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O sectarismo religioso e o nacionalismo nos ataques no Sri Lanka

Uma década após o fim da guerra civil, cingaleses voltam a enfrentar atentados, repressão e o medo de mais violência sectária

     

    Uma série de ataques a bomba deixou pelo menos 290 mortos e 500 feridos em hotéis e igrejas do Sri Lanka no domingo (21) de Páscoa. Não há autoria reivindicada dos atentados, mas o principal suspeito é o grupo NTJ (National Thowheeth Jama'ath ou Organização Nacional Monoteísta).

    Segundo autoridades, o grupo radical não agiu sozinho.  “Organizações terroristas estrangeiras estão por trás dos terroristas locais”, disse a ministra da Saúde do Sri Lanka, Rajitha Senaratne. Essas organizações seriam, segundo especialistas ouvidos pela imprensa internacional, a Al-Qaeda e o Estado Islâmico.

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    Al-Qaeda e Estado Islâmico estão em decadência depois de terem atingido o ápice de suas ações terroristas – no caso do primeiro, em 2001, no ataque às Torres Gêmeas, e no caso do Estado Islâmico, entre 2012 e 2016, ao assumir o controle de regiões estratégicas da Síria e do Iraque, treinando membros que depois se engajariam em ataques de grande repercussão em cidades europeias como Paris, Nice, Londres e Bruxelas.

    A hipótese dessa articulação internacional no Sri Lanka foi levantada dada a complexidade dos ataques de domingo (21), que ocorreram de maneira simultânea em diferentes partes do país.

    Em plena Páscoa, dois homens-bomba se explodiram num hotel de luxo chamado Shangri-La, na capital, Colombo. Pelo menos outros cinco detonaram explosivos presos ao corpo em três igrejas católicas e dois hotéis do país. As ações tiveram a intenção de causar o maior dano possível, pois ocorreram na hora do café da manhã dos hotéis e na hora da missa de domingo.

    O caso do empresário Holch Povlsen, o homem mais rico da Dinamarca, chamou a atenção. Ele perdeu três de seus quatro filhos nos ataques de domingo (21). A família passava férias no Sri Lanka no momento do ataque. Assessores publicaram nota dizendo que Povlsen pede privacidade, e que não comentará detalhes do incidente.

    O crescimento do sectarismo

    Os cristãos representam 7,6% da população do Sri Lanka, seguidos de duas outras minorias: os muçulmanos (9,7%) e os hindus (12,6%). A maioria dos moradores do país é budista (75%). Os dados são do censo mais recente, de 2012.

    O grupo NTJ surgiu no Sri Lanka em 2015, como uma resposta da comunidade muçulmana a uma série de ataques perpetrados por parte de membros de comunidades budistas.

    Em dezembro de 2018, foi a vez de membros do NTJ vandalizarem monumentos budistas, alimentando a espiral de provocações entre as duas comunidades.

    Em janeiro de 2019, a polícia encontrou armas, munições, rações de campanha e propaganda religiosa num sítio no interior do Sri Lanka, ligado a membros da NTJ.

    Até então, não tinha havido registros significativos de episódios de violência envolvendo a comunidade cristã no país, e mesmo as escaramuças entre budistas e muçulmanos eram consideradas menores.

    Porém, especialistas na política do sudeste asiático notaram que o secularismo vem perdendo espaço para ideias políticas nacionalistas baseadas no sectarismo religioso e identitário, não apenas no Sri Lanka, mas também na Índia, em Mianmar, na Indonésia e em Bangladesh.

    “No Sri Lanka, uma tóxica força política nacionalista budista se mobiliza contra os cristãos e muçulmanos minoritários, classificando-os como relíquias de uma era colonial britânica em que a maioria budista era reprimida”, disse nesta segunda-feira (22) o jornal americano The New York Times, numa análise que foi reproduzida por alguns dos principais jornais do mundo, incluindo os do Brasil.

    Desse ponto de vista, as ações de domingo (21) seriam fruto da exacerbação dessas tensões locais crescentes, insufladas por atores estrangeiros, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, que buscam novos territórios para propagar suas ações.

    Lembranças da guerra civil

    Logo após os atentados, as autoridades bloquearam o acesso às redes sociais no país. O governo do presidente Maithripala Sirisena – que foi eleito após uma campanha de reunificação nacional pós-conflito, com apoio inclusive de membros da etnia minoritária tâmil – também decretou estado de sítio, suspendendo uma série de garantias individuais e permitindo, por exemplo, a prisão de suspeitos sem mandado.

    Soldados armados tomaram várias ruas da capital, bloqueando o acesso público com cavaletes, e com fuzis em punho.

    O clima de pânico lançou o Sri Lanka de volta ao período em que as forças do governo enfrentaram por 30 anos os rebeldes do Tigres Tâmeis.

    O país, que no início era chamado Ceilão, tornou-se independente do Império Britânico em 1948. Só em 1972 passou a chamar-se Sri Lanka. E, a partir dos anos 1980, a minoria tâmil, formada principalmente pelos hindus, passou a enfrentar o governo central.

    Foi nesse período que os Tigres começaram a empregar a tática dos homens-bomba. Alguns especialistas consideram que eles foram um dos primeiros grupos a usar em larga escala essa tática de ataque suicida, que ficaria mais conhecida por seu emprego em conflitos no Oriente Médio.

    Os Tigres tiveram milhares de soldados e contaram até mesmo com uma força aérea própria, mas acabaram derrotados em 2009, num episódio que é considerado por muitos defensores de direitos humanos como uma verdadeira campanha de extermínio.

    O povo tâmil, pelo qual os Tigres lutavam, reivindicavam a criação de um Estado independente no norte e nordeste do país. Além da peculiaridade religiosa, eles constituíam também uma minoria étnica, com língua e histórias próprias.

    Agora, os episódios da Páscoa fazem ressurgir o temor de que o país possa mergulhar numa nova espiral de violência sectária, na qual as tensões étnicas dão lugar a tensões religiosas.

    As informações desencontradas

    Chamou a atenção no domingo (21) o fato de o governo saber do risco da ocorrência de atentados dessa magnitude. Membros da polícia local haviam circulado memorandos internos advertindo para a existência de informações consistentes nesse sentido. Alguns desses documentos falavam da estocagem de explosivos.

    O ministro da Justiça, Rauff Hakeem, chamou a ocorrência dos atentados de “fracasso colossal por parte dos serviços de inteligência”. Mas o presidente cingalês, Maithripala Sirisena, minimizou a importância dos alertas, dizendo que governos recebem inúmeros alertas vagos o tempo todo.

    Depois das explosões, a polícia ainda encontrou nesta segunda-feira (22) ao menos 87 detonadores num movimentado terminal de ônibus de Colombo, evitando uma tragédia ainda maior.

    Agora, um comitê especial ligado à Suprema Corte vai investigar possíveis omissões de agentes públicos na prevenção dessa série de atentados.

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