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O que está em jogo na entrada do Uber no mercado de ações

Companhia acumula prejuízos e concorrentes, mas espera arrecadar maior valor para uma empresa do Vale do Silício desde o Facebook

     

     

    O Uber vai fazer um IPO. A sigla, em inglês, significa a oferta pública inicial da companhia na bolsa de valores. Em outras palavras, umas das empresas mais inovadoras do mundo na última década, que atualmente tem um número limitado de sócios, vai fazer um leilão para quem quiser comprar uma fatia da empresa, as ações.

    O processo já começou. A empresa divulgou na sexta-feira (26) uma série de dados sobre sua operação no mundo e seus executivos estão fazendo apresentações a investidores. A venda efetiva de ações está prevista para o mês de maio.

    Com os números, os investidores vão tentar entender melhor como funciona a companhia e a partir daí decidir quanto estão dispostos a pagar por uma fatia dela. Enquanto o Uber tem capital fechado, as obrigações de divulgações são bem menores, mas para convencer alguém a comprar ações a empresa é preciso compartilhar dados.

    A empresa, que tem sede em São Francisco, na Califórnia, quer ser mais uma companhia de tecnologia na bolsa. Apesar de acumular sucessivos prejuízos desde a sua fundação, a expectativa é de que o IPO da Uber seja o maior dos últimos anos no mercado americano, o maior do Vale do Silício desde o Facebook.

    Expectativa

     

    Os planos do Uber

    O Uber é uma empresa que já tem seu capital bastante dividido. O maior sócio atualmente, Matt Cohler, um conhecido investidor do Vale do Silício, tem 11% da empresa. Entre os principais donos aparecem, por exemplo, o fundo público da Arábia Saudita e a Alphabet, dona do Google. Juntos, os cinco maiores donos têm cerca de 33% do total. Com a abertura de capital, esse percentual tende a diminuir.

    A ideia do Uber é crescer, ampliar seu tamanho. Como ainda não gera caixa, ela precisa para isso criar e vender novas ações. Os atuais sócios seguirão donos, mas serão diluídos. O que eles têm passa a representar uma fatia menor graças à injeção de dinheiro novo na empresa. Em troca do dinheiro investido na companhia, os compradores de ações ficam com uma fatia.

    Os gestores dividiram a empresa em quase 1,9 bilhão de ações. Destas, 180 milhões serão vendidas diretamente ao público. Outras 27 milhões poderão ser vendidas pelos atuais sócios. O IPO vai colocar à disposição apenas cerca de 10% do total da companhia.

    A dúvida básica nesse processo de IPO é qual será o valor da ação. É isso que está em discussão entre investidores e representantes da empresa. O Uber tenta convencer o mercado de que vale pagar mais e os potenciais compradores avaliam o modelo de negócios tentando medir quanto lucro podem ter no futuro. Esse processo já está acontecendo e o Uber já teve de diminuir as expectativas.

    Na tentativa de animar investidores, o Uber anunciou que a PayPal, empresa de pagamentos, planeja comprar US$ 500 milhões em ações no IPO. Por outro lado, a Lyft, concorrente que fez um IPO parecido em março, viu suas ações caírem 21% desde a oferta inicial. Ou seja, um indicativo de que o mercado avalia que os investidores, empolgados, toparam pagar caro demais.

    Como vai funcionar

    O valor da ação

    Em março, o Uber anunciou que gostaria de vender cada ação a um preço entre US$ 48 e US$ 55, mas as expectativas pioraram. A nova projeção é vender por entre US$ 44 e US$ 50.

    O valor arrecadado

    O Uber vai vender 180 milhões de novas ações. Com isso, pretende arrecadar entre US$ 8 bilhões e US$ 9 bilhões. Na previsão anterior, o IPO poderia chegar a cerca de US$ 10,35 bilhões.

    O valor da empresa

    Quando as ações do Uber passam a ser negociadas livremente na bolsa, o preço desses papéis  passa a ser uma medida para o valor total da empresa. Uma das maneiras de se avaliar as empresas é multiplicando o valor da ação pelo número de ações. Por isso a diferença entre os US$ 55 e US$ 44 por papel é tão importante para o Uber. Antes, a empresa esperava terminar o IPO valendo acima de US$ 100 bilhões, agora a projeção é de algo entre US$ 80 bilhões e US$ 90 bilhões.

    O modelo de negócios do Uber

     

    O Uber revolucionou o mercado de transporte quando colocou em operação uma plataforma que unia passageiros que precisavam viajar a motoristas que gostariam de ganhar dinheiro transportando pessoas. Mais do que isso, com o Uber, quase qualquer um pode prestar serviço, quando quiser, sem nenhuma obrigação de horários. O motorista recebe pelo tempo que trabalha. Por outro lado, não há qualquer tipo de vínculo trabalhista.

     

    Mesmo mudando profundamente o mercado, não só o de viagens, o Uber não dá lucro. Desde 2009, a empresa se mantém, e cresce, graças a investimentos de quem acredita que o modelo de negócios pode gerar lucros no futuro. Com a necessidade constante de expansão, o prejuízo acumulado em dez anos chega a US$ 7,9 bilhões.

     

    A empresa segue crescendo porque há pessoas dispostas a investir dinheiro na ideia. A expectativa é que, em algum momento a empresa não precise mais fazer tantos investimentos para crescer e tenha receitas maiores gerando assim o lucro que os investidores esperam há uma década.

     

    A companhia é a maior do mundo em seu segmento, mas desde que começou a operar o inovador modelo de viagens ganhou concorrentes. Outras empresas, como a Lyft, aprenderam a fazer o trabalho do Uber e a concorrência tende a diminuir margens de lucro. Essa é uma das preocupações dos que estão pessimistas com o IPO do Uber.

     

    Os números do Uber

     

    Existem várias maneiras de se analisar uma empresa. O Uber, como já dissemos, não dá lucro, mas há outros números que animam os investidores - e que desanimam também.

     

    A empresa segue crescendo e a receita segue subindo - graças principalmente ao crescimento das viagens. No primeiro trimestre de 2019 fez 36% mais viagens do que no mesmo período do ano anterior. A empresa transporta mensalmente 93 milhões de pessoas diferentes em todo o mundo, bem mais que os 70 milhões registrados em 2018.

     

    Existem também números negativos, além do prejuízo. A ideia base do negócio é ganhar pouco em muitas viagens. Por isso, é importante ver o resultado médio de cada pequena operação.

     

    A receita do Uber vem de uma taxa que eles cobram do motorista que fez a viagem. E o modelo de negócios da empresa pressupõe atrair passageiros e motoristas. Com a concorrência, a porcentagem do valor da viagem que fica com a empresa vem diminuindo. Isso impacta fundamentalmente a receita.

     

    Além disso, há um embate cada vez maior com os diferentes órgãos reguladores dos diferentes países em que a empresa atua. A pressão dos governos é por uma maior taxação e responsabilização da empresa por problemas em viagens. Na Austrália, por exemplo, mais de seis mil motoristas de táxi estão processando coletivamente o Uber alegando que a empresa cometeu irregularidades no modo como opera, concorrendo de maneira desleal e prejudicando financeiramente a classe.

    O valor de empresas de tecnologia

     

    O Uber é mais um exemplo de como a avaliação de empresas no mercado é baseado em expectativas. Mesmo sendo uma companhia que acumula prejuízo, a plataforma de viagens está prestes a atingir um valor parecido ao da Ford e da General Motors juntas.

    Comparativo

     

    O caso vem sendo recorrente no mercado e mostra que, ao avaliar a ação de uma empresa, o investidor está mais preocupado com o que ela pode vir a ser no futuro do que com o que ela é atualmente.

     

    A Tesla, empresa que produz carros elétricos, tem valor parecido com a Ford, uma das mais tradicionais empresas da história do mercado automobilístico. A questão é que a Tesla é uma empresa bem mais nova e tem números de produção muito menores que a centenária montadora.

     

    O que os investidores pensam, também no caso do Uber, é que a empresa tem algum diferencial que a fará ser lucrativa no futuro. Por outro lado, há um consenso de que o modelo de negócios que fez a Ford, e outras grandes montadoras serem gigantes, não será rentável daqui a algum tempo.

    Por outro lado, empresas como o Uber e a Tesla são bastante susceptíveis a expectativas. Como ainda não têm números robustos, fatos que coloquem em risco a esperança de lucro no futuro podem ter efeitos imediatos no preço das ações no mercado.

    Desde o fim de 2018, por exemplo, notícias ruins fizeram o preço das ações da Tesla caírem 35%. Perdendo um terço de seu valor de mercado em poucos meses, a empresa foi ultrapassada pela Ford pela primeira vez em mais de um ano.

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