A depressão de Whindersson Nunes. E o que é o transtorno

Em sua conta no Twitter, o humorista se diz angustiado e triste há anos e levanta um debate sobre depressão, transtorno que não é apenas um 'desequilíbrio químico do cérebro'

 

Com um séquito de 34 milhões de pessoas em sua conta no YouTube, o humorista Whindersson Nunes é um dos influenciadores digitais de maior sucesso do Brasil. Ele ficou conhecido por suas tiradas de humor nas redes sociais e dá shows pelo país inteiro.

No dia 12 de abril de 2019, afirmou, por meio de sua conta no Twitter, que “apesar de tudo de bom que vem acontecendo comigo, com tudo que já conquistei, eu me sinto há alguns anos triste”. “Eu sinto uma angústia todos os dias, todos os dias, algumas risadas, algumas brincadeiras e depois lá estou eu de novo com esse sentimento ruim.”

As postagens levaram internautas a iniciar um debate sobre depressão. No dia 16, Whindersson anunciou que estava realizando uma cirurgia inesperada na região do ânus, disse que ia se afastar das redes e voltou a falar sobre como se sente.

Depressão não é falta de Deus, você só precisa deixar Deus agir pelas mãos certas”, escreveu antes do hiato. O tuíte foi seguido de mensagens de apoio, e sua esposa, a cantora Luísa Sonza, anunciou que estava cancelando eventos para apoiar Nunes.

Fora do Brasil, a atriz britânica Sophie Turner, que interpreta Sansa Stark na série “Game of Thrones” (HBO), afirmou, durante uma entrevista ao podcast “Phil in the Blanks”, apresentado por Dr. Phil, que sofre de depressão há cinco anos. Segundo reportagem do El País, as crises começaram logo no início da carreira.

“O ritmo do meu metabolismo diminuiu demais e comecei a ganhar peso. E logo tive de enfrentar o escrutínio das redes sociais (....). Nesse momento foi que [a depressão] começou a me atingir.”

Em 21 de abril de 2019, o tema voltou a ser debatido na internet. Yasmin Gabrielle, uma jovem de 17 anos que ficou conhecida por participar do Programa do Raul Gil, no canal SBT, morreu. Não há detalhes sobre as causas da morte, mas o filho do apresentador, Raul Gil Júnior, postou em sua conta no Instagram que “depressão é uma doença que está acabando com nossas crianças”.

A Classificação Internacional de Doenças, mantida pela Organização Mundial da Saúde, define a depressão como um transtorno, e não como uma doença. Isso quer dizer que é mais associada a um desarranjo ou distúrbio que afeta a mente e o corpo, e que tem causas instrínsecas à pessoa.

Doenças se definem por sinais e sintomas característicos, e são mais associadas a causas externas, como vírus ou bactérias. Em uma nota à população em geral, a entidade classifica a depressão em dois tipos principais.

Os tipos de depressão

Transtorno depressivo recorrente

É o caso quando episódios depressivos ocorrem repetidas vezes, com duração de pelo menos duas semanas.

Esses períodos são caracterizados por 'humor deprimido, perda de interesse, e prazer, e redução de energia levando a redução da atividade' no período da crise.

Ansiedade, distúrbios de sono e de apetite são comuns, além de sentimentos de culpa, autoestima prejudicada, dificuldade de concentração e sintomas sem explicação médica.

Esses episódios podem ser amenos, moderados ou severos. Quem apresenta sintomas amenos pode ter dificuldade em tocar suas atividades, mas 'provavelmente não deixará suas atividades completamente'.

Em casos severos, dificilmente o indivíduo conseguirá manter suas atividades sociais, profissionais ou domésticas.

Depressão do transtorno bipolar

É caracterizada por períodos de humor normal entremeados tanto por episódios depressivos quanto maníacos. Episódios maníacos são caracterizados por humor elevado ou irritável, hiperatividade, fala frenética, autoestima inflada e necessidade menor de sono.

Em uma nota pública sobre o tema, o Instituto Nacional de Saúde Mental do governo dos Estados Unidos aponta alguns sintomas que podem ajudar a identificar depressão:

  • Sentir-se desesperançoso, pessimista
  • Sentir-se culpado, sem valor, rendido
  • Perda de interesse ou prazer em hobbies e atividades
  • Fatiga, falta de energia, sentir-se lento
  • Dificuldade de concentração, falta de memória, dificuldade em tomar decisões
  • Dificuldade em dormir, acordar cedo demais, ou dormir demais
  • Perda de apetite ou mudanças de peso
  • Pensamentos sobre morte ou suicídio, tentativas de suicídio
  • Irritabilidade
  • Sintomas físicos persistentes

A depressão em números

Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde divulgada em 2017, cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão globalmente. Isso corresponde a cerca de 4,4% da população mundial.

Ainda de acordo com a entidade, nos piores casos a depressão pode contribuir para o suicídio, que é a causa da morte de cerca de 800 mil pessoas todo ano. Entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio é a segunda principal causa de morte no mundo.

Além disso, a depressão se relaciona a um risco maior de desenvolver outros problemas, como doenças cardiovasculares. Ou seja, ela não afeta apenas a mente, mas o corpo de forma geral.

A depressão, assim como outros problemas de saúde mental, está aumentando mundialmente, diz a entidade.

No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde mais recente, de 2013, indicam que 7,9% da população do país sofre de depressão, acima da média global. Dessas pessoas, 78,8% não recebem nenhum tipo de tratamento. O levantamento foi realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em parceria com o Ministério da Saúde.

O tratamento chega de forma desigual aos pacientes. Brancos têm probabilidade menor de desenvolver depressão, que atinge 7,5% dessa população. E a maior probabilidade de obter tratamento. Entre pretos, o transtorno atinge 8,6% da população, a maior proporção.

Depressão não é só um ‘desequilíbrio químico do cérebro’

Uma nota publicada na área dedicada à divulgação científica sobre saúde do site da universidade de Harvard, nos Estados Unidos, começa a explicar o que é depressão desfazendo um mal entendido comum:

“Diz-se frequentemente que a depressão é resultado de um desequilíbrio químico, mas essa figura de linguagem não capta o nível de complexidade da doença [a nota usa o termo transtorno apenas para a depressão do transtorno bipolar]. Pesquisas indicam que depressão não advém apenas do excesso ou da falta de certas substâncias químicas no cérebro.”

Em um artigo intitulado “O marketing de um mito”, publicado em 2015 na revista acadêmica BMJ, o psiquiatra David Healy atribui a popularização da ideia de que a depressão se deve a um “desequilíbrio químico do cérebro” a um esforço de marketing da indústria farmacêutica, que buscava dessa forma vender remédios sob o argumento de que eles restabeleceriam esse suposto equilíbrio perdido.

Healy leciona na Universidade de Bangor, no Reino Unido, e é membro da Fundação para Excelência em Cuidados de Saúde Mental e da RxISK, uma entidade que busca coletar dados sobre efeitos não previstos de medicamentos e informar pacientes para que possam iniciar um diálogo com seus médicos sobre essas drogas.

De acordo com o artigo, a popularização da hipótese de que um “desequilíbrio da serotonina no cérebro” leva à depressão tem raiz em um esforço para comercializar uma classe de drogas chamadas de “inibidores seletivos da recaptação da serotonina”, que levam ao aumento da concentração do neurotransmissor serotonina na parte exterior das células cerebrais. Elas chegaram ao mercado no final dos anos 1980.

A hipótese de que a depressão é causada por um desequilíbrio da serotonina no cérebro não é, ainda hoje, consolidada. Na década de 1990, quando os inibidores seletivos da recaptação da serotonina passaram a ser vendidos, tampouco, diz Healy.

Nesse contexto, “o papel de persuadir as pessoas a restaurarem seus níveis de serotonina de volta ao ‘normal’ recaiu quase que sempre sobre grupos de pacientes e representantes de pacientes. A história da serotonina reduzida se enraizou no domínio público, e não na psicofarmacologia”, afirma o pesquisador.

Apesar dos questionamentos, a hipótese do desequilíbrio químico da serotonina é útil e eficaz, no sentido de convencer pacientes a se medicarem, escreve.

“Para médicos, ela oferece uma forma fácil e direta de se comunicar com pacientes. Para pacientes, a ideia de corrigir uma anormalidade tem uma força moral que pode se sobrepor aos escrúpulos que alguns deles podem ter quanto a tomar um tranquilizante.”

Esse apelo contribuiu para que as vendas desses medicamentos aumentassem ano a ano e se tornassem uma parte essencial da estratégia médica contra a depressão, apesar de eles não serem eficazes para todos os pacientes, em especial aqueles com risco aumentado de suicídio, diz Healy.

Ele reconhece que a “serotonina não é irrelevante. Assim como noradrenalina, dopamina e outros neurotransmissores, nós podemos esperar que ela varie entre indivíduos, e tenha alguma correlação com temperamento e personalidade”. Mas critica o foco excessivo na hipótese de que a depressão se deve ao “desequilíbrio químico” da serotonina.

Isso, diz, desvia atenção e investimentos de outras pesquisas e tratamentos promissores, ou já disponíveis.

“Em outras áreas da vida, os produtos que usamos, de computadores a microondas, melhoram ano a ano, mas esse não é o caso dos remédios, em que os tratamentos deste ano podem ser blockbusters mesmo sendo menos efetivos e seguros do que os modelos anteriores. As emergentes ciências do cérebro oferecem uma amplitude enorme para que se crie qualquer tipo de ‘neurobaboseira’”, escreveu.

No artigo “O mito da otimalidade na neurociência clínica”, publicado em março de 2018 na revista acadêmica Trends in Cognitive Sciences, os pesquisadores Lauren Patrick, do departamento de psiquiatria, e Avram Holmes, dos departamentos de psiquiatria e psicologia da universidade de Yale, nos Estados Unidos, criticam a prática de buscar características não funcionais específicas no cérebro humano para chegar à “raiz” de problemas psiquiátricos.

Eles escrevem que “mudanças em uma função ou comportamento neurobiológico isoladamente nunca serão o suficiente para gerar uma doença psiquiátrica”.

O artigo sobre depressão publicado no site da universidade de Harvard afirma que “há muitas possíveis causas de depressão, incluindo uma regulação de humor problemática pelo cérebro, vulnerabilidade genética, eventos de vida estressantes, medicamentos e problemas médicos. Acredita-se que várias dessas forças interajam para o surgimento da depressão”.

Fatores que podem influenciar a depressão

Neurotransmissores

Neurotransmissores, como a serotonina, são substâncias químicas que garantem a transmissão de mensagens entre um neurônio e outro. Há indícios de que, entre pessoas com depressão, a interação entre neurotransmissores e as células é alterada. Isso pode ocorrer porque os receptores dos neurotransmissores se tornam hipersensíveis ou insensíveis a eles, o que altera sua resposta. Ou então porque a produção dos neurotransmissores é desregulada, por exemplo.

No geral, antidepressivos intervêm nesses sistemas levando ao aumento dos neurotransmissores entre os espaços entre um neurônio e outro. Os casos de eficácia desses medicamentos não bastam, no entanto, cientificamente para comprovar a tese de que é um “desequilíbrio químico” que causa a depressão.

Estresse

'Estresse' é o termo geralmente utilizado para definir reações físicas a estímulos que requerem que o indivíduo se ajuste a uma situação. Isso ocorre, por exemplo, quando ameaças, reais ou não, são identificadas.

Um dos efeitos fisiológicos do estresse é a liberação de hormônio liberador da corticotropina que, por sua vez, leva à liberação de um outro hormônio, o cortisol. É como se o corpo se preparasse para lutar ou correr. Alguns efeitos comuns são 'coração batendo mais forte, músculos tensos, respiração acelerada e suor'. A atenção e sentidos como audição ficam mais aguçados.

O estresse também afeta o córtex cerebral, a amígdala, o tronco cerebral e a concentração de neurotransmissores no cérebro. Segundo a nota da universidade de Harvard, 'alterações nos sistemas hormonais podem, portanto, afetar neurotransmissores e vice-versa'.

'Estudos mostraram que pessoas depressivas tipicamente têm níveis elevados de hormônio liberador da corticotropina.'

Cérebro

Há indícios de que a depressão se relaciona também a particularidades dos cérebros. 'O estresse, que tem um papel na depressão, pode ser um fator-chave aqui, à medida que especialistas acreditam que estresse pode suprimir a produção de novos neurônios [células nervosas] no hipocampo', diz a nota da Universidade de Harvard. Ou seja, o estresse também pode alterar o formato do cérebro.

Uma pesquisa publicada em 1999 na revista acadêmica The Journal of Neuroscience estudou 24 mulheres com histórico de depressão. Em média, elas tinham um hipocampo entre 9% e 13% menor do que a média de mulheres sem depressão. Essa área do cérebro tem um papel importante no processamento da memória.

Antidepressivos liberam neurotransmissores, como a serotonina, imediatamente, mas em muitos casos só funcionam no decorrer de semanas. Nesse tempo, contribuem para a formação de novos neurônios. Por isso cientistas estudam a hipótese de que essa transformação na estrutura do cérebro, e não apenas a liberação imediata de neurotransmissores, seria uma das causas para a eficácia desses remédios para o tratamento de muitos dos casos de depressão.

Além disso, a amígdala, uma parte do cérebro associada a emoções como prazer, dor, tristeza e medo, tem um nível de atividade maior entre pessoas deprimidas.

Genética

Genes influenciam toda parte do corpo, incluindo a formação do cérebro e o funcionamento dos neurotransmissores. No caso de gêmeos com carga genética idêntica, se um apresentar depressão do transtorno bipolar, o outro tem uma chance de entre 60% e 80% de ter o mesmo problema, por exemplo.

Entre outros casos de depressão, a correlação é menor. Alguém com um parente em primeiro grau que passou por episódios de depressão severa tem uma chance entre 1,5% e 3% maior de passar pelo mesmo problema do que a média.

Separações e traumas

Há indícios de que pessoas que passaram por perdas profundas na infância, como a morte ou afastamento de parentes queridos, podem sofrer, mais tarde, com sintomas depressivos.

'Quando a pessoa não está ciente da origem de sua doença, ele ou ela não pode superar facilmente a depressão. Além disso, a não ser que a pessoa atinja uma compreensão consciente da origem de seu problema, perdas ou decepções futuras podem fazer com que volte', afirma a nota.

Muitos pesquisadores também acreditam que traumas na infância levam a mudanças no funcionamento cerebral, que contribuem para sintomas de depressão e ansiedade.

O que fazer

A depressão é um transtorno sério, que deve ser tratado com acompanhamento de psicólogos e médicos. Mas tanto a nota do governo americano quanto uma nota do Serviço de Saúde Nacional do Reino Unido trazem algumas recomendações que podem ajudar a conviver com o problema.

Socializar

É comum que pessoas depressivas ou ansiosas tenham receio de lidar com situações sociais e se isolem. A nota do governo britânico recomenda manter contato com amigos e com a família, para 'ter alguém com quem falar quando se sentir mal'.

Exercícios

Várias pesquisas acadêmicas indicam que a prática de exercícios físicos ajuda a regular humor.

Manter uma rotina

É comum que pessoas depressivas sofram com sono desregulado, ficando acordadas até tarde e dormindo durante o dia, por exemplo, o que pode tornar ainda mais difícil lidar com o problema. Por isso, é recomendado buscar manter uma rotina fixa de sono.

Cobrar-se menos

Manter metas realísticas para si mesmo, dividir tarefas grandes em menores, e priorizar tarefas para ‘fazer o que puder, como puder' são atitudes que podem ajudar.

Calma

Não esperar sair do estado depressivo de uma vez. E sim, esperar que o humor melhore gradualmente, não imediatamente.

Decisões

'Adie decisões importantes, como se casar, se divorciar ou mudar de emprego para quando melhorar. Discuta decisões importantes com outros que te conhecem bem e têm uma visão mais objetiva da sua situação', afirma a nota do Instituto Nacional de Saúde Mental do governo americano.

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