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O que motiva os mais ricos a doar dinheiro para causas sociais

Realizado pela ONG Conectas e pela Fundação Getulio Vargas, estudo traça perfil inédito do doador de alta renda no país

     

    A intenção de “fazer a diferença” é o que mais impulsiona os mais ricos a doar dinheiro para causas de organizações sociais no Brasil. A confiança nas instituições é o que define os destinatários das doações: cerca de 76% doam por confiar nas entidades; 90% deixariam de doar se perderem confiança nelas.

    Os dados foram publicados no relatório da Pesquisa Comportamental sobre Doadores de Alta Renda, realizada pela ONG Conectas Direitos Humanos e pelo Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

    Divulgado em 9 de maio de 2019, o estudo foi feito pelos pesquisadores Alexandre Abdal, Mário Aquino Alves, Fernando do Amaral Nogueira, Andréa Pineda, Pedro Henrique Campos, Guilherme Calixto e Gisele Campos.

    Segundo o estudo, os potenciais doadores de alta renda possuem rendimentos mensais de R$ 30 mil, no mínimo. Correspondem a uma pequena parcela da sociedade brasileira: 0,2% da população segundo dados da Rais (Relação de Informações Sociais) do antigo Ministério do Trabalho, ou até 1% da população segundo outro indicador, o Grandes Números das Declarações do Imposto de Renda de Pessoa Física, da Receita Federal.

    O grupo é majoritariamente masculino (75%), mais velho (75% na faixa etária de 40 a 64 anos), branco (80%) e instruído (86% possuem ensino superior). Residem nas regiões sudeste (49,93%) e sul (17,92%) do país. A maioria é católica (49,7%).

    Em abril de 2018, os pesquisadores realizaram um encontro com seis pessoas dentro do perfil para discutir os tópicos abordados no questionário na Fundação Getúlio Vargas - a prática é chamada de “grupo focal”. Participaram do encontro um bancário de 56 anos, uma diplomata de 30 anos, um profissional do mercado financeiro de 43 anos, uma bancária de 38 anos, um publicitário de 44 anos e uma advogada de 48 anos.

    Entre maio e agosto de 2018, os pesquisadores aplicaram um questionário de 44 perguntas a 348 pessoas que se enquadram no perfil socioeconômico. Entre eles, 76,9% declaram que doaram dinheiro para organizações sociais em 2017.

    R$ 165.000

    foi o valor anual máximo doado por entrevistados do estudo

    R$ 3.544

    foi a média anual dos valores doados por entrevistados do estudo

    R$ 300

    foi o valor mínimo mensal dos participantes do grupo focal do estudo

    O destino das doações

    • 76,9% doaram dinheiro para organizações ou entidades sociais
    • 60,8% doaram bens ou serviços para organizações
    • 59,3% doaram dinheiro diretamente para conhecidos
    • 42,9% doaram dinheiro ou deram esmola para desconhecidos
    • 42,5% doaram dinheiro para projetos culturais ou fundos para adolescentes, crianças ou idosos
    • 35,8% fizeram horas de trabalho voluntário para organizações
    • 31,3% fizeram doações não monetárias para conhecidos
    • 29,1% fizeram doações para campanhas para desabrigados ou atingidos por catástrofes
    • 27,2% fizeram doações ou pagamento de dízimo a igrejas
    • 22,4% doaram sangue ou órgãos

    Doações de quem não é rico

    A pesquisa da Conectas se concentrou na população brasileira de alta renda.

    O estudo “Country Giving Report”, feito pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) entre agosto de 2016 e julho de 2017, por sua vez, fez um levantamento mais geral.

    Divulgado em novembro de 2017, o relatório indicou que as camadas mais ricas contam com a maior população relativa praticando doações (86% dos com renda familiar anual acima de R$ 50 mil) e dedicam os maiores valores para as causas que apoiam (mediana de R$ 300 por doação, entre aqueles com renda anual acima de R$ 100 mil).

    Mas as camadas não tão ricas doam bastante e, proporcionalmente, dedicam uma fatia maior de sua renda para doações: entre a população com renda familiar anual de até R$ 10 mil, 71% também doou alguma quantia no período pesquisado. O valor mediano dessas contribuições foi R$ 100.

    As motivações dos doadores de alta renda

    Segundo o estudo da Conectas, a população de alta renda se envolve em ações de solidariedade simultâneas e diversas. “Embora isso não signifique necessariamente que esse estrato populacional ‘doe muito’ ou o ‘máximo que pode’, significa que realiza uma grande diversidade de práticas”, diz o estudo.

    As principais motivações para doar estavam associadas à intenção de impactar a realidade social. Segundo as respostas ao questionário, 39,93% disseram sentir “pena de pessoas passando necessidade” e 7,84% declararam se sentir culpados por “viver em um país com tanta pobreza”.

    Motivos para ser solidário

    • 76,49% por confiar na organização ou pessoa ajudada
    • 70,90% por considerar uma forma de retribuir o que possui
    • 60,07% responderam “porque me faz bem / me dá satisfação”
    • 39,93% responderam “porque tem muita gente que precisa de ajuda / tenho pena de pessoas passando necessidade”
    • 22,01% por se tratar de um hábito pessoal ou da família
    • 14,93% por considerar que “o governo não pode ou não consegue resolver tudo sozinho”
    • 11,94% por se tratar de um hábito incentivado pela religião
    • 7,84% responderam “porque sinto culpa em viver em um país com tanta pobreza”
    • 4,10% por incentivos fiscais
    • 0,75% pelo reconhecimento / status

    Motivos alegados para não ser solidário

    • 60% por não confiar na organização ou pessoa que pede ajuda
    • 20% por não ter hábito na família
    • 10% afirmaram que “nunca ninguém pediu”
    • 10% por conflitos com valores pessoais (ideológicos, políticos ou religiosos)
    • 10% afirmaram não ter renda
    • 10% preferem “doar de outras formas”
    • 7,5% responderam “porque não é minha responsabilidade”
    • 6,3% responderam “porque não gosto”
    • 6,3% consideram que as instituições não merecem doações
    • 3,8% disseram não saber como doar
    • 2,5% justificaram que já pagam “muitos impostos”
    • 1,3% responderam que “deveria ser papel do governo”

    As causas apoiadas

    Ao longo da pesquisa da Conectas, os participantes citaram mais de 800 causas diferentes como possíveis destinatários de suas doações.

    As causas mais citadas são relacionadas a crianças e adolescentes (20% das menções), saúde (20%), educação (15%), erradicação da fome e da pobreza (10%).

    As expressões direitos humanos e meio ambiente praticamente não foram citadas pelos entrevistados: dos 348 participantes que responderam aos questionários, apenas 3 citaram espontaneamente direitos humanos e 6 mencionaram meio ambiente.

    ‘Há significativo desconhecimento, resistência e preconceito em relação a direitos humanos por parte da população de alto poder aquisitivo’, diz o estudo

    Segundo o relatório, um dos participantes da pesquisa vinculou direitos humanos à ideia de impunidade, como se as “organizações de direitos humanos defendem quem não precisa ser defendido ou pessoas que fizeram mal para outras pessoas”.

    De acordo com análise dos pesquisadores, os temas relacionados a direitos humanos que mais sensibilizaram os participantes foram população em situação de rua, segurança, mulheres e desrespeito de direitos por empresas.

    Os temas relacionados a direitos humanos que menos despertaram interesse dos participantes da pesquisa tratavam de direitos de grupos minoritários: ações afirmativas, questões indígenas, quilombolas e população LGBTI.

    Entre as recomendações dos pesquisadores para organizações sociais estão a realização de campanhas de conscientização sobre direitos humanos e informação sobre os impactos reais das atividades das organizações - em outras palavras, substituindo efeitos abstratos por resultados concretos.

    O deficit de informação

    Em ensaio publicado no Nexo em dezembro de 2015, Andre Degenszajn, fundador e atualmente integrante do conselho diretor da Conectas, argumenta que há um deficit estrutural de informação sobre o setor sem fins lucrativos no Brasil.

    “Não há dados oficiais disponíveis sobre quanto as organizações da sociedade civil movimentam em termos de recursos, mas sabe-se que empregam, formalmente, 5,8% do total de trabalhadores assalariados no país. Ou seja, é um setor econômico significativo, principalmente se considerarmos ainda o alto grau de informalidade e o volume de trabalho voluntário existente. [...] Considerando as melhores estimativas, o setor filantrópico no Brasil movimenta cerca de R$ 20 bilhões por ano, incluindo doações de pessoas físicas”, escreveu.

    Segundo Degenszajn, o crescimento do investimento social e de filantropia no país dependem de três fatores: o contexto econômico, a cultura da doação e um marco regulatório para incentivar doações (incentivos fiscais e regime tributário).

    “Nenhum deles é absolutamente determinante, mas contribuem significativamente para o desenvolvimento do setor. E, além disso, se influenciam mutuamente. Seja pela visão do seu papel na redução de desigualdades, seja pelo dever moral de doar, como defende o filósofo Peter Singer a partir da noção de altruísmo efetivo, as doações podem ter um papel fundamental no desenvolvimento social do país”, afirmou.

    Em entrevista ao Nexo em dezembro de 2015, o filósofo australiano Peter Singer, autor de “The Most Good You Can Do: How Effective Altruism Is Changing Ideas About Living Ethically” (“o maior bem que você pode fazer: como o altruísmo eficiente está mudando ideias sobre como viver eticamente”, em tradução livre) argumentou que fazer caridade é um dever moral e deveria ser um ato obrigatório - mas que deve ser feito racionalmente.

    “A caridade é uma decisão emocional, não racional. As pessoas doam de maneira impulsiva. Os psicólogos chamam isso de ‘warm-glow giving’, o ato de doar para se sentir bem por acreditar que está fazendo a coisa certa. Isso acontece em nível emocional, e meu argumento é que embora ajudar os outros seja ótimo e o certo a se fazer, não é o suficiente. É preciso usar a cabeça tanto quanto o coração”, afirmou.

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