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As mulheres e o turismo no Brasil, da Embratur a Bolsonaro

Durante décadas, material de divulgação oficial de órgão de turismo trazia imagens de corpos femininos para promover o setor

 

Entre o final de abril e o início de maio de 2019, governos estaduais e entidades, como a Ordem dos Advogados do Brasil, se posicionaram contra o turismo sexual em campanhas compartilhadas em suas redes sociais.

Iniciada em estados do Nordeste, como Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Bahia, a onda de propagandas oficiais traz imagens de paisagens com o alerta de que o estado está à disposição dos turistas, mas as mulheres, não.

Apesar de não mencionarem o presidente, as postagens reagem a uma declaração de Jair Bolsonaro feita em um encontro com jornalistas no Palácio do Planalto, em 25 de abril de 2019.

“Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, [o Brasil] não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay, do turismo gay”, afirmou o presidente.

Além de ser apontada como homofóbica, a fala desconsidera a importância econômica dos visitantes da comunidade LGBTI para o país. Segundo um relatório do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o turismo LGBTI é um dos segmentos de maior potencial de faturamento econômico para o setor no país.

O que é turismo sexual

A frase de Bolsonaro foi vista pelos governos estaduais, entidades e movimentos de mulheres como apologia ao turismo sexual. A prática envolve exploração sexual, normalmente de grupos vulneráveis, como menores de idade, pessoas sem outra opção de sustento e minorias, como transexuais e travestis.

No Brasil, a exploração sexual é crime previsto no Código Penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Um turista que faça sexo em um determinado destino para o qual viaja não configura turismo sexual se a relação ocorreu entre dois adultos e foi consentida, ainda que um deles esteja pagando por um serviço sexual, enfatiza Mariana Aldrigui, pesquisadora e professora do curso de Lazer e Turismo da EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo).

Segundo disse Aldrigui ao Nexo, o turismo sexual opera quando há um lugar que se torna conhecido nacional ou internacionalmente pelo oferecimento de sexo com base em uma estrutura de exploração da população local.

Em 2014, às vésperas da realização da Copa do Mundo no país, o Brasil era apontado como principal destino do turismo sexual na América Latina.

Na época, a marca Adidas, uma das patrocinadoras do evento, divulgou modelos comemorativos de camisetas cujas estampas tinham conotação sexual – em um deles, havia o desenho de um coração e um triângulo no meio, criando a imagem de nádegas com um biquíni fio dental, e a frase: “I love Brazil” (Eu amo o Brasil).

Diante da reação negativa, as vendas foram suspensas: o então presidente do Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) e hoje governador do Maranhão, Flávio Dino, declarou na época que a ação “ia no sentido contrário ao que o Brasil defende. Nosso esforço é voltado para a promoção do Brasil pelos atributos naturais e culturais”.

A Embratur, no passado e no presente

A declaração do ex-presidente da Embratur sinaliza uma mudança ocorrida no órgão a partir do início dos anos 2000. Isso ocorreu com a criação do Plano Aquarela, uma estratégia de marketing elaborada pelo instituto em 2004, que tinha como objetivo reorientar a imagem do país no exterior.

“Por muito tempo, as peças publicitárias do turismo brasileiro incluíram praias e corpos femininos, dando a entender que esses eram nossos principais atrativos”, disse ao Nexo a professora Mariana Aldrigui.

De acordo com a definição fornecida no site do Ministério do Turismo, a Embratur é uma autarquia especial da pasta, “responsável pela execução da Política Nacional de Turismo no que diz respeito à promoção, marketing e apoio à comercialização dos destinos, serviços e produtos turísticos brasileiros no mercado internacional”. O órgão foi criado em 1966, durante a ditadura militar.

“Em praticamente todos os cartazes produzidos entre 1966 e 1985 (ano em que acaba a ditadura), mulheres são o principal ‘produto turístico’ vendido pelos militares”, diz o historiador e professor da Universidade Estadual de Maringá Christian Fausto, em uma postagem no Facebook com milhares de curtidas e compartilhamentos.

Já após o fim do período militar, segundo Fausto, “tentou-se, então, mudar o foco para as belezas naturais e históricas. Mas era tarde. O estrago já havia sido feito. Durante os anos subsequentes, não foram poucos os turistas que continuaram desembarcando no Brasil, em busca da terra onde as mulheres faziam parte dos produtos turísticos a serem consumidos”.

Foto: Reprodução/Kelly Akemi Kajihara
Propaganda da Embratur de 1983
 

Segundo Aldrigui, “de 2003 [ano em que foi criado o Ministério do Turismo] até cerca de dois anos atrás, durante praticamente 15 anos, houve um trabalho muito forte dos responsáveis pela Embratur em desassociar o Brasil e o corpo da mulher brasileira da promoção internacional [do país]. Houve muito empenho em trabalhar alegria, cor, música, cultura, meio ambiente, e as peças que de alguma forma pudessem enaltecer corpos foram eliminadas”. Contudo, “pode-se até tirar a imagem [da propaganda], mas não se tira a ideia que ficou construída internacionalmente”.

Brasileiras para estrangeiros e para locais

Um estudo do material de divulgação oficial da Embratur entre 1966 até 2008, realizada por Kelly Kajihara, pesquisadora da Fundação Instituto Pesquisas Econômicas, corrobora que a imagem da mulher foi fortemente explorada como atrativo turístico do Brasil da década de 1970 até meados da década de 1990.

 

A imagem erotizada das brasileiras, entretanto, não estava presente apenas no material oficial produzido a nível federal, segundo evidencia a dissertação de mestrado “Entre Iracema(s) e um paraíso: um estudo acerca das imagens femininas no espaço discursivo do ‘Ceará turístico’”, defendida em 2016 na Universidade Estadual do Ceará.

“Historicamente, a atividade turística utilizou o corpo feminino como um produto turístico (...) às mulheres foram atribuídos estereótipos de hipererotização, o que configurou a produção de um imaginário social machista, sexista e racista. A presença de imagens que vendem o corpo feminino como atrativo turístico foram recorrentes nos diversos espaços discursivos públicos e privados, nacionais e internacionais, fato que fomentou a inclusão do país na rota internacional de turismo sexual. A exemplo disso, tem-se o caso da publicidade turística pública do Estado do Ceará que, no período de transição do século 20 para o século 21, ainda permitia a venda de cartões-postais com fotos de mulheres seminuas em paisagens naturais cearenses”, escreveu a pesquisadora Leilane Silva Cavalcante. 

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