Ir direto ao conteúdo

A ferramenta digital desenhada para preservar a memória indígena

Segundo pesquisadora, Mukurtu surgiu por uma necessidade de modelos de acervos mais adequados para representar tradições dos povos nativos

 

A plataforma Mukurtu, um sistema de publicações de conteúdo digital (como a plataforma Wordpress) gratuito e de código aberto, foi desenhada com qualidades específicas para manter, preservar e tornar mais acessível o patrimônio cultural de comunidades indígenas.

A ferramenta, desenvolvida em 2007 na Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos, criou um modelo de apresentação de acervos digitais com espaços para a inclusão de narrativas tradicionais, além de categorias (metadados) para identificação de arquivos que colocam em primeiro plano o conhecimento indígena, por exemplo.

A ideia para o Mukurtu, segundo a pesquisadora Kimberly Christen, que coordena o projeto, surgiu por uma necessidade de modelos de acervos digitais mais adequados para representar as tradições nativas. Novos modelos, além disso, facilitariam a curadoria desses materiais.

“O passado colonial deixou um legado de coleções e materiais da cultura indígena que foram removidos de suas comunidades de origem e que frequentemente foram registrados de forma errada ou ofensiva”

Kimberly Christen

diretora do Centro de Estudos Digitais e Curadora na Universidade do Estado de Washington, em entrevista ao site Humanities For All

O Mukurtu permite ainda que as pessoas que administram os acervos baseados em seu código — ou seja, os integrantes de comunidades nativas — tenham controle sobre a acessibilidade do conteúdo. É possível tanto limitar a circulação de certos arquivos a membros cadastrados de uma comunidade quanto liberá-los para o público geral.

Ao site Humanities For All, de divulgação de ciências humanas, Christen afirmou que a plataforma “desfaz noções predeterminadas de autoridade sobre o controle, a exibição e a circulação de arquivos”, ao ser desenhada especificamente para abrigar o conhecimento indígena.

A iniciativa foi desenvolvida a partir de conversas com comunidades nativas, segundo Christen, que em 2007 trabalhava em uma pesquisa junto a povos aborígenes na Austrália. Segundo Christen, o projeto continua a adicionar novas funções ao código do Mukurtu, com base nas necessidades e feedbacks das pessoas com quem tem contato.

O exemplo dos ‘povos do platô’

 

Uma plataforma criada a partir do código Mukurtu é o “Plateau People’s Web Portal” (portal dos povos do platô, em tradução livre), que reúne coleções de fotografias, desenhos, entrevistas e outros registros dos modos de vida de oito etnias dos chamados “povos do platô”, que vivem em parte do Canadá e em estados do nordeste dos Estados Unidos.

A criação é uma colaboração entre as oito etnias, a Universidade do Estado de Washington e eventuais parceiros locais e nacionais, incluindo o Instituto Smithsonian e a Biblioteca do Congresso dos EUA.

Todos os materiais do portal são selecionados em parceria com os indígenas, que têm a palavra final sobre sua digitalização e inclusão na plataforma. Após a decisão, inicia-se um processo de curadoria do conteúdo que inclui “adicionar nomes específicos, narrativas culturais, conhecimento tradicional” e diversos registros (metadados, por exemplo) para identificação de cada um dos itens na página.

Um exemplo envolve um tipo de bolsa feita de raízes, registrada nas coleções das Tribos Confederadas de Warm Springs, no estado de Oregon, nos EUA. Primeiro, o objeto é descrito em sua forma — um saco cilíndrico, com raízes retorcidas, desenhos de pássaros e animais.

A aba seguinte mostra depoimentos de três mulheres indígenas sobre a bolsa. “A tecelagem é realmente apertada”, diz Valerie Switzler, por exemplo. “Minha tia me dizia que minha bolsa era bonita, mesmo que estivesse um pouco torta. Sempre nos encorajavam.”

É possível pesquisar no Plateau People’s Web Portal filtrando por etnias, categorias (arquitetura, artesanato, religiões, entre outros) e coleções. Alguns conteúdos exigem login na plataforma para acesso.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!