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O projeto chinês de ‘retraduzir’ a Bíblia. E o cerco às religiões

Ações recentes do governo de Xi Jinping incluem derrubada de igrejas e prisão de clérigos

     

    Até 2022, a China pretende publicar uma nova versão da Bíblia, retraduzida, comentada e alinhada com as diretrizes comunistas, a fim de estabelecer uma “compreensão correta” do livro originalmente escrito em hebraico, aramaico e grego antigo.

    A tradução é parte do projeto do governo do presidente Xi Jinping, também secretário-geral do Partido Comunista Chinês, para “promover a cristandade chinesa”.

    A aceitação da fé

    Oficialmente, a China é um país ateu e garante liberdade religiosa no artigo 36 de sua Constituição. Entretanto, apenas 5 credos são sancionados e reconhecidos pelo governo: budismo, taoísmo, islamismo, protestantismo e catolicismo. A Igreja Católica Chinesa oficial é controlada pelo governo e não é vinculada ao Vaticano - as relações diplomáticas entre China e Vaticano foram rompidas em 1951.

    Extraoficialmente, casos de perseguição religiosa proliferam no país, principalmente contra cristãos e muçulmanos. No país de 1,37 bilhão de habitantes vivem 12 milhões de católicos (segundo a agência britânica BBC, a estimativa de cristãos pode saltar para 100 milhões) e cerca de 20 milhões de muçulmanos.

    Em fevereiro de 2018, entrou em vigor uma nova versão do Regulamento de Assuntos Religiosos, que endureceu o controle das autoridades chinesas sobre as atividades religiosas - algumas igrejas apoiadas pelo Vaticano se tornaram "clandestinas". Desde então, o governo derrubou igrejas alegando status ilegal, confiscou cruzes e obrigou fiéis a substituir imagens de Jesus Cristo por retratos de Xi Jinping. O uso do véu islâmico também foi proibido.

    Além de igrejas “clandestinas” (as não autorizadas pelas autoridades chinesas), fiéis têm se reunido para rezar e ler a Bíblia domesticamente. Segundo reportagem da BBC, atualmente há centenas de igrejas não-oficiais instaladas em casas e apartamentos em Pequim.

    Analistas internacionais vêm considerando as atuais diretrizes como a mais grave repressão religiosa no país desde a revolução cultural (1966-1976) que teve como alvo a filosofia e as religiões, entre outros.

    “O governo orquestrou uma campanha para ‘sinicizar’ ou ‘chinalizar’ [submeter à China] o cristianismo, tornando o cristianismo uma religião inteiramente submissa e alinhada ao Partido [Comunista Chinês]”, definiu o historiador Lian Xi, professor da Duke University, à correspondente Lily Kuo, do jornal britânico The Guardian.

    Em setembro de 2018, após anos de negociações, China e Vaticano selaram um acordo histórico sobre bispos. Segundo o tratado, o Vaticano reconheceu 7 dos 60 bispos nomeados pelo governo chinês nas últimas décadas.

    Entretanto, no mesmo mês, o Escritório Nacional de Assuntos Religiosos anunciou um projeto de lei que proíbe na internet a veiculação de conteúdos relacionado a religiões, incluindo fotos, vídeos, textos e transmissões ao vivo. Tempos antes, em abril de 2018, a Bíblia foi retirada do ar de livrarias virtuais do país.

    3 casos emblemáticos

    O caso de Pequim

    Em setembro de 2018, a Igreja Zion, uma das maiores congregações protestantes não-oficiais na capital Pequim, foi fechada bruscamente e teve materiais considerados “ilegais” confiscados. A instituição tinha se recusado a instalar câmeras de segurança para o governo monitorar suas atividades.

    O caso de Xinjiang

    Em outubro de 2018, a região de Xinjiang inseriu novas cláusulas à sua legislação contra religiões e ideologias “extremistas”, permitindo o uso de centros educacionais para “transformar” seus seguidores. Na prática, a medida regularizou campos de detenção onde vêm sendo mantidos muçulmanos uigures (minoria étnica muçulmana que vive no noroeste do país). A partir da análise de imagens de satélite e relatos de testemunhas, o pesquisador Adrian Zenz estima que atualmente há 1,5 milhão de uigures e outros muçulmanos detidos.

    O caso de Sichuan

    Em dezembro de 2018, o reverendo Wang Yi, da Igreja da Aliança da Chuva Antecipada, na província de Sichuan, foi preso por "subversão". A pena para este crime é de mais de 15 anos de prisão. Foram detidos outros 100 integrantes da igreja. Wang criticava publicamente e organizava diversas petições contra as leis chinesas de controle da religião.

    A liberdade religiosa no contexto chinês

    Segundo o último relatório da Anistia Internacional, publicado em fevereiro de 2018, aumentaram expressivamente os impedimentos às atividades religiosas fora das igrejas autorizadas pelo Estado, principalmente após as alterações no Regulamento de Assuntos Religiosos (propostas em junho de 2017 e aplicadas em fevereiro de 2018).

    “Foi codificado em lei um profundo controle do Estado sobre todos os aspectos da prática religiosa, com a ampliação dos poderes das autoridades de todos os níveis de governo para monitorar, controlar e potencialmente punir práticas religiosas. A legislação revisada, que enfatizava a segurança nacional, com o objetivo de coibir ‘infiltração e extremismo’, podia ser usada para suprimir ainda mais o direito à liberdade de crença e religião, especialmente dos budistas tibetanos, dos muçulmanos uigures e das igrejas não reconhecidas oficialmente”, diz o relatório. 

    No diagnóstico da Anistia Internacional, religiosos estão sendo detidos de forma arbitrária, submetidos a julgamentos injustos e à tortura.

    De acordo com o relatório da Human Rights Watch, divulgado em janeiro de 2019, as restrições religiosas feitas pelo governo chinês incluem ações de controle de publicações, finanças e agendas dos clérigos. Segundo dados da organização de direitos humanos, o governo vem tratando grupos religiosos não-oficiais como “cultos do mal”, sujeitos a agressões policiais e prisão.

    Entre as ocorrências compiladas no relatório está a prisão do reverendo John Sanqiang Cao, condenado a 7 anos, acusado de “organizar outros para ilegalmente cruzar a fronteira” entre China e Mianmar, em março de 2018. Na província de Henan, dezenas de igrejas foram demolidas e bíblias foram confiscadas. Na região de Ningxia, mesquitas também foram demolidas e materiais islâmicos foram confiscados.

    “Recentemente, a perseguição de grupos religiosos na China esteve nas manchetes. Essas novas histórias trazem um retrato da China como um estado que ativamente interfere na religião. Isso é muito mais claro no tratamento de muçulmanos e cristãos”, avaliou à revista Forbes a pesquisadora Ewelina U. Ochab, que estuda perseguições a minorias no mundo todo e escreve relatórios para as Nações Unidas.

    “A perseguição foi intensificada nos últimos meses ao ponto de não poder ser mais ignorada pela comunidade internacional”, afirmou.

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