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O que é fan service. E como ele aparece em ‘Game of Thrones’

Adição de elementos com o fim de agradar aos fãs, comum no audiovisual, aparece em discussões sobre o programa de TV

    Temas

    A exibição do terceiro episódio da oitava temporada de Game of Thrones, “The Long Night” (“A Longa Noite”, em português), no domingo (28 de abril de 2019), na HBO, narrou a Batalha de Winterfell, a mais longa da história da TV, aguardada há tempos por fãs da trama sobre o reino de Westeros.

    A batalha, que equilibrou cenas intensas e tranquilas, provocou uma mobilização rara de espectadores nas redes sociais — inclusive no Brasil, onde fãs da série, impressionados com as cenas, compartilharam reações e comentários calorosos de seus sentimentos com o episódio.

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    tópicos relacionados a “Game of Thrones” estavam no topo dos mais comentados no Twitter nas horas seguintes ao episódio de domingo (28)

    A aprovação de espectadores do episódio arrematou a impressão de que a produção de “Game of Thrones”, apostando em cenas e ideias populares entre a audiência, teria recorrido ao uso de fan service — alguns fãs da série sugeriram que parte da história teria sido gravada apenas para agradar ao público, que estaria “ditando” o rumo da série.

    “Como todo produto de massa, feito para os fãs, ‘Game of Thrones’ tem [elementos de] fan service”, disse ao Nexo Míriam Castro, criadora do canal Mikannn no YouTube, sobre cultura pop. Comum em produções audiovisuais, o uso de fan service atrai audiência, mas pode receber críticas, a depender de como for feito. Por sua abrangência, diz Castro, o conceito pode confundir espectadores, que acabam “exagerando”.

    O que é fan service

    A expressão fan service (ou fanservice, sem espaço), que em tradução literal do inglês significa “serviço para os fãs”, consiste na adição de elementos, cenas ou situações em narrativas audiovisuais, como na TV e no cinema, a fim agradar ao público que as acompanha.

    Abrangente, o conceito pode significar “quase tudo” — um final desejado para o casal de um filme, a adição de uma trama espetacular na vida do protagonista, um diálogo com frases de efeito, o uso de sugestões do público para os rumos da história, entre outros.

    A expressão fan service surgiu como algo sexista, na década de 1970, em meio a histórias de mangás e animes japoneses que, para fidelizar a audiência, passaram a descrever cenas de conteúdo sexual gratuito — mas irrelevantes para as narrativas — a fim de “atender às fantasias” de homens heterossexuais que as acompanhavam.

    Ainda nas décadas de 1970 e 1980, a expressão extrapolou para os filmes e programas de TV, invadiu outras formas de narrativa, criou novos significados e chegou mesmo a produtos relacionados às histórias, além de outras atividades — como o futebol americano, que criou as líderes de torcida como um “fan service”, segundo o site Quartz.

    É possível fazer uma analogia entre o fan service e recursos utilizados por novelas brasileiras, que, por durarem meses, conseguem avaliar a opinião dos espectadores sobre a história enquanto ela acontece,  eventualmente modificando a narrativa a fim de não perder audiência. Ao receber supostas críticas sobre um casal lésbico em “Torre de Babel” (1998), por exemplo, a produção da novela matou as personagens.

    “Era muito mais difícil, há mais tempo, as produtoras medirem os desejos do público — que só apareciam por meio de cartas, por exemplo”, disse ao Nexo Pedro Curi, coordenador do curso de cinema e audiovisual da ESPM Rio. As redes sociais, ao amplificarem a voz dos espectadores, deram “poder” aos fãs na produção dessas histórias, agora que é “muito mais fácil imaginar o que o público está pensando”.

    Fan service em “Game of Thrones”

    Na série

    Algumas cenas da série, como a de Jon Snow em um dragão, ou a de uma luta entre Brienne Tarth e Arya Stark, são encaradas como fan service — não trouxeram novidades para a história, mas representaram elementos espetaculares, “muito legais” para quem assiste, segundo Míriam Castro. A adição desses elementos, diz ela, respondeu à expectativa da audiência de ver cenas desse tipo.

    Em outros produtos

    O “Reigns: Game of Thrones”, lançado em 2018, criou uma história inteiramente original para agradar aos espectadores da série. A estrutura do jogo, que dá autonomia ao jogador, remete ao aplicativo Tinder, com o arrastar da tela confirmando ou negando decisões.

    Qual o efeito do fan service para as narrativas

    A inserção de elementos de fan service em narrativas como filmes e séries não é unânime entre críticos e espectadores do audiovisual, levantando discussões sobre a dose adequada do uso dos “serviços” e seus efeitos para o desenrolar das narrativas em TVs e cinemas.

    A maioria das avaliações sobre fan service aponta que essa prática não é necessariamente boa, nem ruim, mas pode gerar polêmica, a depender da condução das cenas feitas apenas para os fãs, ou do grau de influência desses elementos sobre a narrativa, por exemplo.

    As opiniões sobre fan service

    Vantagens

    A defesa mais óbvia do fan service está na audiência — cuja fidelidade a um filme ou a uma série pode se fortalecer quando cenas que ela espera ver aparecem no produto final. Esse tipo de uso do fan service cria níveis “extras” de comunicação com o público, que passa a se sentir privilegiado pelos produtores da história de que gosta, diz Curi. Se uma cena acrescentada a um filme ou série especialmente para os fãs for bem desenvolvida, adiciona Castro, não há por que se queixar dela.

    Desvantagens

    As cenas e elementos “levianos”, “rápidos”, “forçados” e mal desenvolvidos em filmes e séries despertam mais críticas quando a audiência percebe que eles foram criados apenas como forma de agradar aos fãs, sem vir acompanhado de uma condução coerente com a história, diz Castro. Curi vê o fan service como problema quando seu uso é frequente e abusivo, influenciando rumos decisivos da narrativa. Nesse sentido, a história acaba perdendo seu sentido original, porque se torna apenas um elemento de consumo fácil para o “fã-padrão”.

    A autoria da arte

    Além da discussão sobre sua presença em séries específicas, o uso do fan service motiva também debates mais amplos sobre a autoria da arte na cultura de massa — que entra em xeque quando os rumos de uma história são mais definidos pela autoridade de uma audiência “barulhenta” nas redes sociais do que pela inventividade do criador.

    “Talvez uma abordagem democrática da arte não resulte em boa arte”, escreveu um repórter de cultura no site americano Quartz sobre o fan service. “Talvez [essa abordagem] não resulte em arte nenhuma, mas, no lugar, [resulte] em algo mais fácil de se produzir e de se contemplar.”

    “A quem a arte pertence? É narcisista da parte do público esperar que, em algum grau, ele possa influenciar o entretenimento que consome? O audiovisual voltado ao entretenimento é democrático? Suas histórias pertencem a todas as pessoas que as acompanham?”

    Adam Epstein

    repórter no site Quartz, em artigo sobre debate em torno do fan service

    A relação entre Game of Thrones e o público

    Não é possível, dizem Curi e Castro, saber até que ponto um material inserido em uma narrativa faz parte de estratégia de fan service ou se sua escolha foi uma decisão individual da produção — ainda que, no caso de “Game of Thrones”, muito se discuta sobre a primeira alternativa.

    “[A discussão sobre fan service] passou a ser presente em ‘Game of Thrones’ quando a série deixou de ter como fonte um texto-base literário [entre a quinta e a sexta temporada]”, afirma Curi. “Como é uma série muito popular, é muito mais fácil tomar decisões para agradar ao fã.”

     

    Iniciada em 2011, “Game of Thrones” é uma série baseada em uma saga escrita por George R. R. Martin chamada “A Song of Ice and Fire” (As Crônicas de Gelo e Fogo, em português), que até o momento publicou cinco volumes — a previsão do autor é entregar mais dois. A história narra uma guerra de dinastias fictícias pelo reino de Westeros.

    A série de TV é a mais popular do mundo, de acordo com o Guinness Book. O último episódio da sétima temporada, em 2017, registrou 16,5 milhões de espectadores só nos Estados Unidos. A série também é a mais premiada pelo Emmy, que destaca as melhores produções da TV.

    “A série que subverte expectativas. Ela traz a fantasia quase como um ‘cavalo de Troia’ para a grande audiência. A fantasia pode falar sobre vários tipos de temas — tramas políticas, reviravoltas, personagens em uma escala de cinza, nem sempre divididos entre o bem e o mal, embora nem todo mundo saiba disso. Como busca atrair um público mais amplo, ‘Game of Thrones’ se apresenta com tudo isso, como uma série ‘diferente’. Ela reuniu audiência não só por sua grande produção, mas pelos diálogos e personagens interessantes de acompanhar”

    Míriam Castro

    criadora do canal Mikannn no YouTube, ao Nexo

    Para Curi, “Game of Thrones” tornou-se um fenômeno de audiência não só pela estrutura da produção e narrativa, que garantiu a conexão com o público, mas por causa de sua transmissão — ao vivo —, que mobiliza as pessoas a “participarem da mesma experiência” a cada episódio.

    “Há uma atmosfera de evento”, diz ele, que associa o fenômeno ao conceito de televisão social — que, em resumo, descreve a sintonização, potencializada pela internet, de diversas pessoas em torno da produção televisiva. “É algo contraditório, neste momento do streaming no audiovisual. Mas essa característica dá força à série.”

     

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