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Quem é Katie Bouman. E as mulheres na computação

Cientista que trabalhou no desenvolvimento de um dos algoritmos necessários para a visualização de imagem de buraco negro tornou-se a cara do projeto

 

Revelada em 10 de abril de 2019, a primeira imagem real de um buraco negro levou quase dois anos para ter seus dados processados – foi gerada a partir de 5 milhões de gigabytes (ou 625 mil pendrives de 8 gigabytes cada um), captados por radiotelescópios.

Celebrada por cientistas e leigos por seu ineditismo, a divulgação da imagem tornou mais conhecido o trabalho da pesquisadora Katie Bouman, cientista de 29 anos que liderou a criação de um dos algoritmos usados para “costurar” os dados dos radiotelescópios espalhados ao redor do globo e transformá-los em imagem.

Na quarta-feira (10), Bouman compartilhou no Facebook uma foto de si mesma observando alegre e incrédula a imagem do buraco negro na tela do computador. No dia 12 de abril, a postagem já contava com mais de 45 mil compartilhamentos.

Na época em que começou a trabalhar no desenvolvimento do algoritmo, em 2016, Bouman estava fazendo seu doutorado em ciência da computação e inteligência artificial do MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Sua contribuição para a visualização do buraco negro vem sendo destacada nas redes sociais, muitas vezes em paralelo à de Margaret Hamilton, cientista que escreveu o código de software crucial para a missão que colocou um astronauta da Nasa na Lua pela primeira vez, em 1969.

Como fotografar um buraco negro

Em 2016, Bouman explicou seu trabalho com o algoritmo em uma palestra do projeto TED Talks.

“Assim como desenhistas forenses usam descrições limitadas para reconstruir uma fotografia com conhecimento em estruturas faciais, os algoritmos que desenvolvo usam dados limitados do telescópio para nos levar a uma imagem que também se pareça com as substâncias no universo. Usando esses algoritmos, podemos reconstruir imagens a partir desses poucos dados ruidosos”

Katie Bouman

Em sua palestra no TED

Em 2019, ela segue trabalhando, em seu pós-doutorado, no Event Horizon Telescope (Telescópio do Horizonte dos Eventos), projeto de colaboração internacional que reúne uma série de radiotelescópios pelo mundo, além de estar lecionando como professora assistente no Instituto de Tecnologia da Califórnia. 

“Estou interessada é no próximo passo: onde podemos colocar um telescópio na Terra ou em qual órbita podemos colocar um para conseguir refinar a imagem ainda mais”, disse Bouman em entrevista à revista Nature.

O foco de sua pesquisa é o uso de novos métodos computacionais para superar os limites da captura de imagens em um âmbito multidisciplinar.

Computadoras

Bouman também se tornou alvo de alguns ataques por supostamente “levar muito crédito” pelo trabalho. Foram disseminados relatos falsos que sugeriam que a cientista teria tentado reivindicar créditos indevidos pelo trabalho, e que outros, principalmente homens, deveriam estar recebendo mais atenção.

De fato, o projeto contou com o trabalho de mais de 200 pesquisadores, entre os quais 40 são mulheres. Assim que a imagem do buraco negro foi divulgada, a própria Bouman reforçou o trabalho em equipe necessário para alcançar o resultado e o talento dos cientistas com quem trabalhou.

Ainda assim, a foto em que a cientista olha emocionada a tela do computador viralizou por “ser boa demais para não ser compartilhada”.

Bouman converteu-se na “heroína instantânea para meninas e mulheres das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, um símbolo bem-vindo neste mundo carente de representatividade”, diz uma reportagem do jornal americano The New York Times.

A presença feminina na área

Se as mulheres são hoje minoria nas áreas de ciências exatas e tecnologia, não é essa a história dos primórdios da computação.

Na virada do século 19 para o 20, uma equipe exclusivamente feminina comandada por Edward Pickering, no observatório astronômico da Universidade de Harvard, nos EUA, realizava a função minuciosa de observar fotografias do céu estrelado e fazer os cálculos necessários para determinar tamanho, distância, idade e composição dos corpos celestes.

Em cerca de dez anos, as “computadoras”, como eram chamadas, compilaram mais de 500 mil dessas fotografias e suas respectivas anotações. Seu trabalho, apesar de essencial, era bastante mal remunerado.

A função continuou existindo e cresceu em importância em meados do século 20, quando elas tiveram um papel importante e pouco reconhecido na conquista espacial. Por volta dessa época, o desenvolvimento do hardware – as partes físicas do computador – era considerado um serviço masculino.

Já o software, que indica ao hardware, por meio de linguagem de programação, como realizar tarefas, era “serviço de mulher”.

As mulheres foram pioneiras na pesquisa e criação de linguagem de programação, quando o campo, ainda incipiente, não tinha prestígio nem era bem remunerado.

Isso começou a mudar em meados da década de 1980, com o surgimento dos computadores pessoais. A partir daí, e à medida que a indústria da tecnologia virou um negócio milionário, os homens dominaram a programação, e as programadoras ficaram de fora.

Esse processo abriu um fosso de desigualdade entre homens e mulheres no campo da tecnologia que perdura até hoje, nos salários, nos cargos e na ideia de que programar não é “coisa de mulher”.

 

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