade nos mandatos petistas, entre 2003 e 2016, quando era mais alinhada ao governo federal.

    A atual presidente da UNE, Marianna Dias, afirmou ao Nexo que o ato foi um “grande sucesso”. “O dia 15 não foi um movimento feito estritamente pela rede social, nem estritamente pelos métodos tradicionais de organização do movimento estudantil. Foi uma combinação disso, que queremos repetir isso dia 30”, disse.

    Ela mencionou levantamento publicado na quinta-feira (16) pelo jornal Folha de S.Paulo mostrando que a esquerda foi mais ativa do que a direita no Twitter no tema da educação entre os dias 5 e 16 de maio, o que atraiu o centro político para a crítica a Bolsonaro. Nas duas primeiras semanas de maio, também havia sido registrada distribuição de notícias falsas em redes sociais e no WhatsApp para criticar o ambiente das universidades públicas.

    Para Ortellado, a UNE não é hoje um ator muito relevante nas redes sociais, meio de mobilização que ganha cada vez mais importância quando o tema é protesto de rua. Principalmente, segundo o pesquisador, se comparada a outra entidade com lideranças estudantis, o MBL (Movimento Brasil Livre), que cresceu defendendo o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

    O MBL foi autor dos posts mais compartilhados nas redes no dia da manifestação, quando tentou desqualificá-la dizendo que se tratava de uma fachada para levar adiante a pauta do “Lula Livre” e outras agendas da esquerda.

    Logo em seguida, ao notar o tamanho dos protestos, o MBL reviu sua tese, afirma Ortellado: “Eles disseram ‘não, essa manifestação foi legítima, nossa primeira avaliação foi errada. Ela foi muito além dos militantes de esquerda e é preciso reconhecer que o governo errou, e que isso gerou uma reação das pessoas que não são militantes de esquerda’”.

    A força das redes

    A internet tornou mais fácil para as pessoas se comunicarem, compartilharem opiniões e combinarem ida a atos, reduzindo o papel de entidades tradicionais. Esse fenômeno ficou claro nas Jornadas de Junho de 2013, no Brasil, o no movimento Occupy, nos Estados Unidos, em 2011. Por outro lado, protestos organizados de forma horizontal, sem líderes claros, enfrentam mais dificuldade de influir pontualmente na formulação de políticas públicas.

    Essa questão foi abordada em 2012 pelos professores W. Lance Bennett, da Universidade de Washington Seattle, e Alexandra Segerberg, da Universidade de Estocolmo. Eles dividem as mobilizações políticas em três tipos:

    Mobilizações

    Ação coletiva

    É o padrão tradicional de mobilizações, ancorada em organizações com sede física e um histórico de articulação. As organizações usam recursos para tentar convencer as pessoas a se engajarem em uma causa, por meio de panfletos ou reuniões, por exemplo. Contra elas, há o problema de que há um custo para os que decidem se engajar, em termos de tempo e dedicação, enquanto eventuais conquistas beneficiarão mesmo aqueles que não se engajaram. Nesse esquema, redes sociais e comunicação digital reduzem os custos de divulgação e coordenação, mas não alteram a dinâmica e as bases da organização das mobilizações.

    Ação conectiva

    Nesse tipo de mobilização, a mídia digital é o próprio agente de organização. Indivíduos podem se sentir motivados a participar da mobilização por contra própria, à medida em que conteúdo que ele compartilha é também compartilhado e reconhecido por outras pessoas com quem ele se identifica. Nesse modelo, o custo de engajamento é muito reduzido, e a coordenação via redes digitais pode resultar em ações que se assemelham às realizadas pela ação coletiva, mas sem o papel desempenhado por organizações tradicionais. Um exemplo são as Jornadas de Junho, no Brasil.

    Ação híbrida

    É possível que ambos os modelos se combinem. Em alguns casos, organizações tradicionais podem operar nos bastidores de organizações, fornecendo estrutura ou material, enquanto um processo de ação conectiva se desenrola formando redes e mobilizando pessoas. O grau de cada modelo na organização de uma mobilização também varia.

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