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Por que Thiago Gagliasso tem cargo na pasta de Cultura do Rio

Ator, influenciador digital e irmão de Bruno Gagliasso despertou discussões sobre sua nomeação nas redes sociais

 

O ator Thiago Gagliasso, de 29 anos, foi nomeado assistente da Superintendência de Artes da SECEC (Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa) do Rio de Janeiro, na gestão do governador Wilson Witzel (PSC). A nomeação foi publicada no Diário Oficial em 28 de fevereiro de 2019.

Gagliasso assumiu o cargo comissionado a convite do secretário de Cultura do Rio, Ruan Fernandes Lira, que atuou no comitê organizador dos Jogos Olímpicos realizados na capital fluminense, em 2016. Em nota ao jornal Extra, em 22 de abril de 2019, a secretaria atribuiu a contratação à projeção do ator como influenciador digital. O cargo antes era ocupado por Angela Maria Barrozo.

“Influenciador digital com grande número de seguidores, Gagliasso está trazendo a experiência do seu canal no Youtube e perfil no Instagram para as redes sociais da SECEC. O mundo digital é uma das vertentes da Economia Criativa, setor no qual o Estado do Rio de Janeiro é o principal polo de criatividade do país, contando com mais de 99 mil postos de trabalho. Ator que também desenvolve um projeto social de formação de atores na Beija-Flor, em Nilópolis, Thiago está fazendo a interface com o mundo artístico, apresentando sugestões de parcerias para serem analisadas pela Superintendência de Artes. Na SECEC-RJ ele trabalha de segunda a sexta-feira, como os demais funcionários da pasta”, diz a nota.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada em 22 de abril de 2019, Gagliasso foi questionado por uma internauta sobre sua qualificação para o cargo. Respondeu que trabalha há cinco anos com eventos e economia criativa. “Formamos 18 atores na comunidade de Nilópolis sem a leizinha que beneficia lacradores”, provavelmente se referindo à lei Rouanet. “Experiência certamente irei adquirir com o tempo, mas a vontade de fazer o bem e direito está acima de qualquer coisa! Pode cobrar.”

Quem é Thiago Gagliasso

Participante do reality show “A Fazenda”, da TV Record, em 2011, Thiago Gagliasso é ator, influenciador digital e produtor de festas de funk.

No teatro, protagonizou “Um Quase Gagliasso” em 2018, uma peça que, segundo a sinopse oficial, “conta a história de um jovem ator em início de carreira com sobrenome de peso que trabalhou há 10 anos no mercado da TV e migrou para o mercado publicitário e de entretenimento, compartilhando histórias e situações inusitadas vividas no meio artístico e nos bastidores”. A expressão “sobrenome de peso” faz referência ao irmão famoso, o ator Bruno Gagliasso, que já estrelou diversas produções no cinema, no teatro e na TV.

No Instagram, Thiago conta mais de 420 mil seguidores. Em post de 18 de abril de 2019, o ator afirmou que seu perfil “está aberto para toda e qualquer ideia e proposta, também para as empresas que estão dispostas a somar com recursos para execução de projetos culturais e criativos”. No perfil há predominantemente “selfies” do ator.

Em outubro de 2018, o ator se envolveu em uma discussão pública sobre política com o irmão e a cunhada, Giovanna Ewbank. Enquanto Thiago apoiou publicamente Jair Bolsonaro (PSL), Bruno e Giovanna aderiram ao movimento #EleNão durante a campanha presidencial. A briga de família foi publicizada pelo próprio Thiago nas redes sociais.

O que faz um influenciador digital

Influenciadores digitais são novos formadores de opinião que têm redefinido a dinâmica do mercado a partir do ambiente digital, segundo define a jornalista Issaaf Karhawi, no livro “Tendências em Comunicação Digital” (ed. ECA-USP, 2016). Também são chamados de “digital influencers” e “creators”.

As expressões se referem a personalidades famosas nas redes sociais (principalmente Instagram e YouTube), capazes de influenciar comportamentos de consumo de marcas e produtos por seus milhares de seguidores.

Em geral, influenciadores são contratados pela iniciativa privada para divulgar marcas e produtos com atividades como presença “VIP” em eventos, campanhas publicitárias e divulgação de fotos e vídeos nas redes sociais.

Desde as eleições, a ética nas propagandas dessas personalidades desperta controvérsias, pois partidos e marcas contrataram influenciadores digitais para promover produtos, ideias ou candidatos em suas estratégias de marketing. “A questão ética hoje é muito instável. Uma marca séria tem que se preocupar em observar o que o influenciador faz”, analisou Rosângela Oliveira, professora da Escola Superior de Publicidade e Marketing, em entrevista ao Nexo, em fevereiro de 2019. Não há regulamentação nem do mercado nem da profissão.

Em novembro de 2018, o deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE) protocolou projeto de lei para regulamentar a profissão de influenciador digital. O PL 10937/2018 propõe proibir “a divulgação de conteúdo visando a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza.” O projeto foi retirado em dezembro de 2018 para correções e reinserido em janeiro de 2019. 

Em abril de 2019, o deputado federal Eduardo Bismarck (PDT-CE) propôs o PL 104/2019 para enquadrar youtubers e influenciadores digitais como microempreendedores individuais.

O Nexo procurou a Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa, via assessoria de imprensa, para questionar as atribuições e os benefícios do cargo de assistente ocupado por Thiago Gagliasso. A assessoria reafirmou a “expertise” do ator no Instagram e no YouTube, mas não respondeu às questões específicas até a publicação deste texto.

Segundo o site oficial, a Superintendência de Artes da SECEC é responsável por promover ações de artes cênicas, artes visuais e música. O órgão também é encarregado da administração de equipamentos culturais como a Casa França-Brasil e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e da programação dos teatros fluminenses, em parceria com a Fundação Anita Mantuano de Artes do Rio de Janeiro. De acordo com estimativa da revista Veja, a remuneração para o cargo equivale a R$ 8.000 mensais.

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