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Os surtos de toxoplasmose em SP. E os sintomas da doença

Com a confirmação de 45 casos da doença desde março na cidade, Coordenadoria da Vigilância em Saúde investiga possíveis focos de contaminação

     

    Desde março de 2019, foram registrados 3 surtos de toxoplasmose em diferentes regiões da cidade de São Paulo, totalizando 45 casos. A informação é da Covisa (Coordenadoria de Vigilância em Saúde), órgão da Secretaria de Saúde responsável pela vigilância epidemiológica na capital paulista.

    A notificação de casos agudos da doença passou a ser monitorada, por recomendação da coordenadoria paulistana e do Centro de Vigilância Epidemiológica, vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, para diagnosticar a dimensão das ocorrências e investigar fontes de infecção e situações de risco.

    “A vigilância está realizando investigação com objetivo de identificar, monitorar e verificar a magnitude dos casos, bem como as situações de risco - fontes de alimento ou água contaminados - que possam estar contribuindo para o aparecimento destes casos”, informou a Covisa, em nota divulgada em 15 de maio de 2019.

    O que é um surto

    O termo é usado quando ocorre um aumento repentino do número de casos de uma doença em determinada área, maior do que o esperado pelas autoridades de saúde.

    Embora a expressão soe alarmista, no atual caso da toxoplasmose foi considerado “surto” o registro mínimo de 2 ocorrências na cidade. É diferente de epidemia, que se refere ao aumento considerável de casos, às vezes repentino, acima do número esperado na população - a classificação varia de região para região.

    O que é toxoplasmose

    Infecção provocada pelo protozoário Toxoplasma gondii, é uma doença extremamente comum: estima-se que até 80% da população brasileira tem ou teve toxoplasmose em certo momento da vida, tendo ou não sintomas.

    Na fase inicial da infecção, os sintomas são similares aos da gripe, como dores musculares, febre e gânglios inchados - em alguns casos, o tratamento consiste apenas em controlar os sintomas. Mas a doença pode trazer complicações, como sequelas na infecção congênita (de gestante para feto) e, para pessoas com o sistema imunológico fragilizado, toxoplasmose ocular (que pode provocar cegueira) e cerebral (que pode causar convulsões e coma).

    Nos casos em que os sintomas são leves, não é preciso tratamento especial para a doença, mas para controlar os sintomas. Nos casos em que há sintomas e complicações mais graves, os pacientes recebem medicamentos específicos. Uma vez curado, o paciente ainda tem o parasita residual no corpo.

    O parasita é transmitido por três vias: no contato com fezes de gatos e outros felinos; na ingestão de água ou alimentos contaminados; durante  a gestação, entre mãe e feto. O diagnóstico é baseado em exames de sangue.

    A notificação de casos

    Diferentemente de outras doenças, como zika, malária e febre amarela, o diagnóstico de toxoplasmose não é obrigatoriamente reportado às autoridades de saúde.

    A notificação compulsória só vale para casos de gestantes e toxoplasmose congênita. Mulheres infectadas durante a gestação podem ter aborto espontâneo, e bebês podem nascer com icterícia, macrocefalia, microcefalia e crises convulsivas.

    Em São Paulo, a Covisa foi informada de 45 casos a partir de denúncias feitas na ouvidoria do SUS (Sistema Único de Saúde). Consultada pelo Nexo, a coordenadoria afirmou não possuir dados referentes a anos anteriores, justamente porque a notificação não é obrigatória.

    Desde 2015, o Ministério da Saúde tenta articular uma vigilância integrada com as secretarias estaduais e municipais de saúde para acompanhar casos de toxoplasmose gestacional e congênita. “O objetivo é padronizar conceitos, métodos e atendimentos já adotados”, diz o site oficial.

    Segundo o Protocolo de Notificação e Investigação: Toxoplasmose Gestacional e Congênita, publicado pelo Ministério da Saúde em 2018, ao confirmar o diagnóstico de toxoplasmose em gestantes, os profissionais de saúde precisam verificar, durante a consulta, se o caso se relaciona a outros casos suspeitos - o vínculo epide­miológico pode configurar surto.

    Diante da suspeita de surto, a vigilância municipal deve ser notificada imediatamente para iniciar uma investi­gação epidemiológica, ou seja, um trabalho de campo para identificar a fonte de contaminação e impedir a ocorrência de novos casos.

    Entretanto, a investigação para identificar a fonte não é simples e, muitas vezes, não chega a conclusões definitivas.

    As fontes de infecção

    Em São Paulo, a Covisa não informou quais e quantos são os locais investigados.

    “A norma não permite a divulgação do nome dos estabelecimentos monitorados até que haja a comprovação do risco à saúde. Estão sendo investigadas fontes alimentares/situações de risco destes locais, assim como fornecedores de alimentos em comum. As apurações epidemiológica, sanitária, ambiental e laboratorial dos estabelecimentos estão em andamento”, afirmou a coordenadoria.

    Um dos endereços vistoriados, em 7 de maio de 2019, foi um bar em Pinheiros, zona oeste da cidade. Amostras de alimentos e de água foram coletadas e encaminhadas ao Laboratório de Controle de Qualidade em Saúde para análise. Os resultados ainda não foram divulgados.

    Em 3 de abril de 2019, um relato anônimo havia sido publicado no site ReclameAqui.  Após a publicação do depoimento, a vigilância sanitária fez uma primeira visita ao estabelecimento, registrada em 26 de abril de 2019. “No momento da inspeção, foi verificado que o estabelecimento apresentava condições satisfatórias de higiene e conservação de suas instalações, e cumpria as boas práticas na manipulação de alimentos. Considerando as condições sanitárias do local, e as práticas de manipulação de alimentos relatadas pelos manipuladores de alimentos e pelo responsável legal, não foi constatada no local prática de risco para a transmissão de toxoplasma através de alimentos”, diz o laudo.

    Toxoplasmose nas redes e em outras cidades

    Recentemente, a toxoplasmose foi foco de discussões em três cidades.

    Em São Paulo, circulou a informação, falsa, de que o Instituto de Infectologia Emílio Ribas estaria atendendo casos de toxoplasmose provocados pela água do bairro de Pinheiros. O hospital desmentiu a ocorrência e a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) informou que não há registro de água contaminada nesta região ou notificações de moradores.

    Em Campinas (SP) foram confirmados 11 casos de toxoplasmose em um colégio. A Vigilância Epidemiológica interditou a lanchonete da escola particular em 24 de abril de 2019. Entretanto, ainda não foi divulgada conclusão sobre a fonte de infecção. Entre as hipóteses estão alimentos da cantina, água dos bebedouros ou contato direto com gatos no colégio.

    Em Santa Maria (RS) foram confirmados 900 casos de toxoplasmose entre abril de 2018 e abril de 2019. Ao longo das investigações do surto, a principal suspeita para a contaminação foi a água da cidade.

    Em junho de 2018, o então ministro da Saúde Gilberto Occhi atribuiu a origem do surto à água da cidade. Jorge Pozzobon, prefeito da cidade gaúcha, negou a informação. Francisco Harrisson, secretário de saúde, voltou a responsabilizar a água.

    Em março de 2019, a Secretaria de Estado de Saúde publicou nota informando que a investigação do surto ainda não foi concluída.

    “A análise depende de questões como o acompanhamento de algumas gestantes, estudos ambientais referentes à água de consumo humano e análises genéticas sobre as cepas (ou tipos) de protozoários encontrados na cidade”, dizia a nota.

    Recomendações

    Segundo o Ministério da Saúde, a principal medida de prevenção da toxoplasmose é a promoção de ações de educação em saúde.

    Estas são 6 recomendações do órgão:

    1. Lavar bem as mãos, sempre
    2. Evitar carnes cruas (o cozimento de microondas não é confiável para matar o protozoário)
    3. Lavar verduras e legumes com água adequada (100% potável)
    4. Lavar sempre as mãos após contato com gatos
    5. Trocar caixa de areia dos gatos a cada 3 dias
    6. Controlar a proliferação de ratos e insetos na casa

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