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O que é coaching. E por que se discute proibi-lo no Brasil

Proposta cadastrada na plataforma Ideia Legislativa recebeu mais de 23 mil apoiadores e deve seguir para debate no Senado

 

A atividade de coaching é alvo de proposta de criminalização na plataforma de participação popular Ideia Legislativa, do Senado Federal.

“Se tornada lei, não permitirá o charlatanismo de muitos autointitulados formados sem diploma válido. Não permitindo propagandas enganosas como: ‘Reprogramação do DNA’ e ‘Cura Quântica’. Desrespeitando o trabalho científico e metódico de terapeutas e outros profissionais das mais variadas áreas”, diz o texto da proposta, intitulada “Criminalização do ‘Coach’” e protocolada pelo internauta sergipano William Menezes, em 13 de abril de 2019.

Qualquer cidadão pode se cadastrar no portal e propor novas leis ou alteração das leis atuais. Caso receba mais de 20.000 apoios no prazo de 4 meses no site, a proposta é encaminhada à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, na qual os senadores decidem a continuidade ou não da pauta.

Até 29 de abril de 2019, a proposta de Menezes recebeu 23.721 apoios e, portanto, deve ser encaminhada para debate dos senadores.

A popularização do coaching

A palavra coach quer dizer “treinador”, em tradução literal da língua inglesa. A expressão coaching, por sua vez, quer dizer “treinamento”.

Segundo o Código de Ética da International Coach Federation Brasil, coach é o profissional responsável pelo coaching, definido como “um processo de acompanhamento reflexivo e criativo feito em parceria com os clientes, objetivando inspirá-los a maximizar o seu potencial pessoal e profissional”.

Em linhas gerais, trata-se de um serviço de assessoria pessoal e profissional para clientes (que são chamados de “coachees”).

O treinador orienta o cliente a “identificar problemas”, “eliminar hábitos improdutivos” e “assumir o controle de sua vida”, exemplifica o site da SBCoaching - Sociedade Brasileira de Coaching.

Embora conte com discurso motivacional e jargões como “autoconhecimento” e “realização”, o coaching, de acordo com a SBCoaching, não deve ser confundido com práticas como psicoterapia ou autoajuda.

“A psicoterapia só pode ser exercida por profissionais formados por faculdades de psicologia; já o coach pode ser oriundo de qualquer ramo de atividade ou de qualquer área do conhecimento. Os principais requisitos para que ele possa atuar com sucesso são fazer uma formação em coaching confiável e de boa qualidade e nutrir real interesse pelo aspecto humano”, justifica.

Nos últimos anos, a prática se popularizou no mercado no Brasil e na América Latina. O levantamento Executive Coaching in Latin America, de 2010, por exemplo, consultou dados de 182 empresas de 16 países latino-americanos (39 delas brasileiras) e constatou que 84,6% utilizam coaching executivo como ferramenta de desenvolvimento de liderança.

No mundo todo, o número de coaches saltou de 47.500, em 2012, para 53.300, em 2016, formando um mercado global de US$ 2 bilhões, segundo a revista Forbes.

De acordo com reportagem da revista Veja, há sessões gratuitas (para clientes de coaches iniciantes) e outras que podem custar mais de R$ 3.000 (para clientes como executivos de grandes empresas, uma minoria, contratantes de coaches mais experientes). Entre 2009 e 2019, o Instituto Brasileiro de Coaching formou 20 mil coaches.

No Brasil, a profissão não é regulamentada e não há fiscalização específica para os cursos de formação, pois, como são considerados “cursos livres”, não precisam de autorização do Ministério da Educação.

A expansão do mercado foi acompanhada pela proliferação de coaches em diversas áreas, originando “especialidades” como coaching esportivo, espiritual e nutricional, por exemplo. Recentemente, foram cunhadas expressões como coaching “psicofísico quântico nanomolecular”, ironizadas no fórum Reddit e no Twitter.

Quais as críticas ao coaching

Em coluna recente no jornal Folha de S.Paulo, o jornalista Reinaldo José Lopes, especializado em ciência, criticou serviços divulgados com o adjetivo “quântico”.

“Trata-se de uma indústria florescente, pelo visto. Ao menos deve estar gerando emprego e renda. Mas não há a mais remota hipótese de que qualquer coisa desse tipo esteja funcionando do jeito que deveria funcionar. Em outras palavras, é picaretagem, gentil leitor”, escreveu Lopes.

“A mecânica quântica descreve o comportamento de átomos e partículas subatômicas. Nesse mundo quase infinitamente pequeno, todo tipo de esquisitice acontece. [...] O problema é que essas esquisitices levaram espertalhões a interpretar o mundo quântico como algo que ‘a sua mente cria’, com ‘a mente alterando as estruturas cósmicas’, e por aí vai [...]”, acrescentou.

Tornar-se coaching não requer uma graduação específica. Em geral, entidades como o International Coaching Federation Brasil e a Sociedade Latino-Americana de Coaching aconselham interessados a buscar informações sobre referências, credenciais e certificações do coach antes da contratação, a fim de evitar “picaretas”.

“O real problema por trás do coaching não está em sua formação extra-acadêmica, nos seus termos em inglês fora de contexto ou no seu conteúdo que se aplica redutivamente a uma classe média. O problema do coach está em sua precária visão de mundo”, criticou o psicanalista Igor Teo, em post de 19 de abril de 2019.

Para Teo, mestre em psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, essa visão de mundo se resume ao discurso dos coaches de “superação” e “vitória”.

Em entrevista à revista Exame, Svend Brinkmann, professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, também criticou a tendência.

“O próprio conceito de coach, que vem do mundo dos esportes, pressupõe que você está competindo com os demais para vencer o jogo. Há um perigo em enxergar a vida como uma partida em que há vencedores e perdedores”, declarou.

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