Ir direto ao conteúdo

O elo partido entre ciência e tecnologia no Brasil

O caminho entre pesquisa e inovação é longo e não linear, com descompassos entre academia e mercado. Mas é essencial para o desenvolvimento do país

 

No quinto mês de governo, o presidente Jair Bolsonaro consolidou medidas que provocam impactos indiretos e diretos em um setor estratégico para o desenvolvimento do país: a produção científica.

Em março de 2019, o governo contingenciou R$ 5,8 bilhões dos orçamentos do Ministério da Educação e R$ 2,1 bilhões do Ministério da Ciência; em abril, criticou as ciências humanas e bloqueou cerca de 30% das dotações orçamentárias das universidades e institutos federais; em maio, congelou milhares de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

A relação entre a produção científica nas universidades e a inovação tecnológica (os desdobramentos das pesquisas universitárias no mercado) muitas vezes não é clara. E parte considerável da sociedade desconhece a relação entre ciência e universidades.

Segundo a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil de 2015, a mais recente da série realizada pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos), 87,2% de quase 2.000 entrevistados não conseguiram citar nenhuma instituição dedicada à pesquisa científica no país; 93,3% não lembraram de nenhum cientista brasileiro de destaque.

De acordo com o relatório “Research in Brazil”, realizado pela empresa americana de análise de dados Clarivate Analytics, universidades públicas são responsáveis por 95% da produção científica brasileira entre 2011 e 2016.

Entre as instituições que mais publicaram pesquisas científicas no país entre 2014 e 2018, segundo dados compilados pela Clarivate Analytics, 44 são universidades (36 federais, 7 estaduais e 1 particular) e 5 são institutos de pesquisa: Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

O estudo "The Economic Impact of Universities" de 2016, realizado pela London School of Economics, que analisou 16.326 universidades de 185 nações, estima que o investimento nessas instituições pode responder pelo aumento de 0,4% do PIB de um país.

Em outras palavras: universidades e institutos produzem ciência, que contribuem para a inovação tecnológica e o crescimento econômico. Neste texto, o Nexo mostra percursos possíveis entre ciência e inovação tecnológica.

Glossário

Ciência

Pode ser traduzida como a busca por conhecimento ou compreensão de um fenômeno, a partir de informações, hipóteses e métodos. No contexto das universidades, refere-se à pesquisa científica em diferentes áreas do conhecimento. No Brasil, a produção científica está concentrada nas universidades.

Inovação

É o processo pelo qual a ciência se transforma em tecnologia, isto é, em elemento prático que pode ser usado pela sociedade. Inovação tecnológica, por sua vez, se refere à implantação de novos processos e produtos no mercado, aprimorados por novos conhecimentos e descobertas. A inovação tecnológica é feita por empresas.

Tecnologia

Tecnologias novas podem ser registradas por patente, que é um título de propriedade temporária sobre uma invenção. É um registro dado pelo Estado, que garante direitos sobre a autoria da invenção - outros podem pedir permissão (licença) para utilizá-la mediante pagamento (royalties).

Os caminhos da universidade ao mercado

“Inovação tecnológica envolve conhecimento novo, com a aplicação de uma tecnologia ou o desenvolvimento de novos produtos ou processos”, definiu ao Nexo a economista Fernanda De Negri, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e autora de “Novos Caminhos para a Inovação no Brasil” (2018).

Não há um caminho único: inovações podem ser impulsionadas pelo conhecimento científico das universidades ou pautadas por demandas de mercado - ou os dois fatores ao mesmo tempo.

Entretanto, a inovação tecnológica enfrenta entraves que acabam agravando a distância entre a ciência, produzida principalmente por universidades e instituições de pesquisas públicas, e o mercado.

De Negri destaca diversos fatores que dificultam que os conhecimentos produzidos nas universidades se transformem em novos produtos: a burocracia (para abrir e administrar empresas no país, por exemplo), a economia fechada e o modelo de negócios pouco dinâmico. Nesse contexto, as empresas não se interessam em investir e em inovar.

“Há uma distorção no Brasil. De um lado, as universidades estão produzindo e patenteando muito. De outro, as empresas não estão prestando atenção no que está sendo desenvolvido nessas instituições, nem patenteando, nem licenciando patentes para novos produtos. O papel das universidades é produzir conhecimento e ensinar. O papel das empresas é vender produtos”, criticou.

Em outros países, a relação é diferente. O campus do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, por exemplo, é rodeado por empresas que querem acompanhar de perto as atividades das universidades pensando em aplicações nos seus negócios, diz a autora, que fez pós-doutorado na instituição americana.

Segundo dados do relatório Indicadores de Propriedade Industrial 2018, do Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), universidades lideram o ranking de instituições brasileiras que mais depositaram patentes: em 2017, as três primeiras posições foram ocupadas pela Unicamp (77 patentes), Universidade Federal de Campina Grande (70) e Universidade Federal de Minas Gerais (69).

Ao todo, a USP (Universidade de São Paulo) acumula 1.299 patentes e possui contratos de licenciamento de tecnologia que renderam R$ 2,49 milhões em 2017.

Para De Negri, a pesquisa científica é importante para estimular a inovação e o crescimento econômico, ao resolver questões do desenvolvimento nacional, como técnicas para aumentar a produtividade industrial e agrícola ou a elaboração de novas vacinas e medicamentos, por exemplo.

“Não há inovação sem conhecimento. Então, o primeiro passo para tornar o país mais inovador é apostar na criação de competências, na formação de capital humano e no fortalecimento da infraestrutura necessária para isso. Isso passa pelo fortalecimento e pela dinamização das universidades e instituições de pesquisa do país”

Fernanda De Negri

pesquisadora do Ipea, em trecho do livro “Novos Caminhos para a Inovação no Brasil”

Segundo a autora, as melhores universidades brasileiras estão cada vez mais abertas às demandas da sociedade – e do mercado. No entanto, elas também enfrentam dificuldades, como a ausência de diversidade de fontes de investimento (com pouca participação do setor privado) e as oscilações orçamentárias que muitas vezes podem comprometer a continuidade de pesquisas.

É a história da bioquímica Leticia Masako Takahashi, que interrompeu a pesquisa de doutorado na UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro). Em 5 de maio de 2019, a pesquisadora publicou um texto relatando que, diante da ausência de bolsa de estudos na pós-graduação, precisaria suspender sua pesquisa relacionada a novos tratamentos possíveis para leishmaniose.

“Sem bolsa, não é possível pesquisar em dedicação exclusiva. Apesar de amar muito a minha pesquisa e acreditar nos resultados que estou/estava obtendo, não tem como viver de amor”, escreveu. O relato viralizou na internet e deu voz a outros pesquisadores que passam por situações similares.

Os caminhos do mercado às universidades

Em resposta a recentes bloqueios de bolsas, inicialmente justificados pelo governo por críticas de improdutividade e acusações de serem palcos de balbúrdia, diversos acadêmicos vêm divulgando suas pesquisas na internet, que incluem desde estudos de vírus como o zika (que provocou epidemia e emergência de saúde internacional) até técnicas de exploração do pré-sal (área de reservas petrolíferas).

Entre 2011 e 2017, por exemplo, a empresa que mais fez pesquisas junto às universidades públicas paulistas (USP, Unicamp e Unesp) foi a Petrobras. Foram 199 estudos publicados em parceria.

A informação está no levantamento inédito feito pelo pesquisador Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), publicado no livro “Repensar a Universidade” (2018).

Entretanto, além da Petrobras, as outras oito empresas com mais artigos científicos publicados junto às universidades são estrangeiras. No topo estão as farmacêuticas Novartis (118 estudos), Roche (73) e Merck (59).

A tendência é confirmada pelo Ranking Universitário Folha de 2018, que analisou dados de 2011 a 2015: entre as 60 empresas que mais contribuíram com universidades para pesquisa, 34 são estrangeiras (57%) e 16 são farmacêuticas (27%).

“As universidades brasileiras têm sido acusadas de serem atrasadas, mas todas as boas universidades do mundo fazem esse debate sobre interação com empresas. A discussão é fundamental para o desenvolvimento”

Carlos Henrique de Brito Cruz

diretor científico da Fapesp, em entrevista à Folha de S.Paulo

Em fevereiro de 2019, a plataforma de inovação Distrito divulgou um levantamento sobre startups no Brasil. O relatório identificou seis “unicórnios” (startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais) no país - quatro delas fundadas por profissionais formados na USP.

Iniciativas de inovação e empreendedorismo dentro das universidades, institutos, agências de fomento e fundações (como empresas juniores, incubadoras e programas de pesquisa tecnológica para empresas) vêm buscando aproximar os campos da ciência e do mercado.

Os diferentes ritmos da ciência e do mercado

Além de obstáculos como a ausência de interesse e investimento por empresas brasileiras na produção científica das universidades, a inovação tecnológica tem outros desafios, como o ritmo diferente entre as universidades e o mercado.

A produção científica nas universidades não necessariamente traz resultados práticos ou retornos imediatos - o que é legítimo, pois nem toda pesquisa busca oferecer um produto final, um objeto ou uma ferramenta para o mercado.

No caso das ciências humanas, alvo de críticas do governo federal, as contribuições se voltam principalmente para a sociedade: o próprio conhecimento contribui para compreender a história, discutir a atualidade e lançar projetos para o futuro, com a elaboração de políticas públicas mais inclusivas e diversas.

No caso das ciências biológicas, as contribuições acadêmicas também variam, podendo incluir pesquisas inicialmente circunscritas à análise de fenômenos (a chamada “ciência básica”) que depois se desdobram em mais e maiores pesquisas, em tecnologia e, enfim, em inovação. O percurso leva tempo. 

“É uma longa história”, definiu o pesquisador Emanuel Maltempi de Souza, do Departamento de Bioquímica da UFPR (Universidade Federal do Paraná) ao Nexo.

 

Souza é um dos pesquisadores envolvidos em um projeto que resultou na invenção de novas bactérias para uso na agricultura, em dezembro de 2018. Atualmente, estão sendo testadas por indústrias e, se o resultado for positivo e inspirar novos produtos, a universidade recebe royalties das empresas.

Mas a ideia do projeto, na verdade, nasceu na década de 1970. Na época, o cientista brasileiro Fábio Pedrosa de Oliveira, então doutorando no Instituto Roche de Biologia Molecular, em Nova York, recebeu estirpes da bactéria Azospirillum brasilense, que vive entre o solo e as raízes de gramíneas. Essas bactérias transformam o nitrogênio do ar em amônia, formando o fertilizante nitrogenado mais caro da agricultura.

Pedrosa decidiu pesquisar quais genes dessas bactérias eram os responsáveis pela transformação do nitrogênio. De volta ao Brasil, como pesquisador da UFPR, estudou estirpes diferentes e fez experimentos inoculando bactérias em sementes de trigo e milho. Em parceria com a Embrapa-Soja (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Londrina, Pedrosa semeou e acompanhou a colheita dos grãos, que teve rendimento 30% maior.

A descoberta: esses tipos de bactérias aumentam o vigor e a produtividade das plantas, por causa da fixação de nitrogênio

Uma ideia de pesquisa da década de 1970 se desdobrou em experimentos na década de 1990, cujos resultados foram publicados em periódicos científicos em 2010. A partir desses estudos, que envolveram dezenas de pesquisadores (entre eles Souza), foram desenvolvidas três novas bactérias (as estirpes HM053, HM210 e HI1) para aumentar a produtividade agrícola: elas protegem as plantas contra a seca e reduzem a utilização de fertilizantes nitrogenados potencialmente poluentes.

“A ciência é demorada, mas leva a bons resultados. Além disso, envolve o treinamento de milhares de agrônomos, biólogos e professores, que foram formados ali e estão agora prestando serviço à sociedade. É assim que avançamos como sociedade: educação e ciência”, destacou Souza.

Além da inovação tecnológica, outras contribuições à sociedade incluem a formação de recursos humanos (profissionais e professores), abarcando todas as áreas do conhecimento.

A importância da divulgação científica

“O retorno para a sociedade existe. A gente só não sabe mostrar isso direito”, afirmou o pesquisador Carlos Hotta, do Instituto de Química da USP, ao jornalista Herton Escobar, em texto publicado em 5 de abril de 2019.

Os comentários de Souza e Hotta apontam para uma discussão atual: a publicização do que acontece dentro das universidades, principalmente as públicas.

Nos últimos dias, estudantes e professores de universidade federais iniciaram a hashtag #oquevinauniversidadepublica, por exemplo, relatando atividades que realizam em suas respectivas instituições e dificuldades enfrentadas, como falta de infraestrutura.

No Facebook foram lançadas páginas como Registros de Balbúrdia na UFPR e na UFRJ, em referência à expressão escolhida pelo ministro Abraham Weintraub para justificar restrições orçamentárias às instituições federais. 

 

Diante de tendências anti-cientificistas (que questionam, por exemplo, a legitimidade de vacinas e a ocorrência da mudança climática) e anti-intelectuais (que consideram espaços como imprensa, mercado editorial e universidades como centros de difusão de um “marxismo cultural”), núcleos acadêmicos, de docentes e estudantes, vêm se envolvendo em diferentes iniciativas, institucionais e independentes, de divulgação de suas pesquisas e atividades acadêmicas.

O Vidya Academics, projeto independente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP, lançou um manual de divulgação científica para incentivar acadêmicos a popularizar a ciência nas redes sociais, a partir de uma abordagem acessível.

A ideia, segundo os organizadores, é “expandir a divulgação científica além dos muros acadêmicos e combater o anticientificismo crescente no Brasil e, infelizmente, no mundo todo”.

“Devemos, como vetores da ciência, construir uma cultura pro-científica e mais popularizada, sem elitismos intelectuais, sempre visando trazer a população ao conhecimento gerado pelas pesquisas científicas das nossas universidades”, diz a proposta.

Em junho de 2019, o Festival Path, dedicado à inovação e à criatividade no Brasil, vai discutir iniciativas de divulgação científica como blogs, podcasts e perfis no YouTube.

A jornalista Sabine Righetti, pesquisadora e professora do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo) da Unicamp, participará do festival. Para Righetti, o fenômeno está associado à chegada de uma nova geração de cientistas, na faixa de 30 a 40 anos, que estão mais sensibilizados à importância da divulgação científica.

“A comunicação da ciência, ou seja, do que é feito pelos cientistas, deve ser encarada como parte integrante da própria atividade científica. Isso significa que a disseminação dos resultados de um estudo para a sociedade (para não cientistas) deve estar prevista lá no começo do estudo como parte integrante do processo”, definiu ao Nexo.

Righetti defende que a divulgação científica seja encarada como parte do processo - e não uma atividade extra, para as “horas livres”. Ao mesmo tempo, a pesquisadora pondera que não se pode esperar que todo cientista se torne “um popstar no YouTube”. É preciso pensar mecanismos institucionais de disseminação de ciência para todos os tipos de pesquisador.

Diante dessa lacuna de comunicação da ciência, a jornalista está desenvolvendo a agência Bori, em parceria com a cientista biomédica Ana Paula Morales com apoio financeiro da Fapesp e do Instituto Serrapilheira (instituição privada de apoio à pesquisa e divulgação científica no Brasil).

O título faz referência a Carolina Bori, a primeira presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). A agência é inspirada no projeto EurekAlert, um repositório da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência, que reúne estudos científicos inéditos com informações complementares, imagens, explicações detalhadas, vídeos e o contato do cientista porta-voz do estudo.

Nem sempre são claras as informações da produção científica para não-cientistas - isso também compromete a compreensão dos caminhos possíveis entre a ciência e a inovação tecnológica, o que inclui aproximações, distanciamentos e descompassos.

“A relação entre ciência, inovação e tecnologia nem sempre é linear. Muitas vezes, é preciso muita ciência básica para se chegar a tecnologia ou inovação. É possível passar anos mapeando plantas geneticamente para entendê-las e, depois de décadas, um dos estudos leva a uma aplicação de uma das moléculas em um medicamento de uma doença humana. Isso significa que muitas pesquisas que chegam a um princípio ativo de um remédio muitas vezes não começaram com o objetivo de achar a cura de uma doença - e essa é a graça da ciência”

Sabine Righetti

pesquisadora e professora do Labjor-Unicamp, em entrevista ao Nexo

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!