Como a academia reage à investida contra as ciências humanas

Ministro da Educação defende a redução de investimentos em áreas como sociologia e filosofia e é apoiado por presidente. Manifesto em oposição ao governo conta com mais de 15 mil assinaturas

 

 

O presidente Jair Bolsonaro publicou em sua conta do Twitter, em 26 de abril, que seu governo estuda reduzir investimentos em faculdades de ciências humanas para focar “em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina”. O post de Bolsonaro reforçava uma declaração do dia anterior, feita na mesma linha, do ministro da Educação, Abraham Weintraub.

 

O ministro havia dito que era importante ensinar o que “gere renda para a pessoa, bem-estar para a família, que melhore a sociedade em volta dela”. Nem Bolsonaro nem Weintraub detalharam o que de fato pretendem fazer, apenas lançaram suas posições ao público.

 

Poucos dias depois, Weintraub anunciou cortes no orçamento de institutos e universidades federais e bloqueios de verba que atingem também a educação básica. Na terça-feira (07), o ministro afirmou que o contingenciamento poderá ser revertido no futuro, caso o Congresso aprove a reforma da Previdência e a economia melhore.

 

Em reação às declarações do governo, dois manifestos foram elaborados e assinados por acadêmicos da área de ciências humanas do Brasil e de outros países. Um deles, de 26 de abril, é uma carta aberta de sociólogos capitaneada por profissionais da área da Universidade de Harvard, e já conta com cerca de 15.300 assinaturas, de professores, pesquisadores e estudantes de sociologia de mais de 800 instituições de ensino ao redor do mundo.

 

Outro manifesto foi publicado na segunda-feira (06), no jornal francês Le Monde, com o apoio de acadêmicos de outras áreas das ciências humanas. O texto conta com cerca de mil assinaturas, de acadêmicos de universidades internacionalmente reconhecidas como Harvard, Yale, Princeton, Oxford, Cambridge e também de universidades brasileiras como a USP (Universidade de São Paulo), a UnB (Universidade de Brasília) e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Até a noite de terça-feira (07), Bolsonaro e Weintraub não haviam se pronunciado publicamente sobre os manifestos.

 

O que diz o primeiro manifesto

“Como sociólogos históricos e contemporâneos, nós entendemos que as décadas de mercantilização do ensino superior convenceu muitos políticos – no Brasil, nos Estados Unidos e no mundo – de que uma educação universitária é valorosa apenas se imediatamente lucrativa”, diz a carta aberta elaborada por pesquisadores de Harvard. “Nós rejeitamos essa premissa.”

 

Para os apoiadores do manifesto, a proposta da educação superior “não é produzir ‘retornos imediatos’ em investimentos”, mas, sim, “produzir uma sociedade letrada, bem formada, que se beneficie do esforço coletivo para criar conhecimento humano”. O texto afirma que a proposta do governo brasileiro é “mal concebida” e “viola princípios de liberdade acadêmica que devem ser parte integrante de sistemas de ensino superior no Brasil, nos Estados Unidos e ao redor do mundo”.

 

Entre assinaturas, estão a do presidente da Associação Internacional de Sociologia e também as de presidentes de associações de nível regional, de países como Polônia, Israel, Grécia e Austrália, de acordo com um dos autores da carta.

 

A professora de sociologia de Harvard Jocelyn Viterna, que assinou o manifesto, afirmou, em entrevista ao jornal universitário The Harvard Crimson, que “sempre que um partido político tenta limitar a criação e o desenvolvimento de conhecimento, particularmente conhecimentos sobre poder e desigualdade e sociedade, esse é um motivo para se preocupar”.

 

Para ela, o propósito de cartas assim é “enviar uma mensagem aos políticos de que o mundo está observando, [dizer que] o mundo está ciente do que estão fazendo”.

 

O que diz o segundo manifesto

O texto divulgado na segunda-feira (06), com assinaturas de profissionais de diversas áreas das ciências humanas, foi organizado pela Gender International – uma rede de pesquisadores de estudos de gênero e sexualidade de diversos países. Enquanto organização, tem como objetivos “colher informações e se mobilizar contra a cruzada da chamada ‘ideologia de gênero’”.

 

Dentre os signatários do manifesto, está a escritora e professora universitária francesa Judith Butler – cuja visita ao Brasil foi alvo de protestos contra a “ideologia de gênero”, em 2017.

 

A expressão, de cunho moral, foi utilizada com frequência na campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2018, e por aliados de seu governo, e critica discussões relacionadas a sexualidade, gênero e orientação sexual, principalmente no contexto escolar.

 

Apesar de não mencionar esses temas especificamente no manifesto, estes costumam ser pesquisados e estudados em disciplinas de ciências humanas. A organização já havia elaborado outro manifesto de mesmo teor para o premiê húngaro de extrema direita Viktor Orbán, que em  2018 proibiu estudos sobre gênero nas universidades da Hungria.

 

O manifesto direcionado ao presidente brasileiro alerta que “as economias modernas não exigem apenas técnicos especializados” e que “nossas sociedades precisam de cidadãs e cidadãos que tenham uma formação ampla e geral”.

 

O texto também diz que “as ciências sociais e as humanidades não são um luxo” e que, em sociedades democráticas, políticos “não devem decidir o que é a boa ou a má ciência”. A avaliação do conhecimento e de sua utilidade, para os signatários, “não podem ser conduzidos de modo a conformar-se com as ideologias de quem está no poder”.

 

O caso japonês

O manifesto organizado pela Gender International também critica o caso do Japão, utilizado como exemplo de política por Weintraub.

 

“O Japão, país muito mais rico do que o Brasil, está tirando dinheiro público das faculdades que são tidas como de elite, como filosofia. Pode estudar filosofia? Pode, [mas] com dinheiro próprio”

Abraham Weintraub

ministro da Educação, em transmissão ao vivo pelo Facebook, em 25 de abril de 2019

 

As diretrizes da política japonesa em relação aos cursos de ciências humanas se iniciou na metade dos anos 1990, mas foi apenas em 2015 que o ministério da Educação japonês orientou as 86 universidades federais do país a de fato fecharem ou remodelarem seus departamentos de ciências humanas.

 

Muitas universidades fecharam ou reduziram seus cursos, mas as duas maiores universidades japonesas, de Tóquio e de Quioto, se recusaram a aderir à medida, e seguiram seus trabalhos com pouco apoio financeiro. O governo japon��s foi criticado por acadêmicos ao redor do mundo, e muitos se manifestaram contra a política.

 

Manifestações vieram também de pesquisadores de áreas como inteligência artificial, mudanças climáticas e ciências biológicas, que ressaltaram a demanda por pesquisas vinculadas às ciências humanas para a elaboração de estudos multidisciplinares. Devido a críticas de diferentes partes, o governo japonês recuou, em decisão que deve ser colocada em prática até 2020.

Outras manifestações

A Frente Parlamentar pela Valorização das Universidades Federais, da Câmara dos Deputados, e o Observatório do Conhecimento, rede formada por associações e sindicatos docentes de universidades brasileiras – como as federais do Rio, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Goiás, ABC, entre outras –, soltaram uma nota em resposta às declarações do governo em 26 de abril.

“Não há nação desenvolvida no mundo que não possua forte investimento em campos de estudo como os da filosofia e sociologia. São estes que permitem estruturar o desenvolvimento de um país, formulando as estratégias para o crescimento econômico e atenção à população”, diz o texto.

Em relação ao corte de verbas, na segunda-feira (06), estudantes secundaristas de institutos federais se manifestaram contra as medidas de Weintraub em diferentes regiões do Brasil.

O primeiro ato público, que contou também com a participação de pais e professores, aconteceu em frente ao Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde Bolsonaro participava de uma comemoração pelos 130 anos da instituição.

Além de outros institutos federais, o ato contou com a participação de estudantes do Colégio Pedro II, que tem cerca de 13 mil alunos matriculados e é considerado uma das escolas mais tradicionais do Brasil, por o ser terceiro colégio mais antigo em atividade.

Nas redes sociais, estudantes e professores de universidade federais iniciaram a hashtag #oquevinauniversidadepublica em resposta aos cortes, contando atividades que realizam em suas respectivas instituições e dificuldades enfrentadas, como a falta de infraestrutura e de políticas de permanência estudantil.

Há também um abaixo-assinado, organizado pelo professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) Daniel Peres na plataforma Change.org, que já conta com mais de 1,2 milhão de assinaturas online. “O destino de nossa democracia passa pelo destino de nossas universidades”, diz o texto.

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