O que é bioética. E qual a sua importância na ciência

Experimento que criou macacos modificados com genes expressos no cérebro humano reacende debate sobre ética no desenvolvimento científico

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Onze macacos rhesus transgênicos (isto é, geneticamente modificados) foram criados no Instituto de Zoologia de Kunming, da Academia Chinesa de Ciências.

Liderado pelos cientistas chineses Lei Shi, Xin Luo e Jin Jiang, entre outros, o experimento, inédito e considerado controverso, foi publicado no periódico científico National Science Review em 27 de março de 2019. Também participaram pesquisadores do Laboratório Yunnan Key de Pesquisas Biomédicas, na China, e da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

Os cientistas “editaram” o DNA dos macacos utilizando a técnica CRISPR (capaz de alterar a sequência genética) e adicionando o gene humano microcefalin (conhecido como MCPH1). O MCPH1 é um gene ligado ao desenvolvimento cerebral, considerado responsável pela inteligência humana.

O experimento pretendia investigar a evolução do desenvolvimento cognitivo do cérebro humano, ao observar o comportamento desse gene nos modelos de macacos transgênicos. Segundo os resultados da experiência, os macacos modificados tiveram melhor desempenho nos testes para memória de curto prazo e identificação de cores e formas.

O estudo, embora inovador, despertou discussões sobre bioética entre cientistas. Segundo a revista MIT Technology Review, pesquisadores consideraram o experimento “imprudente” e “arriscado” por usar animais e abrir precedente para alterações genéticas mais radicais.

Outros experimentos

Não é a primeira vez que experimentos científicos chineses despertam debates éticos.

Em novembro de 2018, o cientista He Jiankui, então integrante da SUSTech (Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China), anunciou à agência Associated Press que conseguiu alterar o DNA de embriões para torná-los resistentes ao vírus HIV, resultando no nascimento de duas gêmeas imunes à infecção.

Inédito, o caso provocou polêmica: o estudo não foi publicado em revistas científicas, a universidade demitiu o pesquisador, que está sendo investigado pela polícia chinesa. A China proíbe a clonagem humana, mas não especifica proibições para a edição de genes humanos.

Em janeiro de 2018, cientistas do Instituto de Neurociências de Xangai conseguiram clonar macacos usando a técnica que originou a ovelha Dolly, em julho de 1996.

Do experimento novo nasceram Zhong Zhong e Hua Hua. Foi a primeira clonagem de primatas usando essa tecnologia, registrada na revista científica Cell. O caso também suscitou discussões sobre a possibilidade de clonar outras espécies de primatas, inclusive humanos.

Segundo o cientista Qiu Renzong, referência de bioética na China, casos de estudos genéticos polêmicos continuam a surgir devido à ausência de leis rígidas para regular experimentos e a falta de penalidades para infrações. “A China protege muito os cientistas. Se cometermos um pequeno erro, para por aí. Não há sanções”, declarou durante conferência internacional registrada pela agência France Presse.

A origem da bioética

Bioética é o campo de estudo das implicações morais nas pesquisas científicas, principalmente na biologia e na medicina. Abrange questões como a utilização de animais em experimentos, a manipulação genética e a clonagem humana.

A expressão foi cunhada na década de 1920: em artigo publicado na revista alemã Kosmos, o teólogo alemão Fritz Jahr cunhou o neologismo “Bio=Ethik” para se referir ao reconhecimento de obrigações éticas não só em relação ao ser humano, mas a todos os seres vivos.

Após diversos debates na comunidade científica internacional, foi lançada a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, assinada pelos países-membros das Nações Unidas, em 2005.

O documento não é uma lei, mas uma série de diretrizes para nortear novas legislações, a fim de estabelecer limites e parâmetros sobre o que é ético no desenvolvimento de experimentos científicos. Entre as diretrizes se destacam o respeito à dignidade humana, a responsabilidade social dos cientistas e a proteção à biodiversidade e à biosfera.

Um dos princípios trata especificamente do equilíbrio entre “benefício” e “dano” no avanço do conhecimento científico, das práticas médicas e das tecnologias associadas. O texto propõe que os benefícios, diretos e indiretos, de determinado estudo devem ser sempre “maximizados”; enquanto riscos e danos devam ser sempre “minimizados” na tomada de decisões.

Na última década, cientistas conseguiram mapear o código genético de primatas. Humanos possuem mais de 90% de similaridade genética com chimpanzés (99%), macacos bonobos (98,7%) e macacos rhesus (93%). A descoberta da similaridade genética é importante para o desenvolvimento de pesquisas sobre biologia, fisiologia e neurociência, entre outros.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de pesquisas após o mapeamento genético também desperta discussões sobre o respeito aos animais.

“Você vai para ‘O Planeta dos Macacos’ imediatamente na imaginação popular”, comentou a bioeticista Jacqueline Glover, referindo-se ao estudo que criou onze macacos rhesus, à revista do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). “Humanizar [os macacos, tirando-os de sua condição natural] é feri-los. Onde eles iriam e o que iriam fazer? Não crie um ser que não pode ter uma vida própria em nenhum contexto”, justificou.

Bing Su, um dos autores do estudo dos macacos rhesus, relativizou os dilemas éticos envolvidos: segundo o autor, apesar da semelhança genética entre rhesus e humanos, não há risco de produzir macacos “humanizados” ou “superinteligentes” tal como filmes de ficção científica. Até agora, o cenário é “impossível”, declarou.

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