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A estética dos ‘desenhos feios’. E por que viraram tendência

Onda de ilustrações que valoriza rabiscos, linhas tortas e desproporção rompe com parâmetros e estimula que cada pessoa encontre um traço próprio

Temas
Foto: Reprodução/Flickr
sp04, de Fabio Zimbres
 

Marcada para 4 de maio de 2019, no centro de São Paulo, uma aula aberta de desenho de modelo vivo – aquela que conta com a presença de modelos nus para exercitar a representação da figura humana – apresenta uma proposta intrigante: que seus participantes façam “desenhos feios”.

A oficina, assim como um curso com igual proposta oferecido no mesmo espaço entre março e maio de 2019, é ministrada pela tatuadora e diretora criativa da marca de roupas ZHOI, Helena Obersteiner.

Os “desenhos feios” de Helena, algumas vezes estampados na pele de outras pessoas, podem ser vistos em seu perfil no Instagram.

 

A tatuadora Helen Fernandez, de Salvador – “malfeitona” no Instagram, apelido que denuncia sua estética – também alcançou sucesso considerável nos últimos anos com desenhos assumidamente mal feitos.

 

Além delas, muitos outros artistas e tatuadores têm explorado a estética do desenho “feio”, que parece ter se espalhado pela internet recentemente.

“Reparei que as tatuagens não precisam mais necessariamente ser aquelas com linhas duplas, super precisas. Tenho visto muitas que parecem tatuagem de cadeia, feitas com uma linha indecisa e espontânea. O oposto da tatuagem clássica”, disse o desenhista Fabio Zimbres ao Nexo.

“Vejo essa estética se espalhando bastante nos últimos anos, e acho que principalmente por conta da internet”, disse ao Nexo a artista visual e tatuadora Taís Koshino. “Ela tem essa força de dar voz e visibilidade a artistas que antes não teriam muita chance de aparecer de se tornarem conhecidos.”

A estética dos desenhos feios também tem figurado nos quadrinhos e publicações independentes.

Foto: Reprodução
Número 5 do fanzine 'Desenho Feio', de JACA
 

A Feira Des.Gráfica, realizada no Museu da Imagem e do Som em São Paulo desde 2016, reúne quadrinhos e artes gráficas “estranhos” e “experimentais” cuja marca são rabiscos, linhas tortas e a desproporção.

Um dos integrantes dessa turma, o ilustrador JACA é autor de uma série de zines intitulada, justamente, “Desenho Feio”.

A estética do feio

Um episódio do podcast de design “Diagrama”, lançado em abril de 2019, discute por que designers têm buscado “quebrar padrões visuais” e criam trabalhos consideradas feios.

No design, a apropriação do feio já aconteceu antes (na década de 1990, por exemplo), e pode ser vista como uma resposta, por vezes irônica, a uma norma visual padrão – em termos de tipografia ou alinhamento, por exemplo.

“O que pode ser chamado de desenho feio é o que não segue os padrões do ‘belo’ da história das artes visuais”, define Taís Koshino. “Ele é colocado como feio em relação ao belo clássico que, na minha opinião, vem atormentando todo mundo desde a Grécia Antiga.”

Koshino lembra que em “Metafísica”, Aristóteles defendeu que as principais formas de beleza são a ordem, a simetria e a definição clara.

“Esse belo está muito ligado a um ideal de perfeição, harmonia, equilíbrio, graça. É uma coisa totalmente idealizada, principalmente dentro da cultura ocidental branca, e que reprime todas as formas de expressão que não estão dentro disso”, diz a artista.

Ainda segundo Koshino, o conceito de belo “vinha sendo desconstruído desde muito antes dessa estética contemporânea do desenho feio. Mas acho que a gente está nessa luta até hoje. A arte contemporânea também tem muitas questões em relação a isso, porque é um ideal que ainda está no senso comum”.

O “feio proposital” também coloca em questão o que é bonito. “O problema de falar de desenho feio é que eu acho bonito”, brincou Fabio Zimbres, ao receber o pedido de entrevista do Nexo.

“O que me levou a desenhar como eu desenho nunca foi uma busca pelo feio, já que na verdade eu não via uma oposição entre o feio e o belo”, diz Zimbres.

Foto: Reprodução/Flickr
sp01, de Fabio Zimbres
 

Para o desenhista, a ideia do “desenho feio” atrai pessoas que “veem uma dificuldade no desenho e de repente encontram uma definição que engloba o seu desenho”.

“Acho que não há uma busca pelo desenho feio – há uma busca pelo desenho interior de cada um”, define Zimbres. Ele “é formado por sua história, suas influências. Não acho que seja algo que venha do nada, de um plano superior ou algo assim. É algo que nasce do embate entre nós e o mundo que nos rodeia. Que está em cada um de nós”, disse.

“Pensando nessa contraposição ao belo clássico, acho que esse rótulo de desenhos feios faz muito sentido. Acho que ele é válido”, disse Taís Koshino ao Nexo. “Esteticamente, eu diria que uma das coisas que eu mais gosto no desenho é o absurdo que a gente pode criar a partir das linhas tortas, das formas disformes, dos erros de perspectiva e de simetria”.

A artista também aponta que o desenho feio vem da vontade de quebrar padrões e ideais. “Isso pode vir de uma forma mais agressiva, mais violenta, fazendo uma linha meio punk, mas também – o que eu acredito que é muito o meu caso – pode vir de um lugar de autoconhecimento , de forma mais sutil e delicada, de um entendimento de que essa é a forma que eu posso fazer, a forma que quero fazer, a forma em que eu acredito”, disse.

Origens e inspirações

As referências de “desenho feio” ou “sujo” de Fabio Zimbres incluem  desenhistas expressionistas e os primeiros cartunistas dos séculos 19 e início do 20.

Zimbres lembra de “ondas” parecidas no Japão da década de 1980 e nos fanzines dos anos 1990, como o francês “Thank God It’s Ugly” (“Graças a Deus é feio”, em tradução livre), de Matthias Lehmann, que ele considera uma continuação da estética punk da década anterior.

“A referência mais presente e invisível deve ser a dos desenhistas e pintores populares de publicidade de padarias, mercadinhos e de mecânicas e churrasqueiras de beira de estrada, que estão por todo lado e que sempre me atraíram e, suponho, devem ser considerados muito feios e até inadequados”, diz Zimbres.

“Quando a carne espetada saindo da churrasqueira pintada numa parede não nos faz exatamente saliva, já não é uma questão de feio e bonito, mas de ineficiência de comunicação. E não pode haver coisa mais bonita que essa tacanhice e inadequação”, conclui.

“Essa estética dá espaço a expressões múltiplas e únicas, que vêm da vivência de cada pessoa que cria. Ela consegue deixar habitar dentro dela uma série de peculiaridades e uma diversidade de vozes que antes não era possível”, disse Taís Koshino ao Nexo

Para ela, é possível “criar novos lugares em que podemos chegar. Acredito que essa estética surge de uma consciência da maneira como a gente pode se expressar, de que não precisamos visar a nenhuma beleza e que cada um pode se expressar da sua forma, de diversas formas”. 

Os dois artistas ouvidos pelo Nexo falaram sobre os desenhos infantis e o que ele tem em comum com a estética do desenho feio.

“Desenhos infantis parecem todos iguais, mas se você observa bem há diferenças muito marcantes entre eles. Cada criança tem o seu e a linha tem uma potência especial. Acho que a linha e sua potência é o que vemos no que se chama de desenho feio”, diz Zimbres.

Koshino relatou desenhar na infância mas ter abandonado a prática ao começar a comparar seus desenhos aos dos outros e achá-los feios. Só voltou a desenhar adulta. “Foi um processo tomar consciência de que essa feiura era também uma força de expressão, era o que dava mais potencial à minha prática artística”, disse a artista.

 

“Ter um desenho 'feio' também me deu a chance de experimentar sem ter a pressão de ser bonito e de pertencer a uma estética. E isso é um sentimento libertador, o que é uma outra vantagem de se desenhar dessa maneira”, diz Koshino.

 

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