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4 pontos da primeira entrevista de Lula da prisão

Em duas horas e dez minutos, ex-presidente faz aceno ao Supremo, diz que Dallagnol e Moro tramaram uma ‘farsa’ e classifica o atual governo como um ‘bando de maluco’

     

     

    Luiz Inácio Lula da Silva deu nesta sexta-feira (26) sua primeira entrevista desde que foi preso pela Operação Lava Jato em 7 de abril de 2018. Por duas horas e dez minutos, o ex-presidente fez acenos ao Supremo Tribunal Federal, disse que o procurador Danton Dallagnol e o ex-juiz e ministro Sergio Moro montaram uma “farsa”, classificou o atual governo como um “bando de maluco” e chorou ao falar da morte do neto de 7 anos.

     

    A entrevista, realizada pelos jornais Folha de S.Paulo e El País, foi precedida de disputas judiciais que haviam começado ainda na campanha eleitoral de 2018. Após decisões contraditórias naquele momento, o caso ficou congelado até que o presidente do Supremo, Dias Toffoli, liberou sua realização no dia 19 de abril de 2019. A Polícia Federal ainda tentou ditar condições controversas para a entrevista, mas foi vetada pelo tribunal.

     

    Lula foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex. A sentença foi dada por Sergio Moro, quando ainda era juiz federal em Curitiba, em julho de 2017. A condenação foi confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, em janeiro de 2018. Seu recurso especial foi negado pelo Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, em abril de 2019. Resta o recurso extraordinário ao Supremo.

     

    A pena mudou ao longo das três instâncias pelas quais o caso tríplex passou. Na definição mais recente, do STJ, ficou estabelecida em 8 anos e 10 meses de detenção. Dessa forma, o petista terá direito legal de pedir progressão de regime por volta de setembro de 2019, para o semiaberto, em que pode trabalhar fora, ou mesmo prisão domiciliar. O ex-presidente, porém, é alvo de outros processos, que poderão deixá-lo na prisão por muito mais tempo. Lula está com 73 anos.

     

    O ex-presidente se diz um preso político. Da cadeia, liderava as pesquisas de intenção de voto em 2018 quando teve a candidatura barrada pela Lei da Ficha Limpa. Seu afilhado político, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, tornou-se o candidato substituto e chegou ao segundo turno contra Jair Bolsonaro, que acabou eleito.

     

    Alvo de sentimentos extremos, que vão do amor ao ódio, o político que governou o Brasil de 2003 a 2010 ainda é um personagem central na disputa de poder nacional. Abaixo, o Nexo resume em quatro pontos as  declarações publicadas pela Folha e pelo El País, na primeira entrevista de Lula na prisão autorizada pelo Supremo e realizada na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

    Sobre o Supremo

    Lula teve sua condenação no caso tríplex confirmada em três instâncias judiciais. Ainda restam alguns trâmites no Superior Tribunal de Justiça, mas sua aposta agora é no Supremo Tribunal Federal, onde seu último recurso, o recurso extraordinário, será julgado.

     

    A 13ª Vara da Justiça Federal, com o então juiz Sergio Moro, e a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com três desembargadores, julgaram o mérito do caso tríplex. Decidiram se Lula era culpado ou inocente. Se recebeu propina em forma de um apartamento em Guarujá em troca de benefícios à empreiteira OAS em contratos da Petrobras.

     

    Já o Superior Tribunal de Justiça julgou se o processo do caso tríplex seguiu todas as regras da legislação federal, sem julgar o mérito. É o que vai fazer também o Supremo quando analisar o recurso extraordinário da defesa de Lula. O tribunal vai analisar se o processo do caso tríplex seguiu todas as regras constitucionais.

     

    “Eu penso que haverá um dia em que as pessoas que vão me julgar estarão preocupadas com os autos do processo, estarão preocupadas com as provas do processo, e não com a manchete do Jornal Nacional, e não com as capas das revistas, e não com as mentiras do fake news”, disse Lula à Folha e ao El País nesta sexta-feira (26).

     

    “As pessoas se comportarão como juízes supremos de uma corte que é a única coisa que a gente não pode recorrer. Que já tomou decisões muito importantes. Essa corte votou por exemplo células tronco contra uma boa parte da Igreja Católica. Essa corte já votou a Raposa Serra do Sol contra os poderosos do arroz do estado de Roraima. Essa corte votou união civil [de homossexuais] contra todo preconceito evangélico. Votou as cotas, para que os negros pudessem entrar [na universidade]. Então ela já demonstrou que teve coragem e se comportou”, afirmou o ex-presidente, num aceno ao Supremo.

     

    Sobre Dallagnol e Moro

     

    Lula dedicou parte da entrevista a criticar Deltan Dallagnol, que foi responsável pela acusação no caso tríplex – a apresentação da denúncia ficou famosa em razão de um powerpoint apresentado pelo procurador –, e Sergio Moro, juiz federal que o condenou em primeira instância e, em janeiro de 2019, entrou para a política ao tornar-se ministro da Justiça do presidente Jair Bolsonaro. 

     

    Na entrevista, Lula disse que, quando ficou claro que ele seria preso, foi aconselhado a pedir refúgio político em uma embaixada ou mesmo a deixar o país. O ex-presidente afirmou que preferiu ficar. “Eu tenho tanta obsessão em desmascarar o Moro. Desmascarar o Dallagnol e sua turma. Desmascarar aqueles que me condenaram, que eu ficarei preso cem anos, mas eu não trocarei a minha dignidade pela minha liberdade”, disse o petista.

     

    Lula também acusou Dallagnol e Moro de atenderem a interesses externos. “Eu quero provar a farsa montada. Montada aqui dentro. Montada no Departamento de Justiça dos Estados Unidos (...) agora mais agravado com a criação da fundação ‘Criança Esperança’ do Dallagnol pegando R$ 2,5 bilhões da Petrobras para criar uma fundação para ele”, disse o ex-presidente, numa referência à fundação que o Ministério Público queria criar com dinheiro de multas que seriam pagas pela Petrobras nos EUA mas que, após acordo, poderia ficar no Brasil.

     

    “Eu tenho uma obsessão. Sabe que eu não tenho ódio. Não guardo mágoa porque na minha idade quando a gente fica com ódio a gente morre antes. Então como eu quero viver até 120, porque eu acho que sou um ser humano que nasceu para ir até 120, eu vou trabalhar muito para provar muito a minha inocência e a farsa que foi montada. Por isso eu vim para cá [para a prisão] com muita tranquilidade”, afirmou Lula. “Eu tenho certeza de que durmo todo dia com a minha consciência tranquila. E tenho certeza de que o Dallagnol não dorme, que o Moro não dorme.”

     

    O ex-presidente também criticou o TRF-4, que foi responsável pela condenação em segunda instância no caso tríplex. Fez referência ao fato de que os três desembargadores foram unânimes na confirmação da condenação e determinaram exatamente a mesma pena contra ele, de 12 anos e 1 mês. Pena essa que viria a ser reduzida depois, pelo Superior Tribunal de Justiça. 

     

    Sobre o governo e a política atual

    Lula respondeu a perguntas sobre o governo Jair Bolsonaro, que tomou posse em janeiro de 2019. “Vamos fazer uma autocrítica geral nesse país. O que não pode é esse país estar governado por esse bando de maluco. O país não merece isso e sobretudo o povo não merece isso”, disse o ex-presidente.

     

    O petista também disse que recebe tratamento desigual da imprensa. “Imagine se os milicianos do Bolsonaro fossem amigos da minha família?”, afirmou, referindo-se ao fato de Flávio Bolsonaro, senador e primogênito do presidente, ter empregado em seu gabinete, quando era deputado estadual no Rio, parentes de integrantes de milícias procurados pela polícia.

     

    Lula também falou de política externa. Disse que, na sua opinião, o país está no “mais baixo nível” na área. “Eu sonhei grande, porque eu passei a ser um presidente muito respeitado. Eu sonhava criar um bloco na América do Sul para a gente ter força para negociar com a União Europeia, com os Estados Unidos, a China”, disse o ex-presidente, segundo quem tudo isso hoje não existe mais. Ele citou a recente dificuldade de Bolsonaro de ser homenageado pela Câmara de Comércio do Brasil em Nova York. Um museu e um restaurante se negaram a receber o evento. “A que ponto nós chegamos, que avacalhação.”

     

    O petista fez avaliações sobre o futuro político de Bolsonaro. Segundo o ex-presidente, “ou ele [Bolsonaro] constrói um partido sólido, ou não perdura”. Bolsonaro está hoje no PSL, ao qual se filiou no início de 2018, ano da eleição. O petista disse ainda acreditar que Moro não vai sobreviver na política.

     

    Sobre os militares, que apoiaram Bolsonaro na eleição e hoje integram de força maciça o governo federal, Lula disse não compreender “por que esse ódio ao PT”. Afirmou que, durante seus mandatos, de 2003 a 2010, recuperou o orçamento das Forças Armadas. O ex-presidente disse que, se sair da cadeia, vai querer “conversar” com eles.

     

    Afirmou, ainda, que é “grato” ao vice Hamilton Mourão “pelo que ele fez na morte do meu neto, ao contrário do filho do Bolsonaro”. Mourão se solidarizou com Lula quando seu neto Arthur morreu vítima de uma bactéria, em 1º de março de 2019. Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, falou em “vitimismo” na mesma ocasião.

     

    Sobre os partidos de esquerda, defendeu mais diálogo. Ele comentou o episódio da eleição quando, no segundo turno, o ex-governador do Ceará e hoje senador Cid Gomes discutiu com militantes petistas num evento de apoio ao então candidato do PT, Fernando Haddad. Na ocasião, o irmão de Ciro Gomes perpetrou a frase: “O Lula tá preso, babaca”. Na entrevista, Lula afirmou, rindo: “Isso é uma verdade. Só não precisava chamar os outros de babaca”.

     

    Sobre a família e a cadeia

    O menino Arthur não foi a única perda da família de Lula no período em que está preso. Seu irmão Genival Inácio da Silva também morreu, vítima de um câncer no pulmão. O tema fez parte da entrevista. “O Vavá é como se fosse um pai pra família toda. E a morte do meu neto foi uma coisa que efetivamente não, não, não…”, disse Lula, que nesse momento chorou.

     

    “Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Porque eu já vivi 73 anos, eu poderia morrer e deixar meu neto viver”, afirmou. O ex-presidente disse ainda que seus filhos estão passando por dificuldades. “Estão todos [da família mal]. Eu estou com os meus bens todos bloqueados.”

     

    “Adoraria estar em casa com os meus filhos. Adoraria estar em casa com os meus netos. Adoraria estar em casa com meus companheiros. Mas não faço nenhuma questão. Porque eu quero sair daqui com a cabeça erguida como eu entrei. Inocente. E eu só posso fazer isso se tiver coragem e lutar”, disse Lula.

     

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