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Por que esta página que critica a cultura do ‘996’ viralizou

Programadores protestam contra longas jornadas de trabalho das 9h às 21h, 6 dias por semana, defendidas por bilionários chineses para aumentar a produtividade na indústria da tecnologia

 

Um grupo anônimo de programadores chineses lançou a página 996.ICU no GitHub, uma plataforma da Microsoft de compartilhamento de códigos de programação, em 26 de março de 2019.

A expressão “996.ICU” faz referência irônica às longas jornadas para trabalhadores na indústria da tecnologia na China (das 9 horas da manhã às 9 horas da noite, 6 dias por semana, resultando na fórmula 996), tão intensas que podem levar os desenvolvedores de software à ICU (UTI - Unidade de Terapia Intensiva, em português). “996 working, ICU waiting”, diz o site.

A página viralizou, recebeu mais de 230 mil estrelas (o equivalente do site a “likes” do Facebook) e, segundo fontes da Microsoft ouvidas sob condição de anonimato pelo portal Business Insider, tornou-se potencial alvo de censura na China. De acordo com o portal The Verge, usuários não estão conseguindo acessar o site a partir de browsers de companhias como Alibaba, Qihoo 360, Tencent e Xiaomi.

A partir do movimento “Anti-996” foi lançada uma licença que obriga que empresas que queiram utilizar o software da GitHub se comprometam a respeitar leis trabalhistas e padrões da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Um grupo de funcionários da GitHub e da Microsoft, de diferentes nacionalidades, publicou uma carta aberta em apoio aos trabalhadores chineses do movimento “Anti-996”, em 22 de abril de 2019. Segundo os organizadores, a jornada de 72 horas não paga hora extra, não é nem saudável nem legal - mas é cada vez mais comum no país.

O contexto chinês 

A página 996.ICU elenca uma série de artigos da lei trabalhista chinesa, que define o máximo de 44 horas semanais. Segundo a legislação, funcionários que cumprirem uma jornada de 72 horas deveriam receber 2.275 vezes seu salário-base, o que não acontece na prática.

Também são citados exemplos de empresas que “discretamente” adotaram o modelo no país sem pagar horas extras, como a agência de publicidade 58.com, em setembro de 2016, e da companhai de e-commerce JD.com, em março de 2019. No acervo há uma “lista suja” de 170 empresas com condições inadequadas de trabalho, incluindo gigantes como Huawei e Alibaba.

Jack Ma, fundador do grupo Alibaba, defendeu o regime 996 como uma “grande benção” para jovens trabalhadores. "Se você não trabalha 996 quando você é jovem, quando você pode trabalhar 996?", questionou o executivo chinês, em discurso reportado pela agência Reuters.

Fundado em 1999, o Alibaba atualmente vale cerca de US$ 490 bilhões (R$ 1,9 trilhão). Considerado um dos empresários mais ricos da China, Ma possui uma fortuna pessoal estimada em US$ 40 bilhões (R$ 130 bilhões).

“Se você entra no Alibaba, precisa estar disposto a trabalhar 12 horas por dia. Se não, para que vem? Não precisamos de quem trabalha 8 horas confortavelmente”

Jack Ma

fundador do Alibaba

Richard Liu, presidente do JD.com, também defendeu o sistema 996 e considerou os empregados “preguiçosos”, segundo o jornal britânico The Guardian. Também conhecido como Liu Qiangdong, o executivo é um dos empresários chineses, assim como Ma, na lista de bilionários da revista Forbes.

A economia chinesa está desacelerada desde 2016, quando registrou crescimento de 6,7%, a menor marca desde 1990. O setor da tecnologia passou a sentir os efeitos recentemente, registrando uma queda de contratação de 15% entre 2018 e 2019. Nesse contexto, o mercado interno está cada vez mais intenso e competitivo.

“Para a maioria, nem passa pela cabeça a ideia de que não é necessário trabalhar tantas horas. Incutiram em nós que, para ter sucesso e ganhar dinheiro, é preciso trabalhar muito, muito duro”, relatou Lenny Zhang, especialista em mídias digitais de uma startup ao jornal espanhol El País.

Mas chefes como Ma e Liu podem ser encontrados no mundo todo, lembra a jornalista americana Bryce Covert, em artigo no jornal americano The New York Times, citando exemplos como Elon Musk, fundador da Tesla. No Twitter, o empresário fez declarações similares às de Ma:

“Há lugares muito mais fáceis de se trabalhar, mas ninguém nunca mudou o mundo trabalhando 40 horas por semana. Se você ama o que faz, você (quase) não sente que está trabalhando”

Elon Musk

fundador da Tesla

Os riscos

Trabalhar mais horas, segundo estudo recém-publicado pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos, não é compensado pelo retorno financeiro no fim do mês - entre outros fatores, devido à ausência de paridade salarial no mercado. Mulheres podem trabalhar muito mais horas que homens, por exemplo, mas ainda receber salários menores.

Horas extras excessivas no escritório também foram apontadas por outras investigações científicas como fatores de risco para doenças cardiovasculares, diabetes e depressão, podendo provocar danos físicos e psíquicos. Outra consequência possível é a síndrome de burnout, o esgotamento identificado por sintomas como cansaço constante, irritabilidade, alterações de humor e angústia para ir trabalhar.

Além dos riscos à saúde, mais tempo no trabalho não quer dizer melhores resultados. De acordo com estudo realizado pela Universidade de Stanford de 2014, citado no relatório “Overworked America” de 2016, a produção de um funcionário é relativamente constante com até 48 horas semanais - ultrapassar essa carga pode implicar uma queda abrupta de desempenho profissional.

Não foram encontradas diferenças relevantes nos resultados entre trabalhar 70 horas ou 56 horas - em outras palavras, diz o relatório, essas 14 horas extras foram simples perda de tempo.

Aberto para comentários, críticas e propostas de internautas de outros países que queiram participar do movimento, a página 996.ICU apenas aconselha: “Vá para casa às 6 horas da tarde sem nenhum peso na consciência”.

 

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