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A segunda vítima dos 80 tiros de uma equipe do Exército no Rio

Luciano Macedo, de 27 anos, foi baleado ao tentar socorrer família que estava em carro fuzilado. Ele ficou 11 dias internado e deixa esposa grávida de cinco meses

     

    O catador de materiais recicláveis Luciano Macedo, que tentou socorrer a família alvo de mais de 80 tiros de fuzil disparados pelo Exército, no Rio, em 7 de abril, morreu na quinta-feira (18). Baleado durante a ação dos militares, ele estava internado havia 11 dias no Hospital Estadual Carlos Chagas e tinha passado por duas cirurgias na quarta-feira (17). Luciano tinha 27 anos e deixa esposa, grávida de cinco meses.

    Ele é a segunda vítima do episódio ocorrido em Guadalupe, na zona norte da capital fluminense. O músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, que ia de carro com a família para um chá de bebê, morreu no local.

    Inicialmente, o Exército alegou que havia atirado contra um carro roubado, de onde teriam partido tiros contra uma patrulha. A informação era falsa. Nove militares foram presos. O caso é investigado pelo próprio Exército.      

    O fuzilamento

    Em 7 de abril, cinco pessoas seguiam para um chá de bebê num Ford Ka branco. O automóvel era ocupado por:

    • Evaldo Rosa dos Santos, músico e segurança
    • Sérgio Gonçalves de Araújo, sogro de Evaldo
    • Luciana Oliveira, enfermeira e mulher de Evaldo
    • O filho de 7 anos de Evaldo e Luciana
    • Uma afilhada do casal, de 13 anos

    Segundo uma primeira nota do Comando Militar do Leste, uma patrulha do Exército havia flagrado um assalto perto do piscinão de Deodoro, em Guadalupe, por volta das 14h40. O carro também seria branco, como o da família, mas de outro modelo e marca. Ainda segundo o Exército, criminosos teriam atirado contra os militares, que “responderam à injusta agressão”. “Um dos assaltantes foi a óbito no local e o outro foi ferido”, dizia o informe.

    O carro que foi alvo, porém, era o da família de Evaldo. Segundo depoimento de Luciana a jornalistas, eles continuaram atirando mesmo quando vizinhos tentaram socorrer a família. “Fui botando a mão na cabeça e gritando: moço, socorre meu marido. E eles ficaram de deboche. Eu perdi meu melhor amigo. Estou com ele há 27 anos”, disse, ao jornal O Globo. Ela contou ainda que tentou acalmar o companheiro, ferido. “Por que o quartel fez isso? Eu falei para ele: ‘Calma, amor, é o quartel’. Ele só tinha levado um tiro.”

    Mais tarde, o comando militar disse que caso estava sendo investigado. As primeiras informações, segundo o órgão, tinham sido divulgadas a partir de informações da própria patrulha.

    Além de Evaldo, que morreu no local, Sérgio foi ferido e levado ao hospital. O catador Luciano também foi baleado e socorrido. Os demais saíram ilesos.

    O presidente Jair Bolsonaro falou sobre o episódio apenas cinco dias depois. Ele classificou o fuzilamento como “incidente” e negou que o Exército tenha matado alguém.

    “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente, uma morte. Lamentamos a morte do cidadão trabalhador, honesto, e está sendo apurada a responsabilidade. No Exército sempre existe um responsável, não existe essa de jogar para debaixo do tapete. Vai aparecer o responsável”, afirmou, em 12 de abril, durante inauguração do aeroporto de Macapá.

    Quem é Luciano

    Segundo depoimento de Lucimar Macedo, irmã do catador, ao jornal O Globo, Luciano estava em busca de madeira para construir um barraco numa comunidade conhecida como Favela do Muquiço, em Guadalupe, quando passou pelo local do fuzilamento.

    Segundo ela, o irmão perdeu o pai muito cedo, por volta dos dois anos de idade e estudou até a quinta série. Aos 18, decidiu viver nas ruas, onde conheceu a companheira, Daiane. “Ela engravidou. Parece que estavam tentando levar uma vida menos sofrida tentando construir um barraquinho em uma comunidade”, afirmou Lucimar, que é auxiliar de produção de uma fábrica em Belford roxo, na Baixada Fluminense.

    Ele tentou socorrer a família que estava no carro, mas levou três tiros. Internado desde então, passou por uma cirurgia no tórax na quarta-feira (17), devido a complicações no pulmão.

    Um decisão judicial havia determinado que ele fosse transferido para outro hospital com maiores condições de atendimento, mas não foi cumprida. “Os médicos fizeram uma cirurgia que não foi autorizada, quando já havia essa determinação de transferência que não foi cumprida pelo hospital”, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo o advogado João Tancredo. Ele afirmou que irá processar o hospital pelo descumprimento da decisão e que pretende pedir indenização para a família de Luciano.

    A Secretaria de Estado de Saúde do Rio disse em nota que o estado de saúde dele era considerado gravíssimo, o que impedia a transferência.

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