A cartada mais ousada de Guaidó contra Maduro na Venezuela

Líder opositor diz ter apoio das Forças Armadas para derrubar o governo. Apoiador do presidente afirma que se trata de uma rebelião pequena

     

    O principal líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, anunciou nesta terça-feira (30) um movimento militar para derrubar o presidente Nicolás Maduro. Guaidó foi proclamado presidente do país em 23 de janeiro de 2019 pela Assembleia Nacional da Venezuela, de maioria opositora, e, desde então, reconhecido como tal por um grupo de mais de 50 países.

    Quem vem exercendo o poder de fato até aqui, no entanto, é Maduro, que esvaziou a Assembleia Nacional e utiliza a Assembleia Constituinte como parlamento. Sua sustentação vem se dando por meio do apoio das Forças Armadas. Algo que agora está dividido, segundo Guaidó.

    O anúncio do líder opositor foi feito por meio de um vídeo postado nas redes sociais às 5h46 desta terça (30). No vídeo, Guaidó aparece dizendo: “estamos chamando as Forças Armadas para acabar com a usurpação” – esse termo, “usurpação”, é empregado pela oposição para referir-se ao atual mandato de Maduro, iniciado em 10 de janeiro de 2019 após uma vitória contestada nas eleições nacionais de 20 de maio de 2018.

     

    Atrás de Guaidó, aparecem no vídeo um grupo de militares armados e em uniforme de combate, além de Leopoldo López, ex-prefeito do município venezuelano de Chacao e um dos nomes fortes da oposição. López estava em prisão domiciliar desde agosto de 2017. Ele foi condenado a 14 anos de prisão por incitação à violência numa onda de protestos ocorrida em 2014.

    A aparição de López no vídeo serviu como uma prova dada por Guaidó de que os militares venezuelanos teriam passado para o lado da oposição ao libertar um líder importante que vinha sendo mantido preso e sob vigilância reforçada. Guaidó diz que, como presidente legítimo, concedeu indulto a López, e a ordem foi cumprida pelos militares.

    Em seguidas mensagens postadas nas redes, Guaidó conclamou os venezuelanos a que saíssem às ruas para derrubar o governo. Muitas pessoas bateram panelas nas janelas de suas casas em Caracas nesta terça-feira (30). As que tentaram se aproximar da base aérea de La Carlota, onde estavam Guaidó, López e os militares sublevados, foram recebidas pela tropa de choque da polícia, que disparou bombas de gás lacrimogêneo.

    Mapa Venezuela
     

    Uma grande mobilização popular em Caracas já era esperada para esta quarta-feira (1º). A oposição pretendia fazer do feriado internacional do Dia do Trabalhador uma jornada intensa de protestos contra o governo. O que Guaidó fez foi anunciar a antecipação desse movimento, dizendo que o 1º de Maio venezuelano já começou.

    Guaidó fez referência também à Operação Liberdade – nome fantasia da estratégia implementada pela oposição venezuelana, que consiste em formar células de militantes capazes de, convocados, responderem com mobilização imediata.

     

    A cartada de Guaidó é a mais ambiciosa e arriscada até agora, porque, caso fracasse em seu intento, ele corre o risco de ser preso por insuflar uma rebelião nas Forças Armadas. O Tribunal Supremo de Justiça, alinhado a Maduro, disse que o movimento de Guaidó é uma “tentativa de golpe inconstitucional”. No início de abril, Guaidó já tinha perdido a imunidade parlamentar, o que o deixa ainda mais vulnerável à perseguição judicial.

    Qual a reação de Nicolás Maduro

    A primeira reação pública governista veio de Diosdado Cabello, uma das figuras mais influentes do entorno de Nicolás Maduro. Cabello é o atual presidente da Assembleia Constituinte – órgão legislativo composto exclusivamente por membros governistas, criado em 2017 para substituir a Assembleia Nacional, na qual a oposição havia conquistado a maioria dos assentos em 2016.

    Cabello, que é também militar da reserva e exerce grande poder sobre as milícias patrocinadas pelo governo Maduro, disse em pronunciamento no canal estatal que sabia da movimentação militar em La Carlota desde as 3h desta terça (30).

    De acordo com ele, o movimento era restrito a um pequeno grupo de revoltosos, o aeroporto estava cercado e não havia risco de contaminação do restante das Forças Armadas.

    A fala de Cabello foi confirmada em seguida pelo ministro da Defesa, Padrino López, que assegurou que os militares permaneciam coesos a fiéis a Maduro, quem ele considera ser o presidente legítimo do país.

    O próprio Maduro se pronunciou no fim da manhã de terça (30), fazendo menção a "nervos de aço" para resistir à investida de seu adversário.

     

    Simpatizantes do governo acorreram ao Palacio Miraflores, sede da presidência venezuelana, em Caracas, para manifestar respaldo a Maduro.

    As reações internacionais

    Em Brasília, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, disse que considera “positivo que haja um movimento de militares na Venezuela que reconheça a constitucionalidade de Juan Guaidó”. Ele declarou também que o Brasil desde o começo apoia o “processo de transição democrática” na Venezuela.

    O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), o uruguaio Luis Almagro, comemorou a “adesão de militares” ao movimento iniciado por Guaidó na base aérea de La Carlota.

    Com poucos minutos de diferença, autoridades internacionais se pronunciaram por meio de posts no Twitter. O presidente da Bolívia, Evo Morales, culpou os EUA por estarem detrás do que classificou como um “golpe de Estado”. O governo da Espanha pediu que se evite “derramamento de sangue” na Venezuela e o governo da Colômbia pediu uma reunião de emergência do Grupo de Lima, formado por 14 países da região.

    O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, declarou apoio total ao movimento iniciado por Guaidó. De todos os governos, o dos EUA é o que mais aberta e repetidamente se refere à possibilidade de intervir militarmente para derrubar Maduro.

    O que acontece na Venezuela

    A dinâmica da crise política na Venezuela tem início em 1989, como explicado em detalhes no vídeo do Nexo acima. Seu capítulo atual mais recente teve início no dia 10 de janeiro de 2019, quando Maduro começou seu segundo mandato presidencial.

    A posse de Maduro foi imediatamente contestada pela oposição venezuelana, que controla a Assembleia Nacional, e por um grupo de países que, hoje, ronda os 50, além da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da União Europeia. O principal argumento desse bloco é o de que as eleições presidenciais vencidas por Maduro, em 20 de maio de 2018, foram fraudadas.

    No dia seguinte à posse de Maduro, 11 de janeiro de 2019, Juan Guaidó, deputado oposicionista que havia sido escolhido presidente da Assembleia Nacional cinco dias antes, falou pela primeira vez em assumir, ele mesmo, a presidência interina da Venezuela. Guaidó foi reconhecido como tal por seus pares, assim como por líderes de aproximadamente meia centena de países, no dia 23 de janeiro.

    O reconhecimento de Guaidó teve como base uma interpretação da Constituição venezuelana segundo a qual cabe ao presidente do Legislativo assumir o poder e convocar novas eleições caso a presidência do país esteja vaga por qualquer razão – incluindo razão alegada no caso da fraude eleitoral atribuída a Maduro.

    Todo esse cenário de disputa política na Venezuela ocorre em meio a uma crise econômica profunda, marcada por hiperinflação e pela queda no preço do petróleo, principal produto da economia venezuelana. A derrocada econômica veio acompanhada de uma crise humanitária, marcada pela escassez de alimentos e remédios. Mais de 3 milhões de venezuelanos fugiram do próprio país, sendo que 2,4 milhões estão em países da região, segundo dados das Nações Unidas do fim de 2018.

    Os governistas culpam os embargos e as sanções impostas sobretudo pelos EUA pela crise humanitária venezuelana. Mas a oposição diz que a má gestão e a corrupção dos anos Chávez e Maduro é que levaram a Venezuela à bancarrota.

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