O que é ‘ansiedade matemática’. E como ela afeta estudantes

Sensação de mal-estar ao lidar com cálculos pode estar relacionada à pressão por resultados e à relação de pais e professores com a disciplina

 

O coração dispara, o suor aumenta e você parece se esquecer de tudo o que você já aprendeu um dia. A sensação de desconforto diante de situações que envolvem a matemática, como provas, aulas ou a simples necessidade de fazer algum cálculo no dia a dia, é mais comum do que parece. E tem nome: “ansiedade matemática”.

O termo ganha força na segunda metade do século 20, com estudos que tentavam identificar porque certos estudantes universitários relatavam medo ou nervosismo ao terem de lidar com números ou resolver problemas matemáticos. O campo de pesquisa se estendeu, mais tarde, também à educação básica.

Segundo a pedagoga e doutora em psicologia pela Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) Alessandra Campanini Mendes, que tem tese sobre o tema, a ansiedade matemática é identificada em maior número nas crianças no segundo ciclo do ensino fundamental.

Isso acontece porque a disciplina tende a ficar complexa e trazer conteúdos mais abstratos com o passar dos anos escolares. “O conteúdo se torna denso, com informações e fórmulas que normalmente precisam ser ‘decoradas’ pelos alunos, e isso pode desencadear a concepção de que se trata de algo mais difícil”, explica.

Sintomas e manifestação

Segundo a pesquisadora, a condição se manifesta de formas diferentes e pode incluir reações:

  • Fisiológicas, como taquicardia, sudorese, sensação de desmaio, confusão mental.
  • Emocionais/cognitivas, como a sensação de descontrole do pensamento, presença muito frequente de pensamentos de autodepreciação. O aluno acredita que a matemática é apenas para pessoas inteligentes e que ele jamais será capaz de aprendê-la.
  • Comportamentais, como atitude de fuga e esquiva, como quando o aluno realiza uma atividade de forma rápida a fim de se livrar do estímulo aversivo ou quando ele protela uma atividade sobre a disciplina.

Os sintomas não são exclusividade de pessoas que têm algum tipo de dificuldade com a matéria. Um estudo publicado em 2018 pelo Centro de Neurociência para Educação, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, mostrou que mais de 70% das crianças com alto grau de ansiedade matemática são, na verdade, estudantes que possuem notas medianas ou altas na disciplina. No longo prazo, no entanto, a ansiedade pode levar o estudante a ter um desempenho pior do que sua verdadeira capacidade.

Causas

Em novo estudo publicado em março de 2019, a universidade inglesa entrevistou 2.700 alunos do ensino fundamental um e dois no Reino Unido e na Itália para explorar as possíveis causas da ansiedade matemática. O relatório mostrou que a pressão por resultados acadêmicos e a disputa ou provocações com colegas estavam entre os principais gatilhos da condição.

Além disso, a relação dos pais dos estudantes com a matemática e a forma como os professores ensinam ou falam sobre a disciplina também podem estar relacionadas aos bloqueios emocionais que afetam o potencial de aprendizagem.

“O contato da criança com a matemática tem início antes mesmo do ingresso na escola e do ensino formal. Por essa razão, fatores como crenças familiares podem afetar a concepção da criança em relação à disciplina. Responsáveis que não tiveram experiências positivas podem passar aos filhos que a matemática é uma disciplina difícil e isso pode gerar concepções errôneas por parte do aluno”

Alessandra Campanini

Pedagoga e doutora em psicologia pela Ufscar

O mesmo se aplica aos professores. A forma como docentes utilizam a própria disciplina para controlar o comportamento dos alunos também pode ser um desencadeador de ansiedade. “Quando a turma demonstra indisciplina e o professor ameaça os alunos com uma avaliação repentina de matemática, a fim de garantir o silêncio dos alunos”, exemplifica.

O que fazer

Segundo a pesquisadora, a solução está em reorganizar hábitos de estudo inadequados. Seguir uma rotina de estudos com horários definidos para cada disciplina, ter um local bem iluminado e arejado para ler e fazer os exercícios, revisar a matéria após a aula e tirar dúvidas com o professor podem ser algumas estratégias para contornar os sintomas. “A participação da família é fundamental, pois é ela quem dará o suporte fora do âmbito da instituição. E, claro, é importante que o professor e demais profissionais tenham consciência do problema da criança para que ofereçam a atenção necessária”, ressalta Campanini. Também é indicado o acompanhamento profissional com psicopedagogos e psicólogos, em alguns casos.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que os estudos sobre a Ansiedade Matemática se iniciaram no século 19. Na verdade, as primeiras pesquisas sobre o assunto são do século 20. A informação foi corrigida às 15h15 de 7 de maio de 2019.

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