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Qual o papel das olimpíadas femininas de matemática

Olimpíadas femininas ajudam a combater barreiras como falta de incentivo, estereótipos de gênero e carência de modelos

 

A delegação brasileira que participou da 8ª Olimpíada Europeia Feminina de Matemática (EGMO), realizada entre 7 e 13 de abril de 2019 em Kiev, na Ucrânia, retornou ao país com um feito inédito: uma medalha de ouro, conquistada pela estudante gaúcha Mariana Groff, de 17 anos.

O Brasil obteve ainda dois bronzes, trazidos por Maria Clara Werneck, do Rio de Janeiro, e Ana Beatriz Studart, de Fortaleza, ambas de 17 anos. Na colocação geral, o Brasil ficou em 20º entre 49 países. A delegação é formada por quatro competidoras e duas líderes.

A EGMO é realizada desde 2012 em diferentes países europeus. O Brasil participa da competição desde 2017, por iniciativa do Impa, Instituto de Matemática Pura e Aplicada.

O instituto promove uma premiação especial, o Impa Olympic Girls Award, e irá realizar pela primeira vez, no segundo semestre de 2019, uma olimpíada brasileira feminina de matemática, chamada Torneio Meninas na Matemática.

Desafios nas competições nacionais

Em um artigo publicado em 17 de abril de 2019 pela Folha de S.Paulo, Marcelo Viana, diretor-geral do Impa, argumenta em favor da importância das competições femininas de matemática e apresenta dados sobre a participação de meninas nas competições mistas nacionais.

Segundo ele, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas chega a contar com presença equilibrada de meninas e meninos, inclusive na segunda fase.

Entre os premiados, porém, a presença feminina é minoritária, e diminui quanto maior for a idade delas. Em 2018, elas foram 30% dos medalhistas da competição do ensino fundamental e só 20% dos medalhistas do ensino médio.

Mas isso muda em eventos mais competitivos, como a Olimpíada Brasileira de Matemática ou a Olimpíada Internacional de Matemática. Nessa última, de acordo com Viana, as garotas foram apenas 10% dos competidores da edição de 2017, realizada no Rio de Janeiro.

Os fatores que prejudicam o desempenho delas

Falta de incentivo

Em geral, meninas recebem menos incentivo de professores e familiares para se interessarem e se dedicarem à matemática e outras disciplinas de exatas. 

Segundo um artigo publicado pela American Educational Research Association (Associação Americana de Estudos Educacionais, em tradução livre), publicado em outubro de 2016, professores tendem a perceber as habilidades dos alunos em matemática como superiores às das alunas, mesmo quando ambos apresentam resultados do mesmo nível.

Estereótipos de gênero

A ideia de que matemática é “coisa de menino” também impede que elas desenvolvam suas habilidades na disciplina. Segundo estudos, meninas têm maior probabilidade de relatar emoções negativas em relação à matemática e de percebê-la como uma matéria masculina.

Escassez de exemplos

O desconhecimento de casos-modelo de mulheres e meninas que obtêm sucesso na matemática reforça a ideia de que a matéria não é para meninas e de que elas têm menor chance de obter bons resultados, o que é empiricamente falso.

Uma metanálise publicada em 2010 analisou dados de 242 estudos realizados entre 1990 e 2007 e concluiu que homens e mulheres apresentam performance similar em matemática.

Ser a única menina na sala que gosta de matemática ou a única a fazer parte de uma delegação pode desencorajá-la desse interesse.

Falta de confiança

Um estudo internacional sobre igualdade de gênero nas escolas, feito pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e divulgado em 2015, revelou que meninas apresentam falta de confiança em sua capacidade de resolver problemas matemáticos.

Como as competições femininas contribuem

Para o diretor do Impa, as olimpíadas femininas ajudam a combater os efeitos de gênero que impedem que garotas participem ou obtenham bons resultados nas competições, proporcionando incentivos adicionais e criando modelos inspiradores.

As competições femininas podem encorajar meninas a descobrir seu potencial na disciplina e a cogitar seguir carreira na matemática.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian em 2015, o então presidente da Sociedade Romena de Matemática, Radu Gologan, afirmou ter descoberto que as estudantes de seu país passaram a se interessar mais por olimpíadas de matemática depois da criação da  Olimpíada Europeia Feminina de Matemática.

Também ao jornal britânico, a líder da delegação dinamarquesa na Olimpíada Internacional de Matemática, Kirsten Rosenkilde, afirmou que a taxa de participantes do sexo feminino em olimpíadas de matemática vinha aumentando ao longo do tempo, mas que competições exclusivas, como a EGMO, eram uma maneira de acelerar esse avanço.

Arun Alagappan, presidente e fundador da competição anual americana Advantage Testing Foundation Math Prize for Girls, que reúne alunas dos Estados Unidos e Canadá e oferece prêmios em dinheiro, disse ao MIT News em 2018 que o objetivo do torneio era dar a elas “a oportunidade de ter sucesso em um ambiente no qual sua sensação de pertencimento nunca estivesse em questão”.

Ravi Boppana, pesquisador do departamento de Matemática do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, também declarou à reportagem do MIT News que as meninas têm performance equivalente ou melhor a dos meninos nas aulas de matemática no ensino básico, mas um número muito pequeno delas cursam Matemática na universidade e seguem carreira na área.

Além de encorajar o desenvolvimento das estudantes, a competição tem por objetivo possibilitar que elas façam conexões e formem uma rede feminina que será útil na universidade e na vida profissional.

O que dizem seus críticos

Para algumas pessoas, porém, a criação de competições separadas intensifica a discriminação.

Professora da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e então presidente do Concurso Sueco de Matemática, Jana Madjarova, disse ao Guardian em 2015 que a Olimpíada Europeia Feminina de Matemática apenas contribuía para a estigmatização das meninas como menos talentosas e capazes na disciplina.

Para ela, a solução preferencial para a baixa participação delas nas competições e na carreira como um todo seria tornar as competições mistas mais populares e conhecidas, o que aumentaria por si só o interesse das alunas nas olimpíadas.

Mesmo jovens competidoras podem não estar totalmente de acordo com os campeonatos separados.

A sueca Lisa Lokteva, medalha de bronze na Olimpíada Internacional de Matemática em 2013, disse ao jornal britânico ser contra a EGMO, mas vê-la como um mal necessário para combater a desigualdade que existe na área. Ela espera que em uma década competições exclusivamente femininas não precisem mais existir.

 

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