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Macri: de promessa liberalizante a preços congelados

Presidente da Argentina disputará a reeleição em outubro de 2019. Ele diz que cenário será pior se sua antecessora, Cristina Kirchner, voltar ao poder

Mauricio Macri se tornou presidente da Argentina em dezembro de 2015. Ele venceu naquele ano um apertado segundo turno. Tinha como principal promessa eleitoral implementar políticas liberais para impulsionar a economia argentina, que vivia uma estagnação.

Após três anos e meio de mandato de Macri, a economia do país apresenta problemas graves — expressos em índices como inflação, desemprego, câmbio, Produto Interno Bruto e pobreza. Com a popularidade em baixa neste 2019, ano eleitoral, Macri recorreu a uma medida que vai na contramão do liberalismo econômico que ele defende: o congelamento de preços.

A chegada de Macri ao poder representou uma ruptura com 12 anos consecutivos de governos de centro-esquerda, dos ex-presidentes Néstor Kirchner e Cristina Kirchner, defensores de uma participação maior do Estado na economia. Num cenário político polarizado, Cristina, que não podia se reeleger para um terceiro mandato seguido e pouco apareceu na campanha, não compareceu à cerimônia de posse do seu sucessor em 2015.

A Argentina terá eleições presidenciais em outubro de 2019. Se necessário, um segundo turno está marcado para o mês seguinte. As candidaturas ainda não foram oficializadas, mas os principais concorrentes deverão ser Macri e Cristina.

Como foi a vitória de Macri

Macri havia sido presidente do clube de futebol Boca Juniors, deputado federal e prefeito da capital Buenos Aires. Antes de entrar na política, havia seguido carreira como executivo na iniciativa privada. Seu pai, Franco Macri, foi um dos maiores empresários da Argentina.

Em 2015, ele foi o segundo mais votado no primeiro turno presidencial. Ficou atrás do candidato governista Daniel Scioli, mas conseguiu a virada no segundo turno com um discurso de mudanças e críticas à política econômica de Cristina. A coligação de Macri, de centro-direita, ficou com a minoria dos assentos tanto na Câmara como no Senado, o que dificultou que o governo levasse adiante os seus projetos.

O triunfo eleitoral teve grande peso simbólico não só na Argentina, mas também em toda a América do Sul. Por mais de uma década, predominaram na região governos à esquerda, defensores de intervenção do Estado na economia e ampliação de políticas sociais. Parte desses governos se envolveu em suspeitas de corrupção.

Em 2015, Macri chegava ao poder na segunda maior economia sul-americana, usando um discurso liberal e de “desideologização”. Nos anos seguintes, guinadas semelhantes à direita aconteceram no Brasil, Chile, Equador e Peru.

Como é o desempenho do governo Macri

Em geral, Macri comandou nesses três anos e meio uma política de austeridade — subiu tarifas e diminuiu gastos públicos. Na primeira semana como presidente, retirou uma série de restrições impostas pelo governo anterior para a compra de dólares, conhecidas como “cepo cambial”.

No início do governo, Macri reabriu o diálogo com os “holdouts” ou “fundos abutres” e chegou a sucessivos acordos com eles, concluindo um longo litígio judicial. Trata-se dos fundos que investiram no Tesouro argentino e, mais tarde, não aceitaram a renegociação da dívida externa feita em 2005 durante o governo Néstor Kirchner, após o “calote” de 2001. Cerca de 93% dos credores haviam concordado com a renegociação.

O intuito de Macri ao pagar mais de US$ 9 bilhões aos fundos foi colocar a história do “calote” para trás e sinalizar a investidores internacionais que era confiável colocar dinheiro no país. Essa tem sido uma diretriz de todo o seu governo para tentar alavancar a economia, mas até o momento não teve os efeitos que esperava.

As reservas internacionais argentinas em dólar são historicamente pequenas, e o país tem deficit em conta corrente — compra mais do exterior do que vende, transações feitas na moeda americana. Com poucos dólares internamente e problemas nas contas públicas, o peso argentino fica mais vulnerável a variações externas. A maior parte das dívidas argentinas são em dólar, portanto quando o peso se desvaloriza, fica mais difícil pagá-las e cresce a desconfiança entre investidores.

Ao longo do governo Macri, a cotação do dólar frente ao peso argentino quase quintuplicou. Um dos remédios para essa alta foi subir os juros. Por um lado, aumentar a taxa de juros atrai dinheiro internacional, freia a alta do dólar e assim ajuda a conter inflação. Por outro, juros altos dificultam o consumo e o investimento internos e podem levar um país à recessão.

Alta do dólar

Em 2018, o governo argentino firmou um acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), para um aporte de US$ 57 bilhões, o maior empréstimo da história do fundo. Em troca, a Argentina se comprometeu a aplicar uma política de austeridade e metas fiscais.

Na área internacional, Macri se aproximou dos Estados Unidos, tanto do ex-presidente Barack Obama como do presidente Donald Trump. Macri buscou transmitir aos países desenvolvidos a imagem de que a Argentina era segura e estável, tentativa cujo auge foi a reunião de cúpula do G20, realizada em novembro de 2018 em Buenos Aires, com líderes das maiores economias do mundo.

Como está agora o governo

Em março de 2019, Macri chegou aos piores números de rejeição do seu governo. Ele vem apostando em dois discursos para recuperar a confiança e se sustentar: diz que é preciso ter paciência e intensificar a política liberal para a economia, que está se recuperando aos poucos, e diz que a piora é fruto também da possibilidade de Cristina voltar ao poder em 2019, o que criaria desconfiança de investidores e instabilidade.

“[Nós argentinos] compreendemos que após 70 anos de festa [problemas na economia] não se sai em 3”

Mauricio Macri

presidente da Argentina, em janeiro de 2019

“Agora está tudo contaminado pela eleição, porque o mundo tem dúvidas se os argentinos querem voltar para trás e isso gera muito medo”

Mauricio Macri

presidente da Argentina, em abril de 2019

Os indicadores

PIB

O Produto Interno Bruto argentino caiu 2,5% em 2018, após alta no ano anterior. No Brasil, por exemplo, o PIB cresceu 1,1% em 2018.

Inflação

A inflação acumulada de 12 meses na Argentina está em 54,7%, mais que o dobro do que o mesmo período do ano anterior. No Brasil, por exemplo, a inflação acumulada é de 4,6%.

Desemprego

A taxa de desemprego está em 9,1%, em tendência de alta. No Brasil, por exemplo, o índice é 12,4%.

Juros

A taxa de juros do Banco Central argentino é de 71% ao ano, após meses de altas sucessivas. No Brasil, por exemplo, a taxa básica é de 6,5% ao ano.

Pobreza

Pelos números oficiais, 32% dos argentinos estão abaixo da linha da pobreza, maior alta anual desde 2002. No Brasil, por exemplo, esse número é de 26,5%.

Para conter a inflação, Macri anunciou em abril de 2019 o congelamento de preços de dezenas de produtos da cesta básica (como óleo, farinha, açúcar, leite e macarrão) e de tarifas públicas (como eletricidade, gás e transporte). A medida vai na contramão da política econômica liberal que vem implementando e vale por seis meses, até o mês da eleição.

Analistas econômicos liberais e investidores desaprovam a ação, pois se trata de uma intervenção do Estado na economia. Também veem risco de desabastecimento de produtos e problemas para o setor produtivo. Na década de 1980, o Brasil tinha hiperinflação e o governo José Sarney, por meio de vários planos econômicos, determinou o congelamento de preços de produtos básicos e até de salários, mas a medida não surtiu efeito para conter a alta dos preços de forma sustentável.

Entre economistas existe um consenso de que taxas oficiais como inflação e desemprego eram distorcidas durante os governos Kirchner para disfarçar a situação real. Por isso seria impreciso traçar comparações com os números do governo Macri.

A eleição no horizonte do país

Macri vem reafirmando que disputará a eleição, apesar do cenário desfavorável. Alguns políticos e analistas indicaram que o presidente poderia desistir e indicar em seu lugar a aliada María Eugenia Vidal, governadora de Buenos Aires, a província mais populosa e rica da Argentina.

Principal nome da oposição a Macri, Cristina deve disputar a eleição. Pesquisas de intenção de voto na Argentina dão um empate técnico entre os dois, nas projeções do segundo turno, e algumas mostram a ex-presidente liderando, acima da margem de erro.

Cristina responde na Justiça a 11 casos, a maior parte por corrupção, mas ainda não foi julgada em nenhum deles. Alguns ex-ministros, ex-assessores e empresários próximos a ela estão presos. Desde dezembro de 2017 Cristina é senadora, o que lhe garante foro privilegiado e impede que os pedidos de prisão preventiva já expedidos contra ela se concretizem — o Senado precisaria votar para retirar o foro dela. A ex-presidente nega ter cometido qualquer irregularidade e diz ser alvo de perseguição política.

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