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A identidade secreta do inventor do bitcoin. E o marketing ao redor

Desde 2008, a personalidade Satoshi Nakamoto permanece em sigilo. Agora, virou ‘garoto propaganda’ de ferramenta chinesa de inteligência artificial

     

    Satoshi Nakamoto é o pseudônimo utilizado pelo responsável (ou responsáveis) pela invenção do bitcoin, em agosto de 2008. Nesta segunda-feira (13), o valor da moeda virtual subiu para mais de US$ 8.000, o maior nível desde julho de 2018.

    Em 24 de abril de 2019 foi lançado o site “Got Satoshi”, que prometia revelar a identidade de Satoshi em 14 de maio de 2019.

    Nesta terça-feira (14), a contagem regressiva chegou ao fim, sem cumprir a promessa. Tratava-se, na verdade, de uma ação de marketing da companhia chinesa ObEN, que desenvolve ferramentas de inteligência artificial, como um repórter-robô e um anfitrião digital para o tradicional Festival da Primavera, em Pequim.

    “Este é Satoshi, o primeiro âncora feito com inteligência artificial”, diz a ação. Neste contexto, Satoshi é um jornalista virtual que lê notícias no aplicativo Pai News.

    Quem é Satoshi Nakamoto

    Há diversas especulações sobre a identidade do inventor do bitcoin, que continua anônimo.

    Em 2011, o escritor Joshua Davis, da revista americana The New Yorker, tentou decifrar a identidade de Satoshi, que inicialmente era descrito como um programador nipo-americano na casa dos 30 anos.

    “Eu adoraria dizer que eu sou Satoshi, porque o bitcoin é muito inteligente. Mas não sou eu. [...] Ter um fundo mítico é um excelente truque de marketing”, respondeu à reportagem da New Yorker o sociólogo Vili Lehdonvirta, professor do Oxford Internet Institute.

    Outro “suspeito” era o estudante irlandês Michael Clear, da Trinity College, em Dublin. “Eu não sou Satoshi mas, se fosse, eu não diria a você”, declarou a Davis. Segundo Clear, a identidade do inventor não deveria importar.

    Em 2013, o filósofo e sociólogo Ted Nelson, pioneiro da tecnologia da informação e autor da expressão “hipertexto”, divulgou um vídeo para expor a identidade de Satoshi: segundo sua tese, seria o matemático japonês Shinichi Mochizuki, professor da Universidade de Tóquio. De acordo com a agência britânica BBC, Mochizuki negou a história.

    Outros nomes surgiram: o programador americano Nick Szabo, o físico nipo-americano Dorian Prentice Satoshi Nakamoto (sim, ele tem o mesmo nome do criador), o desenvolvedor americano Hal Finney (1956-2014). Todos negaram.

    Em 2015, a revista americana Wired, uma das principais publicações sobre tecnologia no mundo, sinalizou que Satoshi poderia ser o empresário e cientista australiano Craig Wright.

    Ao contrário dos outros “indicados”, Wright endossou a história: em 2016, confirmou a identidade a três veículos da imprensa internacional (BBC, GQ e The Economist).

    Entretanto, especialistas da área e jornalistas desconfiaram das afirmações de Wright que, depois, divulgou uma nota dizendo que não iria mais comentar o assunto. No documentário “Banking on Bitcoin” (2016), da Netflix, Wright reafirmou ser Satoshi.

    Em 17 de abril de 2019, o programador britânico John McAfee, fundador da companhia de antivírus McAfee, declarou que divulgaria a verdadeira identidade do inventor da criptomoeda. “O mistério ‘quem é Satoshi’ deve terminar”, escreveu no Twitter.

    Em 23 de abril de 2019, o executivo voltou atrás. À agência Bloomberg, McAfee afirmou que Satoshi não gostou da ideia - e decidiu desistir da empreitada para evitar complicações judiciais.

    O mistério sobre a identidade de Satoshi continua - e a moeda digital continua oscilando: em dezembro de 2017, atingiu a máxima histórica de US$ 20.000; em junho de 2018, despencou 70%; e, em maio de 2019, deu novo salto para US$ 8.0000.

    “O sistema foi construído para que nós não precisemos confiar em um indivíduo, uma companhia ou um governo. Qualquer um pode revisar o código e a rede não é controlada por nenhuma entidade. É isso que inspira confiança no sistema. Em outras palavras, o bitcoin vive do que você pode e não pode ver. Usuários são ocultos, mas transações são expostas. O código é visível para todos, mas as origens são misteriosas. A moda é ao mesmo tempo real e ilusória - assim como seu fundador”

    Joshua Davis

    escritor americano, em trecho da reportagem da revista The New Yorker

    O que é bitcoin

    O bitcoin é uma moeda virtual, um sistema de pagamento que pretende ser prático e descentralizado.

    Lançada no fórum de discussão The Cryptography Mailing em outubro de 2008, a ideia da moeda é fazer com que todo e qualquer pagamento seja feito diretamente com a mesma velocidade com que é feito um pagamento em dinheiro vivo. A vantagem é que as partes não precisam estar próximas fisicamente. Podem estar, cada uma, em um canto do mundo.

    O software foi lançado em janeiro de 2009. Inicialmente, era uma rede pequena de computadores operando o sistema, com uma quantidade pequena de dinheiro disponível. Eles encorajavam mais pessoas a entrarem na rede com seus computadores e em troca pagavam em bitcoins.

    Em setembro de 2012 foi fundada a americana Bitcoin Foundation para desenvolver protocolos da criptomoeda. Em dezembro de 2017, a tecnologia estreou na bolsa de valores, no Chicago Board Options Exchange.

    É possível comprar bitcoins na internet seguindo as cotações do dia, como se compra dólar. Uma vez que alguém tem a moeda, ela é armazenada no computador ou até em pen-drives - que funcionam como carteiras. Quando uma transação é feita, o valor da compra é debitado da conta de um usuário e creditado em outra por algum dos inúmeros computadores que formam a rede.

    A diferença para as modalidades de pagamento eletr��nico convencionais, como os cartões, é que o processamento da transação é descentralizado. Quando alguém faz uma compra no débito, o banco e a bandeira do cartão são responsáveis por autorizar e repassar o valor.

    No caso do bitcoin, as transferências de recursos podem ser feitas a qualquer momento para qualquer lugar do mundo, sem limite mínimo ou máximo e sem a mediação de um organismo central. Em outras palavras, o bitcoin não é gerido por um banco central, mas por uma comunidade dispersa na internet.

     

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