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Este artista ilustrou histórias de vítimas da ditadura militar

‘ABC da Ditadura’, do designer Gustavo Berocan Veiga, baseou desenhos em depoimentos dados à Comissão Nacional da Verdade, que apurou violações de direitos humanos entre 1964 e 1985

     

    Artista brasileiro baseado na Espanha, Gustavo Berocan Veiga criou no Instagram a série de ilustrações “ABC da Ditadura”, que recupera a memória de vítimas da ditadura militar brasileira (1964-1985).

    A partir de depoimentos em relatórios da Comissão Nacional da Verdade, que foi instituída pelo governo federal em 2011 para investigar graves violações de direitos humanos entre 1946 e 1988, Veiga desenhou retratos dedicados às vítimas e aos crimes praticados contra elas como forma de “reivindicar respeito” por seu passado histórico.

    “Minha ideia era dedicar esse trabalho às vítimas, que ao meu ver são invisibilizadas antes mesmo de suas mortes pela versão oficial [da ditadura] da [história da] época — que, infelizmente, é reproduzida por muita gente. Senti necessidade de ver a cara dessas pessoas, ler seus nomes, suas biografias, ler documentos sobre suas execuções”

    Gustavo Berocan Veiga

    ilustrador e criador do “ABC da Ditadura”, em entrevista ao Nexo

    As ilustrações são uma proposta de Berocan para o projeto #36daysoftype (“36 dias de tipos”, em tradução livre), iniciativa que convida artistas e designers a compartilhar sua leitura dos algarismos e letras do alfabeto. Berocan, no total, publicou 36 ilustrações no Instagram, a maioria baseadas nas iniciais dos homenageados.

     
     
     

    A ideia do projeto, segundo Berocan, é usar os desenhos como forma de contrapor o que ele chama de revisionismo histórico empreendido pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), que ora negou, ora celebrou os crimes da ditadura militar durante a campanha ao Planalto e, no cargo, incentivou que órgãos do governo comemorassem o golpe de 1964.

    “O relatório da Comissão da Verdade foi o melhor meio que encontrei para documentar [os casos]”, afirmou ao Nexo o ilustrador, que disse ter considerado a produção da série “bastante difícil”. Não conseguiu ficar indiferente a relatos de tortura, e em alguns momentos disse ter reduzido o ritmo do trabalho, que o estavam afetando “animicamente”.

    Iniciada no golpe militar de 1964, durante 21 anos a ditadura perseguiu adversários políticos, promoveu assassinatos e torturas e censurou a imprensa e as artes. Agentes de Estado cometeram “graves violações de direitos humanos”, a serviço da ditadura ou com a conivência estatal, contra cidadãos brasileiros e estrangeiros, diz a Comissão da Verdade.

    20 mil

    pessoas foram torturadas na ditadura militar

    434

    foram dados como mortos ou desaparecidos

    800

    foram presos por razões políticas

    Ao Nexo, Berocan classificou o período como de “enorme brutalidade do Estado contra a sociedade brasileira”, marcado pelo abuso de violências do tipo física, psicológica e sexual contra as pessoas que reprimiu. “É um período que precisamos estudar mais, até para podermos entender o presente. Espero que o projeto sirva para as pessoas se interessarem pela Comissão da Verdade”, ele afirmou.

    O ilustrador ainda disse que pretende “dar uma forma física” ao projeto, para que saia das telas e “ganhe as ruas”, no formato de livro ou cartaz. Isso porque, para ele, a recepção à série foi “um pouco fria” no Instagram, onde “as pessoas não desejam ler coisas desagradáveis”, apesar de sua relevância. “Era consciente disso [da recepção nas redes], mas quis fazer uma provocação, ver até onde poderia chegar.”

    Berocan estudou ilustração na Escola Massana d’Arts i Oficis, na Espanha, e é formado em jornalismo pela Universidade de Brasília. Atualmente, vive em Palma, na ilha de Mallorca, Espanha. Trabalhou como designer gráfico para jornais, revistas e marcas, buscando combinar “imagem, expressão e informação” nos projetos próprios.

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