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Qual o potencial do Vox, partido da extrema direita espanhola

Depois de vencer na Andaluzia, legenda criada há apenas 6 anos cresce e busca espaço na eleição nacional

     

    O Vox é um partido de extrema direita criado em 2013 na Espanha. No domingo (28), enfrenta sua primeira eleição nacional. A expectativa do grupo é conquistar votos suficientes para fazer parte do próximo governo.

    Em monarquias parlamentaristas como a espanhola, os partidos mais votados dificilmente governam sozinhos, e precisam recorrer a alianças com legendas menores para formar uma coalizão. É aí que o Vox pretende se encaixar.

    As pesquisas mais recentes mostram que a direita e a extrema direita, unidas, têm melhores condições de construir uma coalizão governista, com 48% das intenções de voto. O partido de esquerda Psoe lidera com 29%, mas, mesmo coligado com outras legendas, pode não passar dos 40%. 

    Se a tendência for confirmada, a Espanha se tornará o próximo país europeu a ter um partido de extrema direita no poder, depois dos casos mais conhecidos da Hungria e da Itália.

    As pautas da extrema direita

    O Vox professa uma agenda de extrema direita populista baseada em propostas economicamente liberais e moralmente conservadoras, com discursos de campanha contra os imigrantes (muçulmanos em particular), contra o feminismo, contra o politicamente correto e em defesa de uma visão de unidade identitária nacional baseada num passado grandioso e idealizado.

    Sozinho, o partido pode ficar com até 35 dos 350 assentos da Câmara, de acordo com as pesquisas, e, mesmo que não venha a formar uma coalizão governista, este já seria, por si só, um marco.

    Desde o fim do franquismo – nome dado ao período de governo do ditador Francisco Franco, que governou de 1936 a 1975 – a extrema direita não tinha uma expressão política tão forte no país.

    A ascensão eleitoral do Vox teve início em dezembro de 2018, em eleições locais, quando parlamentares da legenda conquistaram 12 assentos na assembleia regional da Andaluzia, região tradicionalmente controlada por partidos de esquerda.

    Aliança envergonhada

    Apesar da expressão eleitoral, o Vox ainda é um aliado incômodo para o maior partido da direita espanhola, o Partido Popular, que passou as últimas décadas preocupado justamente em afastar-se da associação com o franquismo.

    Outro partido de direita na Espanha, o Cidadãos tenta construir uma alternativa moderna, mais jovem e menos crítica das pautas identitárias. Também para esse setor, a aliança com o Vox traz incômodos.

    Por isso, os representantes de ambos os partidos evitaram mencionar a possível aliança com o Vox no debate televisivo realizado nesta segunda-feira (22) na Espanha.

    Nenhum representante do Vox foi autorizado a participar, pois o partido ainda não tem representantes no Parlamento – o que funciona como uma espécie de cláusula de barreira para os convidados.

    Os desafios à esquerda

    Do lado contrário, o maior partido do campo da esquerda, o Psoe, também tenta lidar com alianças incômodas. A principal delas envolve o Podemos, partido que surgiu como uma grande inovação das esquerdas em 2015, mas que, desde então, decaiu.

    Além do Podemos, o Psoe terá de lidar também com dois partidos pequenos que lutam por maior autonomia da região da Catalunha: o PDeCAT (Partido Democrata Europeu Catalão) e o ERC (Esquerda Republicana da Catalunha).

    A luta dos catalães por maior autonomia levou a um plebiscito em outubro de 2017 na região, que acabou sendo declarado ilegal pelo governo central. Líderes do movimento foram presos e a polícia fechou à força locais de votação.

    Desde então, esse setor tenta barganhar – ora com a esquerda, ora com a direita – sua pauta por maior autonomia, mesmo que desista da independência completa.

    Como o auge da repressão aos independentistas catalães se deu sob o governo de Mariano Rajoy, do direitista Partido Popular, analistas como a socióloga espanhola Esther Solano, que pesquisa a extrema direita internacional, acreditam que a tendência desse setor é de tentar formar uma coalizão com o Psoe, de esquerda, na próxima eleição.

    ‘Vox resgata a memória do franquismo’

    O Nexo entrevistou Solano por telefone nesta terça-feira (23). Ela, que é professora na Universidade Federal de São Paulo, tem seguido de perto a eleição espanhola.

    Solano esteve na Espanha nos meses de janeiro e fevereiro, e prepara um regresso ao país nos próximos dias, onde, além de votar, fará também pesquisas para o trabalho que desenvolve a respeito do crescimento da extrema direita no mundo.

    Há conexão de algum tipo entre o franquismo e o que o Vox representa?

    Esther Solano  Membros do Vox resgatam muito a memória histórica do franquismo. Vários políticos que saíram candidatos a cargos públicos pelo Vox declaram-se franquistas. Isso é a primeira vez que acontece na Espanha, porque o Partido Popular [maior partido de direita na Espanha] lutou muito para limpar sua imagem, retirando o franquismo de sua história, mas o Vox resgata isso. Então, claramente, há um empoderamento da memória histórica do franquismo na Espanha.

    Um dos aspectos que eles resgatam dos anos do franquismo é o anticomunismo. O franquismo tinha uma ideia muito forte de “lavar a Espanha do marxismo”. Esse é um discurso que o Vox resgata. Outra ideia franquista era a da “Espanha grande e unida”, ligada à grandiosidade nacionalista. Isso também é resgatado pelo Vox. Então, eu diria que a retórica e o simbolismo do franquismo – da unidade nacional, territorial, e da unidade cultural, contra o comunismo – está bem resgatada no discurso do Vox. O que eles não fazem é atacar a democracia, que, aliás, é uma característica da extrema direita no mundo todo hoje. Eles se declaram compatíveis com o sistema democrático.

    Qual a capacidade que o Vox demonstra para fazer coalizões e para chegar ao poder? O partido é sectário ou é também gregário?

    Esther Solano  A Espanha abandonou o bipartidarismo [nas eleições de 2015] e entrou num modelo multipartidarista [no qual as escolhas não estavam limitadas somente ao Psoe, à esquerda, e ao PP, à direita]. Assim, é preciso hoje formar coalizão para entrar no governo de fato. O Partido Popular [de direita] perdeu muitos simpatizantes fundamentalmente por causa dos casos de corrupção do passado.

    O Vox aparece nas projeções mais recentes com 34 ou 35 assentos [dos 350 possíveis] no Parlamento. A única possibilidade de formar governabilidade nesse setor seria numa tríplice aliança entre PP, Cidadãos e o Vox, que é exatamente o mesmo modelo seguido na Andaluzia [região do sul da Espanha na qual o Vox emplacou 12 parlamentares locais nas eleições de dezembro de 2018].

    O que as pesquisas indicam é que, no nível nacional, o Psoe pode sair com o maior número de votos, mas o PP é quem pode vir a ter, no segundo lugar, as melhores condições de construir uma aliança majoritária para governar. Essa aliança seria necessariamente com o Vox. Com isso, o Vox converteu-se num partido imprescindível para a governabilidade da direita na Espanha.

    O Vox tem conexões com a extrema direita internacional?

    Esther Solano  Essa é a grande pergunta, para a qual ninguém tem a resposta completa. O que, sim, nós sabemos é que membros do Vox tiveram contato com Steve Bannon [ex-estrategista da campanha de Donald Trump nos EUA, que professa a estratégia de coligar movimentos de extrema direita populista em todo mundo, especialmente na Europa, onde montou uma base num convento medieval na Itália].

    Grupos como o de [Viktor] Orban [presidente da Hungria] e de [Matteo] Salvini [vice-primeiro-ministro da Itália] têm um modo de agir mais independente. Eles não contam com o Vox, pois o Vox tampouco está configurado como um partido de governo. Ele está considerado, entre aspas, como um partido de extrema direita “de segunda categoria”, digamos. Ele não é a Frente Nacional da França, não é o Orban, não é a Itália, até agora. Mas se, de fato, após a eleição de [28 de abril], chegar ao governo, aí o partido poderá de fato ser considerado uma força.

    Quais os principais nomes do Vox hoje, que poderiam, um dia, chegar ao Poder Executivo nacional?

    Esther Solano  O grande líder do Vox é [Santiago] Abascal [sociólogo e antigo militante do Partido Popular, pelo qual foi deputado de 2004 a 2009]. Ele é carismático, inteligente e sabe administrar seu potencial político, mas é também aquela típica figura da extrema direita atual: muito polêmico, sabe muito bem jogar com o antagonismo político, de combater a corrupção, de se opor ao politicamente correto, de criticar o feminismo, o comunismo etc. Então, ele é alguém para se levar em consideração. Trata-se de alguém que centraliza o partido como um todo. Ele seria o cabeça de lista do Vox, então, caso se formalize um governo de direita, ele assumirá um protagonismo, sem dúvida.

    Há quatro anos só se falava do Podemos, de esquerda, como a grande inovação da política espanhola. O que aconteceu com essa corrente?

    Esther Solano  Virou pó, por duas razões principais. Primeiro, não soube lidar com as demandas separatistas dos catalães e, historicamente, quem não sabe lidar com isso na política espanhola, se afoga. A segunda razão é que o partido ficou muito centralizado na figura de seu líder, Pablo Iglesias, que assumiu uma postura muito hierárquica num partido que se propunha a funcionar com base numa outra política, que valorizava mais as decisões de assembleias, mais horizontais. Essas instâncias se sentiram traídas.

    Por fim, o Psoe firmou uma imagem positiva, de que fez um bom governo [com o premiê Pedro Sánchez], o que fez com que simpatizantes do Podemos se sentissem atraídos novamente pelo Psoe.

    ESTAVA ERRADO: O Partido Popular espanhol foi identificado incorretamente como Partido Progressista em trechos deste texto. A correção foi feita às 17h25 do dia 23 de abril de 2019.

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