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Por que um leilão levou a França a devolver fósseis ao Brasil

Esqueleto de pterossauro originário do sertão nordestino foi oferecido pela internet por quase R$ 1 milhão, o que chamou a atenção de uma paleontóloga brasileira

     

    Com lance inicial de US$ 250 mil, o equivalente a R$ 995 mil, um esqueleto quase completo de um pterossauro da espécie Anhanguera foi levado a leilão no eBay, site americano de comércio eletrônico. Ao ver o anúncio feito por um francês do fóssil de quase quatro metros de envergadura, a paleontóloga Taissa Rodrigues, que pertence à Sociedade Brasileira de Paleontologia e estuda a espécie, estranhou que um material tão raro e de tamanho interesse científico fosse vendido de forma corriqueira pela internet.

    Os pterossauros, primeiros vertebrados a desenvolver a habilidade de voar, existiram por mais de 150 milhões de anos e viveram em todos os continentes. Os da espécie Anhanguera, porém, são originários da Chapada do Araripe, região entre Ceará, Piauí e Pernambuco. Como o material foi parar na França era uma incógnita para Rodrigues. Por isso, ela decidiu levar o caso ao Ministério Público Federal.

    O esquema de exportação ilegal

    Uma investigação foi aberta pelo órgão em Juazeiro do Norte, no Ceará. O anúncio no eBay dizia que o material estava em Charleville Mèzières, uma comuna com cerca de 50 mil habitantes na França.

    Com auxílio das autoridades daquele país, chegou-se ao dono das peças, o proprietário de um grande laboratório de reparação e reconstituição de fósseis na cidade de Lyon. Após operação de busca e apreensão, os investigadores descobriram outros 45 fósseis (de tartarugas marinhas, aracnídeos, peixes, répteis, insetos e plantas) retirados ilegalmente do Brasil. Suspeita-se que tenham sido negociados num esquema de exportação ilegal que funcionou entre os anos 1980 e 1990. Havia com o suspeito mais peças originárias de outros países.

    A repatriação do material

    A origem dos fósseis foi confirmada por especialistas da Fundação Urca (Universidade Regional do Cariri), no Ceará, e da Universidade Federal de Pernambuco por meio de descrições do material, análise do aspecto tridimensional dos ossos fossilizados e de fotografias. Estima-se que os animais tenham vivido na região do sertão nordestino há mais de 110 milhões de anos.

    No início de 2019, a Justiça da França determinou o envio das 45 peças ao Brasil. Elas foram avaliados em € 600 mil (o equivalente a R$ 2,7 milhões). Não cabe mais recurso contra a decisão na justiça francesa sobre esse material. Apenas o pterossauro ainda não teve o destino decidido, pois sua repatriação ainda depende de decisão judicial. Um julgamento final sobre o caso está previsto para junho de 2019.

    No final de abril, o Ministério Público Federal solicitou autorização para realizar vistoria no material para definir como será feito o transporte. Os custos serão pagos pela Urca, que gere o Parque Geológico do Araripe, o primeiro do gênero das Américas reconhecido pela Unesco.

    Ao site do Ministério Público Federal, a paleontóloga Taissa Rodrigues comemorou a repatriação. “Era um patrimônio brasileiro que podia ter ido parar na casa de uma pessoa, perdendo todo o seu valor cultural. Provavelmente ficaria pendurado em uma parede como peça decorativa e não como objeto de valor científico e cultural para o Brasil. Com o retorno do material, um estudante brasileiro, por exemplo, poderá de fato estudar esse material, o que nos deixa muito felizes”, disse.

     

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