Qual o papel do ELN colombiano na crise venezuelana

Guerrilha dos anos 1960 ressurge como pivô de uma pressão regional renovada sobre o governo de Nicolás Maduro

     

    O presidente da Colômbia, Iván Duque, pediu na sexta-feira (10) permissão aos opositores do governo Nicolás Maduro, da Venezuela, para atacar membros do grupo guerrilheiro colombiano ELN (Exército de Libertação Nacional) que, de acordo com ele, vêm buscando proteção do lado venezuelano da fronteira.

    Duque diz que Maduro protege, promove e financia o ELN, dando “armas, dinheiro e apoio” ao grupo guerrilheiro. De acordo com o presidente colombiano, o serviço de inteligência de seu país possui provas dessa articulação entre Maduro e o ELN.

    O presidente colombiano disse ainda que Maduro “está estimulando o ELN a recrutar crianças” na fronteira com a Colômbia, “estimulando-as a praticar delitos”.

    “Maduro, o ditador, vem golpeando o povo venezuelano. Ele tem sido um promotor, um financiador e um patrocinador do ELN”

    Iván Duque

    presidente da Colômbia, em declaração do dia 10 de maio de 2019

    O que é o ELN

    O ELN é a última grande guerrilha em operação na Colômbia, depois que as Farc (Forças Armadas Revolucionários da Colômbia) entregaram armas e anunciaram a criação de um partido político, num processo de desmobilização que teve início no final de 2015.

    O Ministério da Defesa da Colômbia estima que o grupo – criado em 1965, inspirado na Revolução Cubana liderada por Fidel Castro de 1959 – seja composto por 1.500 combatentes.

    Nos anos 1980, o grupo radicalizou suas ações e passou a explodir com frequência canais de oleoduto que passam pelos departamentos (estados) de Arauca, na fronteira com a Venezuela, e de Antioquia, onde o grupo é forte. Num desses atentados, 84 pessoas morreram queimadas, no que ficou conhecido como Massacre de Machuca.

    Mapa Venezuela
     

    A inspiração revolucionária proclamada pelo grupo nos anos 1960 perdeu espaço a partir dos anos 1980 e 1990 para os sequestros e outros crimes comuns, cometidos com o discurso da finalidade política. A princípio, essas operações tinham por objetivo financiar a guerrilha. Aos poucos, no entanto, assumiram papel central na própria razão de existência do ELN.

    Nos anos 2000, o ELN chegou a trocar sequestrados com comandos guerrilheiros das Farc, numa estratégia de cooperação criminosa. Ambos os grupos atuavam não apenas na indústria dos sequestros, mas também no narcotráfico, especialmente de coca.

    O antecedente com as Farc

    O pedido feito por Duque para atacar guerrilheiros do ELN na Venezuela ecoa um antecedente de 2008, que quase levou a um conflito armado internacional na América do Sul.

    À época, o então presidente colombiano, Álvaro Uribe, ordenou um ataque militar a membros das Farc que estavam acampados em território equatoriano.

    A ação militar – feita à revelia do governo do Equador – deixou 25 mortos, entre os quais o líder guerrilheiro Raúl Reyes, que era considerado uma espécie de chanceler das Farc.

    Após o incidente, o então presidente equatoriano, Rafael Correa, anunciou o rompimento de relações com o governo colombiano. Correa recebeu apoio incondicional do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

    A escalada só foi contida com a intermediação dos demais países da América do Sul, entre os quais o Brasil, que a partir desse episódio, acelerou as gestões para fortalecer a criação da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), naquele mesmo ano.

    O cenário ideológico mais amplo

     

    Colômbia e Venezuela compartem hoje a fronteira mais instável da América do Sul. Frequentemente, os dois governos costumam dar ordens unilaterais de fechamento de seus territórios nessa região, emitem protestos diplomáticos e se acusam mutuamente de atitudes inamistosas envolvendo suas Forças Armadas.

    O contexto dessas rusgas contém um forte componente ideológico: Duque é um liberal de direita. Ele se opõe aos diálogos de paz com o ELN e com as Farc nos termos propostos por seu antecessor, Juan Manuel Santos.

    Na presidência, Duque resgata, com nuances próprias, o discurso de enfrentamento militar que havia sido incorporado pelo ex-presidente colombiano Álvaro Uribe – linha-dura que protagonizou o entrevero com o governo do Equador em 2008.

    Como parte de sua política de segurança, Duque também reforça os laços de cooperação militar com o governo do presidente americano, Donald Trump.

    As características ideológicas de Duque e seus laços estreitos com Trump exacerbam as tensões com Maduro – herdeiro do “socialismo do século 21” tal como preconizado por seu antecessor e padrinho político, Hugo Chávez (1954-2013).

    Maduro acusa os EUA de tramarem uma intervenção militar estrangeira para tirá-lo do poder. Ele também considera que Duque atua como se tivesse uma procuração americana para articular essa possível intervenção, para a qual o argumento da guarida venezuelana ao ELN serviria apenas como uma desculpa.

    Com Guaidó, contra Maduro

     

    O pedido de Duque para entrar com militares na Venezuela não foi feito a Nicolás Maduro, mas ao líder opositor Juan Guaidó, que clama ter a presidência legítima da Venezuela.

    Para entender essa disputa de poder entre Maduro e Guaidó – assim como os movimentos de Duque – é preciso recuar no tempo.

    Maduro deu início a seu segundo mandato presidencial em 10 de janeiro. Sua posse, no entanto, foi imediatamente contestada pela oposição venezuelana, que controla a Assembleia Nacional, e por um grupo de países que, hoje, ronda os 50, além da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da União Europeia. O principal argumento desse bloco é o de que as eleições presidenciais vencidas por Maduro, em 20 de maio de 2018, foram fraudadas.

    No dia seguinte à posse de Maduro, 11 de janeiro de 2019, Guaidó, deputado oposicionista que havia sido escolhido presidente da Assembleia Nacional cinco dias antes, falou pela primeira vez em assumir, ele mesmo, a presidência interina da Venezuela. Guaidó foi reconhecido como tal por seus pares, assim como por líderes de aproximadamente meia centena de países, no dia 23 de janeiro.

    O reconhecimento de Guaidó teve como base uma interpretação da Constituição venezuelana segundo a qual cabe ao presidente do Legislativo assumir o poder e convocar novas eleições caso a presidência do país esteja vaga por qualquer razão – incluindo razão alegada no caso da fraude eleitoral atribuída a Maduro.

    Todo esse cenário de disputa política na Venezuela ocorre em meio a uma crise econômica profunda, marcada por hiperinflação e pela queda no preço do petróleo, principal produto da economia venezuelana. A derrocada econômica veio acompanhada de uma crise humanitária, marcada pela escassez de alimentos e remédios. Mais de 3 milhões de venezuelanos fugiram do próprio país, sendo que 2,4 milhões estão em países da região, segundo dados das Nações Unidas do fim de 2018. 

    Os governistas culpam os embargos e as sanções impostas sobretudo pelos EUA pela crise humanitária venezuelana. Mas a oposição diz que a má gestão e a corrupção dos anos Chávez e Maduro é que levaram a Venezuela à bancarrota.

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