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O que há de Paulo Freire nas escolas públicas brasileiras

Pensador pernambucano morto em 1997 está na mira de grupos conservadores que atribuem maus índices da educação a suposta ‘ideologia de esquerda’

 

O deputado federal e filho do presidente da República, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), comparou no sábado (13) uma suposta falta de divulgação do trabalho do educador Paulo Freire — cujo legado na educação nacional seria desconhecido — com a publicização atual das ideias do escritor Olavo de Carvalho, o “guru” intelectual do bolsonarismo.

A postagem, com cerca de 5,5 mil respostas até a tarde de terça-feira (16), provocou uma série de outras publicações a favor e contra a figura de Freire, um dos principais alvos de ataques nas redes sociais e nos discursos políticos desde a ascensão de uma nova onda conservadora no país, representada por Jair Bolsonaro (PSL).

Nascido no Recife, em Pernambuco, Paulo Freire (1921-1997) abandonou a carreira de advogado para tornar-se professor de português. Educador, desenvolveu uma linha pedagógica inovadora, reconhecida internacionalmente, baseada nas experiências do indivíduo e em sua participação no processo de aprendizagem.

Por sua visão de educação ligada à crítica, à consciência social e aos problemas contemporâneos, e pela relação de sua teoria com o marxismo e com a educação popular, Freire foi perseguido em parte da vida, na ditadura militar (1964-1965), e despertou agora a crítica de grupos à extrema direita engajados na guerra cultural, em especial defensores do movimento Escola sem Partido, que erroneamente confundem a filosofia do escritor com uma estratégia de “doutrinação” escolar de esquerda.

Ao investir em uma aprendizagem crítica, baseada no diálogo e na construção conjunta do conhecimento, Paulo Freire defendeu o oposto da ‘doutrinação’ hoje associada a ele, dizem especialistas

Ao se candidatar à Presidência, em 2018, Bolsonaro falou em “expurgar a ideologia de Paulo Freire” das escolas, associando a pedagogia do pernambucano à má qualidade do ensino público. Antes, em 2015, em um protesto a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), um grupo de pessoas carregava uma faixa em que se dizia “chega de doutrinação marxista”, seguido de “basta de Paulo Freire”.

"Se o Brasil tem uma filosofia de educação tão boa, Paulo Freire é uma unanimidade... Por que a gente tem resultados tão ruins comparativamente com outros países?”, provocou o recém-empossado ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub, em discurso em 9 de abril.

Intelectual brasileiro mais citado em publicações na área de humanas, Freire deixou uma extensa contribuição teórica sobre a compreensão das desigualdades e o papel da educação no mundo contemporâneo. Dividiu opiniões, no entanto, ao romper com a ideia de escolas voltadas apenas à instrução, sugerindo uma educação mais ampla e global.

O que Paulo Freire defendeu

Maior educador do país, Paulo Freire escreveu uma série de obras que influenciaram a pedagogia crítica, corrente de pensamento que defende uma educação voltada à liberdade — ou seja, capaz de promover entre estudantes a habilidade de pensar criticamente sobre sua realidade e de engajá-los a transformá-la por conta própria.

Ele defendeu, em livros como “Educação como prática de liberdade” (1967), “Pedagogia do oprimido” (1974) e “Pedagogia da autonomia” (1996), que o ensino deveria ocorrer “em conjunto”, a partir do diálogo entre professor e aluno — diálogo que, por sua vez, deveria levar ao desenvolvimento da consciência e da autonomia de quem aprende.

“Acredito na participação popular, acredito na transformação do mundo realizada sobretudo por aqueles e por aquelas que se encontram desprovidos, ou roubados no seu direito de ser”

Paulo Freire

em entrevista no programa “Matéria Prima”, da TV Cultura, em 1989

É uma maneira de educar assumidamente política, uma vez que se concentra na emancipação social, no “despertar” do aluno para ler a si mesmo e ao mundo — em concepção oposta à da chamada “educação bancária”, “que vem com conteúdos prontos para ‘depositar’ na cabeça dos estudantes”, sem espaço para a reflexão, segundo Freire.

A partir de experiências no Rio Grande do Norte, em 1963, quando trabalhou como professor em uma turma de cortadores de cana, Freire desenvolveu um método de alfabetização de adultos baseado nas palavras, contextos e saberes das comunidades, conciliando a aprendizagem com as experiências de vida dos estudantes. Em 45 dias, ensinou 300 pessoas a ler e a escrever, segundo registros da época.

“A educação freireana é eminentemente prática, pois sempre parte do conhecimento de mundo e da cultura das pessoas não para superá-los, mas para integrá-los com conhecimentos científicos e sistematizados, permitindo a todos os sujeitos uma visão mais ampliada e crítica”

Sumaya Pimenta

pedagoga e mestre em práticas docentes no ensino fundamental, em entrevista de 2018 sobre Paulo Freire à revista Nova Escola

A prática, bem-sucedida, tornou o nome de Freire conhecido no campo educacional e despertou a atenção do então presidente João Goulart (PTB), que convidou o educador para elaborar uma política nacional de alfabetização baseada no caso do Rio Grande do Norte. A ditadura militar instaurada no golpe de 1964, no entanto, prendeu Freire por traição e, depois, levou-o a 16 anos de exílio no Chile e na Bolívia.

A fama do educador

Citações

Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado em universidades da área de ciências humanas em todo o mundo, segundo levantamento de 2016 a partir da ferramenta de pesquisa do Google Scholar, plataforma voltada à literatura acadêmica. Além disso, “Pedagogia do oprimido” é o único livro brasileiro a aparecer na lista dos cem mais pedidos pelas universidades de língua inglesa, segundo o projeto Open Syllabus.

72.359

era a quantidade de vezes em que Paulo Freire havia sido citado em universidades no mundo em 2016, segundo o Google Scholar

Títulos

Com homenagens em 48 universidades, entre brasileiras e estrangeiras, Paulo Freire é considerado o brasileiro mais vezes laureado com títulos de doutor honoris causa (“por causa de honra”, honraria concedida a quem se destaca em sua área de atuação) pelo mundo. Instituições de ensino de diversos países o convidaram para tê-lo no corpo docente. Ele foi ainda presidente honorário de 13 organizações internacionais.

Homenagens

Paulo Freire foi condecorado Patrono da Educação Brasileira em 2012, por meio de lei sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Ele também recebeu, em 1986, o prêmio da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de Educação para a Paz. Em 1993, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Seu nome é lembrado ainda em mais de 350 escolas no Brasil e no exterior, além de diretórios estudantis, centros acadêmicos, bibliotecas, ruas e teatros.

O que há de Paulo Freire nas escolas

Ao longo dos anos, as ideias e métodos de Paulo Freire ganharam terreno na discussão acadêmica e, na prática, em escolas, ONGs, cursos estrangeiros e cursos de formação de professores, entre outros.

O Nexo reuniu abaixo documentos e episódios que mostram como (ou se) a concepção freireana se refletiu em escolas e centros de formação, na história da educação no país e na política educacional brasileira.

As ideias na política

Ainda que Paulo Freire seja o mais reconhecido educador do país, o Brasil nunca “adotou” sua concepção ou metodologia de alfabetização na forma de uma política pública nacional, segundo especialistas.

A BNCC (Base Nacional Comum Curricular), documento que norteia os currículos e propostas pedagógicas na educação básica, aprovado em novembro de 2018, por exemplo, não faz nenhuma referência a Paulo Freire — ainda que valorize elementos caros à obra do escritor, como a promoção da reflexão, da crítica e da cidadania no processo de ensino.

Antes, nos antigos PNCs (Parâmetros Nacionais Curriculares), entre os anos 1990 e 2000, o pernambucano apareceu em referências bibliográficas, sem indicação de quais trechos dos textos haviam saído de sua teoria. A seu lado, havia nomes como Jean Piaget, que tem tanto protagonismo quanto Freire nas diretrizes do Ministério da Educação.

“Não há e nunca houve incentivo governamental para a aplicação dos ensinamentos e princípios freireanos. Isso se deve à ação isolada de alguns educadores, professores e escolas”

Sebastião Rocha

diretor da ONG CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento), em entrevista de 2018 sobre Paulo Freire à revista Nova Escola

As normas vinculadas ao governo federal não impõem quais métodos e abordagens de ensino devem ser adotados nas escolas — a Lei de Diretrizes e Bases (lei n. 9394, de 1996), uma das principais da educação nacional, pelo contrário, entende que o ensino deve se basear no pluralismo de concepções pedagógicas, cabendo às unidades de ensino (e não ao Estado) elaborar a proposta que mais lhe convém.

Isso porque, para grande parte dos especialistas, o “melhor método” varia caso a caso, a depender do contexto das aulas, dos professores e dos estudantes. Escolas da rede de ensino pública, de modo geral, podem mesmo adotar mais de uma linha metodológica, “mesclando” concepções de diferentes autores. Não há informações sobre quais ou em quantas delas as ideias de Paulo Freire estariam sendo aplicadas.

As ideias na história

Houve dois momentos em que os escritos de Freire tiveram maior adesão nas redes públicas de ensino brasileiras, segundo entrevista do historiador Danilo Nakamura à revista Nova Escola. Primeiro, durante o governo de João Goulart (1961-1964), que associava o pensamento freireano ao seu projeto desenvolvimentista e de reformas de base.

Segundo, durante o processo de redemocratização, a partir de 1985, com o fim da ditadura militar. Nessa época, Freire tornou-se secretário de Educação da prefeitura de São Paulo, chefiada então por Luiza Erundina (PT), e “organizou um movimento importante de reorganização dos currículos” municipais, segundo Nakamura.

Ajudou a elaborar o Estatuto do Magistério (lei n. 11.229, de 1992) da cidade, que propunha medidas para valorizar professores, além de aprimorar a qualidade do ensino municipal e investir em um modelo de “gestão democrática da educação”, baseado na participação da comunidade externa nas escolas, por meio de representantes eleitos.

As ideias na prática

Ainda que continue a influenciar debates pedagógicos nas redes municipais, o pensamento de Paulo Freire aparece hoje em experiências pontuais de educação, como em ONGs (organizações não governamentais), projetos de ensino para adultos e iniciativas em escolas da rede pública conduzidas por esforços da gestão local.

A filosofia de Freire orienta ainda o currículo de escolas da rede privada. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, representantes de ao menos seis das principais escolas de elite da cidade São Paulo afirmam que o pernambucano tem influência sobre sua concepção de ensino, baseada nas experiências e no incentivo à autonomia dos estudantes.

“Paulo Freire nos convida a compreendermos o chão da escola como o lugar no qual o professor valoriza os saberes dos alunos como ponto de partida para qualquer situação significativa de aprendizagem”

Debora Vaz

diretora no colégio Santa Cruz, tradicional instituição privada de ensino na zona sul de São Paulo, em entrevista de janeiro de 2019 à Folha de S.Paulo

3 projetos com Paulo Freire

Alternância

Implantada em 2001 no município de Jaguaquara, no sudoeste da Bahia, a Escola Estadual Rural Taylor-Egídio tem proposta “genuinamente freireana”, tornando-se pioneira na região pela educação integral e pedagogia de alternância (ou seja, que intercala períodos de convivência em sala de aula com momentos no campo). A opção tem como objetivo atentar para a realidade local e evitar a evasão escolar. 

Escuta

O projeto “Vagas de luz: as sombras do preconceito”, desenvolvido pelo professor Mauro Rosa, professor da EMEB Isidoro Battistin nas disciplinas de artes e projetos em uma turma de EJA (Ensino de Jovens e Adultos) em São Bernardo do Campo (SP), buscou mostrar os preconceitos e barreiras enfrentados por jovens e adultos afastados da educação. A iniciativa consistiu em uma atividade com teatro de sombras em quatro atos. Para planejar a apresentação, o professor realizou uma “escuta” com seus alunos, com rodas de conversas e dinâmicas, a fim de identificar os problemas pelos quais cada um deles passava e que o impediam de avançar na escola. O projeto foi um dos vencedores do Prêmio Educador Nota 10 em 2018.

Tecnologia

O projeto “Alfabetização cidadã”, desenvolvido pela Samsung e pelo Instituto Paulo Freire, organização que defende o legado do educador, promove a alfabetização de adultos que trabalham com reciclagem em São Paulo. A iniciativa usa a tecnologia (celulares, televisores em sala de aula, aplicativos) para estimular o estudante a aprender de acordo com seu nível de prática de leitura. A primeira turma do projeto, de 300 estudantes, formou-se em 2018.

Quais os reais gargalos da educação

Associada erroneamente a Paulo Freire, a suposta “doutrinação” de esquerda que estaria ocorrendo em escolas brasileiras, segundo o movimento Escola sem Partido, tem sido questionada por estudiosos como sendo uma “polêmica artificial” que desvia o foco dos reais problemas do sistema educacional brasileiro.

Alguns deles são a má formação de professores no Brasil, a evasão escolar entre adolescentes e o contingenciamento de recursos que deve se acentuar nos próximos anos, devido a fatores como a recessão econômica e a promulgação da lei do teto dos gastos públicos em 2016.

25,8%

dos 2,2 milhões de professores brasileiros não têm licenciatura em sua formação superior, segundo dados do Censo Escolar de 2018

Entre os desafios do governo estão a implementação da nova base curricular, a renovação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), fundo nacional que vence em 2020, e a criação de meios que tornem a carreira de professor mais atrativa.

A gestão Bolsonaro no Ministério da Educação tem sido marcada por um quadro que une brigas ideológicas, demissões em série, vaivém de decisões e, principalmente, paralisia nos rumos da pasta. No início de abril (8), Ricardo Vélez Rodríguez, então ministro, foi demitido. No lugar, entrou Abraham Weintraub, que trabalha pela primeira vez na área.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que um professor que venceu o Prêmio Educador Nota 10 em 2018 se chama Isidoro Battistin. Na verdade, seu nome é Mauro Rosa, e a escola em que trabalha se chama EMEB Isidoro Battinstin. A informação foi corrigida às 18h53 de 10 de maio de 2019.

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