Quais as chances de o Brasil ter queda no PIB no 1° trimestre

Índice de atividade medido pelo Banco Central teve quedas em janeiro e fevereiro

     

    A economia brasileira começou 2019 devagar. Os dados preliminares já divulgados sobre os primeiros meses do ano são um dos fatores que têm feito economistas revisarem constantemente para baixo a projeção de crescimento para 2019.

     

    Desde fevereiro, são sete semanas consecutivas de rebaixamento da previsão para o ano. No relatório Focus mais recente, a projeção de crescimento para 2019, de 1,95%, era 0,55 ponto percentual menor do que no início de fevereiro.

    Na segunda-feira (15), o Banco Central divulgou mais um dado preocupante. O IBC-Br, índice que mede a atividade econômica e é análogo ao PIB, caiu 0,73% em fevereiro na comparação com janeiro. A queda foi maior do que o esperado pelos analistas do mercado financeiro. Projeções colhidas pelo jornal Valor Econômico antes do resultado mostravam uma queda de 0,29%.

    Nos dois resultados divulgados em 2019, houve duas quedas. Em janeiro, o índice já havia caído 0,31% em relação a dezembro de 2018. O dado usado para comparação é o dessazonalizado, ou seja, o que passa por ajustes que amenizam as diferenças entre os meses do ano.

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    O que é o IBC-Br

    O IBC-Br é uma espécie de termômetro da economia, que dá indicações mais rápidas de como vai o país. Por ser divulgado com mais frequência e sempre antes do Produto Interno Bruto, ele ganhou o apelido, difundido na imprensa, de “prévia do PIB”. Essa terminologia, no entanto, é rechaçada por economistas e pelo próprio Banco Central, responsável pelo cálculo.

    Assim como o PIB, o IBC-Br é um indicador de atividade econômica. O PIB, inclusive, é usado como modelo pelo IBC-Br. Mas o Banco Central ressalta que “há diferenças conceituais, metodológicas e mesmo de frequência” na apuração dos dois.

    O IBC-Br é calculado, o PIB é medido. Isso porque, pela necessidade de se publicar o resultado mais rapidamente, o Banco Central não coleta os dados. Ele usa amostras, aproxima e estima esses resultados para toda a economia. É um índice menos complexo, menos preciso, mas por isso mais rápido.

    Outra diferença é que o IBC-Br só avalia o lado da oferta da economia: a produção da agricultura, indústria e serviços. O IBC-Br é mensal, o PIB é trimestral.

    Possibilidade de crescimento do PIB negativo

    Os dois resultados do IBC-Br já divulgados mostram uma queda acumulada de pouco mais de 1% em relação a dezembro. Se não houver revisão de dados anteriores, o IBC-Br precisaria crescer cerca de 1,9% em março para terminar o trimestre estável na comparação com os últimos três meses de 2018.

    A última vez que o índice avançou tanto de um mês para o outro foi em junho de 2018, quando o dado vinha de uma forte queda causada pela greve dos caminhoneiros. O histórico aumenta a probabilidade de o dado dos três primeiros meses do ano, no conjunto, ser negativo.

    O IBC-Br dá indícios do que pode acontecer com o resultado do PIB, que só é divulgado meses depois. A divulgação do primeiro trimestre, por exemplo, está marcada pelo IBGE para o fim de maio.

    Quando o IBC-Br vai mal, aumentam os temores sobre o resultado do PIB – que é o principal índice da economia do país, mede tudo que se produz e consome. A recuperação da economia brasileira já vinha frustrando as expectativas, mas desde que o país bateu no fundo do poço da recessão, no fim de 2016, foram oito trimestres de crescimento. Um resultado negativo interromperia a série.

    Semelhanças

     

    Sobre as dificuldades da economia brasileira no início de 2019 e a possibilidade de o crescimento do PIB do primeiro trimestre ser negativo, o Nexo entrevistou dois economistas:

    • Gilberto Borça Júnior, gerente de pesquisa macroeconômica do BNDES
    • José Márcio Camargo, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio

    Quais as causas da não reação da economia brasileira?

    Gilberto Borça Júnior Foi pior do que se esperava, é mais um resultado decepcionante. Em 2018, houve uma série de problemas, desvalorização do real, crise na Argentina, greve dos caminhoneiros, há ainda uma incerteza muito alta, a construção civil vive uma situação calamitosa. Tudo isso atrapalha a recuperação, mas na minha avaliação eles não são a causa fundamental.

    A partir de 2016, houve uma mudança grande na política macroeconômica brasileira, com teto de gastos e uma atuação muito mais comedida do sistema público de crédito. Entre 97 e 2016, a despesa do governo cresceu 6% em termos reais, desde então ela não cresce mais. Era uma demanda para a economia que não existe mais. Tanto no BNDES, quanto na Caixa e no Banco do Brasil, o crédito público atua como um propagador de demanda de maneira muito mais fraca.

    O que sobra para a política econômica é a política monetária. Embora a taxa de juros já tenha caído de maneira intensa, não me parece suficiente para empurrar a economia de volta para o nível potencial. As pessoas ainda acreditam que a economia vai naturalmente voltar para o nível normal, mas estamos há dois anos tendo frustração com a retomada da atividade. E para esse ano deve se consolidar mais uma vez uma frustração.

    José Márcio Camargo O primeiro ponto importante é que a gente veio de uma recessão espetacular, uma queda de PIB per capita de quase 10% em dois anos, coisa raríssima na história. Isso gera queda de investimento, as empresas ficam mais incertas em relação ao futuro. Isso ainda afeta.

    Outro ponto é que 2018 foi um ano extremamente difícil. Houve desvalorização de mais de 30% do real, aumento do preço do combustível de mais de 25%, aumento de mais de 20% na energia elétrica, greve dos caminhoneiros que paralisou o país por 15 dias, eleição que gerou enorme volatilidade, guerra comercial entre Estados Unidos e China. Tudo isso afeta, gera a incerteza e investimentos demoram a reagir a esse tipo de choque.

    O interessante é que, apesar desses choques todos, a economia reagiu relativamente bem. Cresceu pouco, é verdade, mas a inflação continua sob controle, o Banco Central não precisou aumentar juros, isso é o lado positivo que as pessoas têm dificuldade de ver.

    E ainda há a incerteza gerada pela discussão sobre a reforma da Previdência. Os investidores estão esperando a aprovação da reforma para ter certeza que a economia vai efetivamente entrar numa trajetória de crescimento sustentável porque sem a reforma o país não vai a lugar nenhum. Uma vez aprovada, acredito que a economia vai sim deslanchar.

    Quais são as chances de um crescimento do PIB negativo no primeiro trimestre?

    Gilberto Borça Júnior Existe o risco. O IBC-Br está mais de 7% abaixo do pico do fim de 2013, está num nível parecido com o início do ano passado. Ou seja, a atividade econômica realmente andou de lado.

    Há muita chance de ter um PIB negativo no primeiro trimestre, ou próximo de zero. Qualitativamente é zero. Isso tende a rebaixar ainda mais as expectativas de crescimento para o ano. Fica bastante improvável crescer perto de 2%.

    Isso pode ter algumas implicações. A partir de junho, quando passar o impacto da inflação da greve dos caminhoneiros, a inflação deve despencar. Se o Banco Central se pautar agora pela inflação corrente, que está um pouco acima da meta, ele vai estar perdendo tempo no processo de redução de juros – que vai acabar se impondo. Se ele reduz em julho, já começa a ser muito tarde para a atividade econômica deste ano.

    À luz das informações que a gente tem hoje, o crescimento do ano está muito mais próximo de 1% do que de 2%. E a reação política, que eu acho que vai acontecer, é via política monetária porque é o único canal que restou para estimular a demanda no curto prazo.

    José Márcio Camargo É preciso fazer as contas, não posso afirmar com certeza. Aparentemente, por levantamentos preliminares, ainda estamos com PIB positivo do primeiro trimestre. Mas isso não altera os planos do governo.

    O discurso do Paulo Guedes não tem nada a ver com esses dados de curto prazo, tem a ver com a situação do Brasil no longo prazo. É sobre como fazer a economia crescer de forma sustentável por anos. Para isso, é preciso de uma reforma da Previdência rápido.

    Só a reforma vai tornar o teto de gastos sustentável. Se acontecer o dado ruim de curto prazo, espero que favoreça ao Congresso entender a necessidade da reforma. Porque um dos motivos do resultado ruim vai ser justamente a incerteza em relação à aprovação da reforma, espero que os deputados entendam isso. Se tem algum efeito, que seja o de favorecer a aprovação da reforma.

    Se consegue aprovar no primeiro semestre, o segundo vai ser bem melhor. Caso contrário, vamos continuar nessa incerteza. Acho que ela vai ser aprovada de qualquer forma, mas o melhor é aprovar antes para a economia voltar a crescer.

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