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Como cientistas estão usando pele de peixe no corpo humano

De forma pioneira, pesquisadores brasileiros estudam propriedades e aplicações da tilápia desde 2015

 

Desde 2015, cientistas estudam as propriedades da tilápia, o peixe mais cultivado no Brasil. A partir de 2016, experimentos pioneiros com a pele do peixe entraram no campo da medicina. Em 23 de abril de 2019, o material foi utilizado, pela primeira vez, na reconstrução vaginal de uma paciente transexual de Campinas (SP).

O procedimento, bem-sucedido, foi realizado no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Universidade de Campinas, com a participação de pesquisadores da UFC (Universidade Federal do Ceará), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da USP (Universidade de São Paulo).

A paciente já tinha passado por uma cirurgia de redesignação sexual, mas ficou com um canal vaginal de pequenas proporções, o que lhe provocava desconforto, dor e problemas funcionais.

Para reconstruir o canal, os médicos utilizaram a pele do peixe, uma técnica menos invasiva (pois dispensa retirar pele de outras partes do corpo da paciente para enxertá-las na região), com recuperação mais rápida e baixo custo.

Como surgiu a ideia

Segundo dados do IBGE consultados pelo Nexo para elaboração deste gráfico, dos 501 milhões de toneladas de peixes e frutos do mar cultivados em 2016, 41,4% eram tilápias. Originária do rio Nilo, na África, ela é um dos peixes mais cultivados no mundo. 

Uma das características da pele de tilápia é ser rica em proteína chamada colágeno tipo 1, o que a deixa mais resistente e elástica. Por essa propriedade, cientistas do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da UFC (Universidade Federal do Ceará) realizaram estudos para aplicar a pele do peixe, descamada e esterilizada, como curativo para aliviar a dor e cicatrizar feridas.

Inicialmente, o método foi testado como “curativo biológico” no tratamento de queimaduras de diferentes graus.

Em 2011, o cirurgião plástico paraibano Marcelo Borges, que trata pacientes queimados desde a década de 1970, leu uma reportagem no Jornal do Commercio sobre o uso da pele da tilápia na produção de acessórios femininos.

“Daí me veio a ideia de combinar a delicadeza e a resistência desse elemento em um tipo de curativo que pudesse ser utilizado nas queimaduras”, relatou Borges à agência da universidade.

Em 2015, as pesquisas científicas começaram na UFC, em Fortaleza. Coordenados por pesquisadores como Odorico de Moraes, Leonardo Bezerra e Edmar Maciel Lima Júnior, os estudos envolveram 12 etapas na fase pré-clínica (antes de realizar experimentos com o material no corpo humano), o que incluiu análise dos peixes e estudo das propriedades do colágeno tipo 1.

Em 2017, a fase clínica comprovou que a pele de tilápia aplicada a queimaduras adere às feridas, ajuda na cicatrização e diminui a dor na troca de curativos. O método foi patenteado, no Brasil e no exterior.

Durante os estudos, especialistas não encontraram contra-indicações ao material.

Em outros países, a pele de outros animais, principalmente de porco, também vem sendo estudada para tratar queimaduras. Uma das vantagens no caso da tilápia é que, por se tratar de um animal aquático, não há cruzamento de infecções - isto é, a possibilidade de transmissão de doenças é menor.

Como funciona a técnica

  1. A pele do peixe precisa passar por um processo especial de limpeza: as escamas, o tecido muscular e as toxinas são retiradas em procedimentos laboratoriais da UFC. O cheiro característico do peixe é eliminado
  2. A pele é enviada para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da USP, onde passa por uma radioesterilização, procedimento que elimina possíveis vírus
  3. De volta à UFC, a pele do peixe é estirada em uma prensa e cortada em pequenas tiras de 10 cm x 20 cm
  4. As tiras são armazenadas em refrigeradores, a uma temperatura de até 4 graus Celsius por 2 anos no máximo
  5. Após o tratamento, a pele do peixe resulta em um tecido flexível, similar à pele humana. É aplicado, sem custos, a pacientes que aceitarem a alternativa nos hospitais e universidades em contato com a UFC

Os próximos passos

Além de queimaduras, a pele de tilápia também foi usada na reconstrução vaginal de pacientes com câncer de vagina e síndrome de Rokitansky (má formação de estruturas do útero e da vagina, chamadas mullerianas).

Atualmente, pesquisadores de 6 países estão estudando o uso da pele de tilápia. Uma das aplicações estudadas é no desenvolvimento de válvulas cardíacas, por exemplo.

No Brasil:

  • mais de 60 pacientes já tiveram queimaduras tratadas
  • 43 projetos de pesquisa investigam aplicações médicas da pele de tilápia, em 6 estados brasileiros
  • 18 tipos de usos do material são estudados em 13 especialidades médicas, incluindo neurocirurgia e ortopedia
  • 11 cirurgias ginecológicas foram feitas no Brasil

Em 2017, a UFC  inaugurou um banco com 1.000 peles, em parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado, do Hospital Instituto Dr. José Frota, em Fortaleza.

“Essa pesquisa sintetiza e exemplifica uma das possibilidades que a universidade pode contribuir para a sociedade, que é integrar a cadeia de conhecimento com a de assistência, no caso, a saúde, em particular. Isso é importante porque junta pesquisadores que em geral estão muito concentrados em laboratórios, gerando novos conhecimentos, com o setor de assistência, que atende às necessidades reais da população, e com o setor privado, para viabilizar o financiamento. Isso é uma tendência”

Antonio Gomes de Souza Filho

pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFC, ao inaugurar o banco de peles de tilápia, em 2017

Em 2019, pesquisadores pretendem registrar o método na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para viabilizar o uso da técnica nos centros de tratamento de queimados em todo o país.

 

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