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Quando a economia ruim pode afetar de fato o governo

Dados ruins de atividade e mercado de trabalho aumentam o risco de crescimento negativo do PIB no 1° trimestre. Nexo questionou especialistas sobre o risco para a popularidade e a agenda do presidente

     

    O presidente Jair Bolsonaro foi eleito com um discurso liberal na economia, de incentivo a privatizações e de redução do papel do Estado. Foi o candidato preferido da maioria dos empresários e investidores na disputa de 2018. Todas as subidas do então candidato nas pesquisas eram bem recebidas pelo mercado.

    A eleição de Bolsonaro melhorou os índices de confiança na economia e o preço de ativos que são mais sensíveis a expectativas. Entre setembro de 2018, quando o candidato do PSL assumiu a ponta, e janeiro, o dólar saiu de cerca de R$ 4,10 para perto de R$ 3,70. O índice Bovespa subiu até romper a barreira dos 100 mil pontos pela primeira vez na história.

    Por outro lado, a chamada economia real segue com dificuldades. O Brasil passou, entre 2015 e 2016, por uma das mais graves recessões de sua história. Em 2017 e 2018, houve alguma recuperação. A reclamação era que a retomada era muito lenta e fraca, insuficiente para repor as perdas do período de contração do PIB (Produto Interno Bruto). Mas neste início de ano o cenário piorou.

    A economia do país corre o risco de ter seu pior trimestre desde o fim da recessão, no último trimestre de 2016. Pela primeira vez em dois anos, há risco de haver um resultado negativo de crescimento do PIB, que só será divulgado no fim de maio. Mesmo que tímidos, os oito resultados anteriores foram de crescimento.

    Os sinais da economia

    Dados preliminares já publicados são desanimadores. O IBC-Br - índice do Banco Central que usa metodologia diferente da do PIB - mas tenta antecipar as tendências da economia, teve queda nos dois primeiros meses do ano.

    Houve números ruins também nos índices setoriais divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mesma instituição responsável pelo cálculo e divulgação do PIB. A produção industrial caiu 1,3% em março em relação a fevereiro. No ano, a queda acumulada está perto de 2% e quando se compara com março de 2018, o tombo é de 6%. Até fevereiro, resultados mais recentes disponíveis, o setor de serviços também teve queda e o de comércio esteve estável.

    Os dados são uma das causas para o desânimo de economistas com o ano de 2019. A projeção do mercado para o crescimento do PIB em 2019, medida semanalmente pelo Banco Central no relatório Focus, vem sendo sistematicamente reduzida. São dez semanas consecutivas de queda. A expectativa de crescimento, que em janeiro era projetada em 2,5%, agora está em 1,49%.

    Outro número negativo neste início de 2019 é a taxa de desemprego. A taxa, medida pelo IBGE, cresceu no primeiro trimestre. O aumento é recorrente em inícios de ano devido à sazonalidade do mercado de trabalho, mas não ajuda o discurso do governo. Pelos dados da PNAD é possível dizer, pelo menos, que não há uma recuperação no mercado de trabalho no momento.

     

    O desemprego e a queda de popularidade

    O Brasil tinha, ao fim do primeiro trimestre de 2019, 13,4 milhões de desempregados. Um número que representa um entrave para a retomada da economia e que pode se transformar em um problema para a popularidade do governo.

    A aprovação do governo Bolsonaro tem caído desde o início do mandato. No fim de abril, pesquisa feita pelo Ibope mostrava que a popularidade do governo diminuiu desde janeiro. No início do mandato, 49% dos entrevistados avaliavam o governo como ótimo ou bom, número que caiu para 35% no levantamento mais recente. Quem achava ruim ou péssimo passou de 11% para 27%.

    O desempenho ruim da economia e o desemprego mantido em um patamar alto é uma preocupação dos aliados de Bolsonaro. No início de abril, o presidente chegou a criticar publicamente a metodologia do IBGE para medir a desocupação - que é internacionalmente aceita. Historicamente, a atividade econômica e os índices de desemprego têm influência na aprovação de governos.

    Para reativar a economia, no médio prazo, o governo aposta em uma medida impopular e vai precisar de força para aprová-la. A reforma da Previdência, como desenhada pelo Ministério da Economia, pode trazer uma economia de mais de R$ 1 trilhão em dez anos, aliviar a complicada situação fiscal do país e aumentar a confiança, o consumo e o investimento. Por outro lado, a proposta enfrenta resistência de setores da sociedade e de grupos que têm força dentro do Congresso, como os funcionário públicos.

    Sobre os possíveis impactos do momento ruim da economia no governo de Jair Bolsonaro, o Nexo conversou com um economista e um cientista político e fez a ambos a mesma pergunta.

    • Juan Jensen, doutor em economia pela USP, professor do Insper e sócio da 4E Consultoria
    • Sérgio Praça,  pós-doutor em ciência política e professor da FGV Rio

    Como e quando o fraco desempenho da economia pode começar a afetar a popularidade e o governo de Jair Bolsonaro?

    Juan Jensen De fato, o primeiro trimestre foi fraco. O PIB ainda não foi divulgado, mas os indicadores mostram a economia andando de lado. Os dados de mercado de trabalho precisa olhar com cuidado, porque há um efeito sazonal. Mesmo assim, está andando de lado. Esse quadro não ajuda o governo.

    Para conseguir apoio para a reforma da Previdência, os parlamentares só entram nesse barco se conseguirem enxergar uma trajetória positiva para o país. Ninguém vai querer entrar num barco que está afundando. Diante desse contexto, a fraqueza da economia dificulta ainda mais a conquista dos votos. Muitos que poderiam estar dispostos, ao ver esses números ruins, ficam com um pé atrás de apoiar esse governo.

    Por outro lado, sem reforma da Previdência o país entra em uma nova crise em função da perspectiva de descontrole fiscal. Boa parte dos parlamentares sabe disso, a questão aqui é também qual o tamanho da reforma aprovada, qual vai ser a desidratação. E isso depende da força do governo, que depende da popularidade, depende da capacidade do governo de propor pautas relevantes para o pós Previdência. A economia dificulta, piora um quadro que não é bom, mas também é um governo um pouco perdido em indefinições e com um problema grande na articulação política.

    Até o ano passado, o país vinha crescendo muito pouco, é mais ou menos o que se espera para 2019, apesar desse primeiro trimestre abaixo. Agora, por que não melhorou? O governo propôs a agenda necessária, mas o debate no Congresso está só começando e pode virar essa reforma do avesso. Se fosse um governo com força e que pudesse usar sua popularidade para aprovar, a probabilidade de uma reforma muito desidratada seria menor.

    Até agora, desde o início do governo, o mercado vem diminuindo o impacto projetado para o valor da reforma. O empresário está lá aguardando a reforma para saber a trajetória que o país vai seguir, isso afeta a atividade. O mesmo vale para o estrangeiro que quer investir aqui. Enquanto isso, a economia fica em ponto morto. Quanto mais o tempo passa, menor fica a popularidade do governo, mais difícil fica a aprovação.

    Sérgio Praça O governo queimou bastante popularidade, os dados da economia são ruins, é claro. O cenário econômico dificulta a popularidade, assim como ações do próprio governo. Não é um governo organizado ou que tem uma reforma política clara além da Previdência.

    A coisa vai ficar ruim se a reforma da Previdência não for aprovada ou se demorar demais ou se for aprovada de uma forma muito desidratada. Acredito que o governo vai conseguir aprovar uma reforma até setembro.

    As pessoas que elegeram o Bolsonaro, a quem ele apela, são uma parcela relativamente pequena da população e talvez o governo confunda isso com a maioria, pense que a maioria gosta de suas ações mais radicais. E ele está completamente errado se pensa isso. Uma evidência é que a popularidade caiu muito e é difícil atribuir isso ao desempenho econômico. Ninguém cobra a recuperação em três meses, mas muita gente não achava que seria um governo tão caótico.

    A esperança de que o governo pode melhorar a economia, dos empresários e do mercado, está muito atrelada à reforma da Previdência. Não dá pra dizer, nesse sentido, que tudo está perdido. A Previdência resolveria essa crise de confiança. É importante diferenciar popularidade de confiança e crença na melhora da economia.

    Popularidade, dificilmente vai aumentar sem crescimento econômico e isso deve demorar. Outra coisa é impopularidade junto com descrença de melhorar a economia e isso ainda não se tem. São até dois públicos distintos e o governo Temer é o melhor exemplo disso. Era um governo visto com confiança pelo mercado, a avaliação era que a equipe econômica era ótima e o governo hiper impopular. É possível que algo semelhante aconteça com Bolsonaro, mas totalmente condicionado à reforma.

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