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Bolsonaro: das caneladas eleitorais ao vídeo contra Mourão

Presidente publicou críticas do escritor Olavo de Carvalho ao vice, mas apagou após repercussão negativa. Em nota, tentou amenizar conflito

    Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão protagonizam desentendimentos desde a campanha eleitoral. A relação entre o presidente da República e seu vice, porém, vem ganhando novos contornos nestes primeiros quatro meses de governo. Os atritos envolvem os filhos do presidente, especialmente o vereador do Rio Carlos, o escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, e também militares que integram a administração federal.

    Antagonismo

    Olavo de Carvalho e os filhos do presidente

    O escritor que vive nos EUA representa a ala ideológica do governo que defende o estabelecimento de uma “guerra cultural”, ou seja, do combate simbólico a ideias associadas à esquerda. Defende, por exemplo, o fim do que chama de “marxismo cultural” hegemônico nas escolas e universidades brasileiras. O presidente, parte de seus ministros e seus filhos políticos são adeptos dessas posições. E replicam o escritor.

    Hamilton Mourão e os militares do governo

    O vice-presidente está a frente do grupo de militares que ocupa cargos-chave no governo. É o setor mais pragmático e com preocupação estratégica nas relações internacionais, tentando evitar desde conflitos armados com a Venezuela a ruptura de negociações comerciais com a China e o Oriente Médio, por exemplo. Nacionalistas, têm pontos de discordância também com os liberais econômicos do governo.

    Um dos principais palcos da disputa entre esses dois grupos foi, até aqui, o ministério da Educação, onde eles entraram em conflito explícito, o que causou uma série de demissões na pasta, incluindo a do ministro titular. Agora, Olavo e Mourão entram em choque público. Abaixo, o Nexo enumera, de forma cronológica, os principais momentos e contextos desse antagonismo.

    As caneladas da campanha

    Durante a campanha de 2018, Mourão ficou marcado por uma série de declarações que tiveram de ser desautorizadas por Bolsonaro. O general irritou integrantes da campanha ao anunciar sua intenção de consultar o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre uma possível substituição ao ex-deputado em debates na TV, enquanto ele se recuperava, no hospital, de uma facada. A atitude foi considerada uma busca por um “protagonismo excessivo”, e Bolsonaro vetou a ideia.

    Quando questionado sobre os atritos com Mourão, Bolsonaro costuma dizer que são apenas “caneladas”. Trata-se de uma expressão recorrente do presidente para se referir a desentendimentos que ocorrem dentro do governo ou quando há desacordo com outros Poderes, como o Congresso.

    Tom moderado e apaziguador

    O vice fez uma série de declarações contrárias às ideias e promessas de Bolsonaro desde a posse, em janeiro de 2019, adotando muitas vezes uma posição antagônica à do presidente.

    • Em janeiro, ao comentar a desistência de Jean Wyllys de cumprir um novo mandato, Mourão afirmou que a ameaça ao parlamentar era um “crime à democracia”. Quando o deputado pelo PSOL anunciou sua decisão de abandonar a política, Carlos Bolsonaro publicou no Twitter: “vá com Deus e seja feliz”.
    • No mesmo mês, Mourão chamou o decreto que flexibilizava a posse de arma pelo cidadão comum como o cumprimento de uma promessa de campanha apenas, e não como uma medida para melhorar a segurança.
    • Ainda em janeiro, Mourão  defendeu cautela sobre uma possível transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, promessa de Bolsonaro que acabou não se concretizando.
    • Em fevereiro, disse que o aborto era uma decisão da mulher, contrariando o discurso conservador que elegeu a chapa. Bolsonaro tem o apoio da bancada evangélica e já afirmou que, se o Congresso aprovar alguma lei facilitando o aborto, irá vetá-la.
    • Também em fevereiro, reafirmou a importância da China como parceiro comercial e defendeu que as relações não poderiam ser abandonadas da noite para o dia. Durante a campanha, Bolsonaro dissera que o Brasil não poderia ficar “na mão do chinês”.
    “Não é uma questão de um é o antípoda do outro, como fica querendo ser caracterizado. Muito pelo contrário. Ele tem uma experiência e eu tenho outra, que se retrata depois na forma como a gente conduz”

    Hamilton Mourão

    vice-presidente, em entrevista ao Jornal O Globo, em 1º de fevereiro de 2019

    Mourão, que é general da reserva, também se mostrou simpático com a imprensa num momento em que Bolsonaro, capitão reformado, entrava em choque direto com alguns veículos de comunicação, como a TV Globo e o jornal Folha de S.Paulo.

    Ataques de Olavo aos militares

    As declarações de Mourão irritaram particularmente o escritor Olavo de Carvalho, que fez uma série de ataques ao vice e aos militares que compõem o governo.

    Em março, ele disse que o ministro general da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, não “prestava”, em resposta a uma entrevista em que o ministro dizia que o desequilíbrio do escritor era evidente e que sua linguagem era “chula”.

    Inconformado com o comentário de Mourão sobre Jean Wyllys, Olavo de Carvalho, que se diz perseguido pela imprensa, afirmou: “Mourão, você não tem vergonha de puxar o saco desse Jean Wyllys e nada fazer em minha defesa?”. Ele também acusou o Exército de não ter contido os comunistas em dominar a narrativa midiática. “Eu estou acusando formalmente. Vocês deixaram isso acontecer.”

    Para o ideólogo do bolsonarismo, os militares se enganam ao dizer que salvaram o Brasil do comunismo ao tomar o poder em 1964. Para ele, ao tolerar que as universidades e a imprensa fossem ocupadas por pessoas de esquerda, os militares prepararam o país para a volta dos comunistas com a redemocratização, nos anos 1980. “Esse pessoal subiu ao poder em 1964, destruiu os políticos de direita e sobrou o quê? Os comunistas, que tomaram o poder. Eles dizem: ‘Livramos o país dos comunistas’. Não, eles entregaram o país ao comunismo”, afirmou, em vídeo.

    Olavo também se irritou quando Mourão encontrou autoridades palestinas em janeiro (o que, para ele, contraria a política de Bolsonaro de aproximação com Israel) e se reuniu com o governador de São Paulo, João Doria (o escritor sugeriu que o vice estava traindo o presidente), em março.

    O escritor se disse arrependido de ter apoiado Mourão durante a campanha presidencial e o classificou como “desarmamentista, adepto do abortismo, protetor de comunistas e inimigo visceral do bolsonarismo”.

    Mourão reagiu prometendo que processaria Olavo caso os ataques continuassem. “Tem um cidadão que mora lá nos Estados Unidos, o Olavo de Carvalho, que todo dia me xinga. O Olavo de Carvalho, acho que é astrólogo, viu. É o astrólogo da Virginia. Tenho de passar para ele essa bola de cristal aí”, disse, em março, após as críticas do escritor.

    Olavo também incentivou o deputado federal Marco Feliciano (Podemos), que é vice-líder do governo no Congresso, a pedir o impeachment de Mourão, após os dois se encontrarem nos EUA. “Faça o que for possível para blindar o presidente. Ele não está conseguindo governar”, teria dito o escritor ao parlamentar, segundo o jornal Folha de S.Paulo. O deputado protocolou o pedido em abril, acusando o vice de conspirar contra o presidente. Em entrevista a jornalistas, Mourão chamou a iniciativa de “bobagem” e brincou dizendo que, se o pedido prosperar, ele voltaria para a praia.

    Vídeo e incentivo do presidente

    No sábado (20), o canal de Bolsonaro no Youtube publicou um vídeo em que Olavo aparece com uma arma de fogo, efetuando disparos. Numa conversa seguinte, com um interlocutor não identificado, faz novas críticas ao militares.

    “Qual foi a última contribuição das escolas militares para a alta cultural nacional? As obras do Euclides da Cunha. Depois de então foi só cabelo pintado e voz empostada. Cagada, cagada”, afirma.

    O vídeo publicado no sábado (20), na conta do presidente, foi divulgado por Carlos na manhã de domingo (21) e, devido à repercussão negativa, foi apagado do perfil de Bolsonaro no fim da tarde do mesmo dia.

    O episódio ocorreu simultaneamente à divulgação de uma nota na coluna do jornalista Lauro Jardim, no jornal O Globo, segundo a qual Bolsonaro havia incentivado, por meio de mensagens no WhatsApp, aliados a atacarem Mourão pelas redes sociais.

    Na segunda-feira (22), Mourão respondeu que Olavo deveria “se limitar à função que ele desempenha bem, que é a de astrólogo”. “Ele pode continuar a prever as coisas, que ele é bom nisso”, disse. Ele sugeriu que a publicação do vídeo não foi feita pelo presidente. “Alguém deve ter postado na rede dele [Bolsonaro]”, disse.

    Em março, Carlos postou um texto sobre questões da Câmara Municipal do Rio por engano na conta do pai, no Facebook, apagou e republicou na própria conta, revelando que ainda tinha acesso ao perfil de Bolsonaro.

    No início da noite de segunda-feira (22), Bolsonaro divulgou uma nota dizendo que as declarações de Olavo “contra integrantes dos poderes da República não contribuem para a unicidade de esforços e consequente atingimento de objetivos propostos em nosso projeto de governo”. A mensagem foi lida pelo porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros.

    A nota diz ainda que o escritor “teve um papel considerável na exposição das ideias conservadoras que se contrapuseram à mensagem anacrônica cultuada pela esquerda e que tanto mal fez ao país” e que o presidente tem convicção de que o escritor, “com seu espírito patriótico, está tentando contribuir com a mudança e com o futuro do Brasil”.

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