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O documentário sobre Alice Guy-Blaché, pioneira do cinema

Diretora, roteirista e produtora francesa teve carreira longa e prolífica, chegando a dirigir um estúdio na era pré-Hollywood

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    Be Natural: A História Não Contada de Alice Guy-Blaché”, documentário dirigido por Pamela B. Green, resgata a trajetória da diretora, roteirista e produtora que participou dos primórdios do cinema mundial e esteve por trás de mais de 1.000 filmes, muitos dos quais se perderam.

    Guy-Blaché (1873-1968) foi contemporânea do empresário Thomas Edison, dos irmãos Lumière, inventores do cinematógrafo, e do cineasta Georges Méliès, todos comumente creditados por sua contribuição à gênese do cinema.

    “A Fada do Repolho”, curta de 1896, é o filme mais antigo realizado por ela de que se tem notícia. Com ele, a cineasta praticamente fundou a narrativa de ficção no cinema, já que, em suas primeiras aplicações, a tecnologia só havia sido utilizada para documentar a realidade.

    Seu primeiro filme foi feito apenas um ano depois do que é considerado o evento inaugural da história do cinema, uma projeção pública realizada pelos irmãos Lumière em dezembro de 1895, em Paris. Em março do mesmo ano, eles haviam feito uma demonstração privada na qual a futura cineasta estava presente.

     

    Lançado em 2018 e exibido em festivais, entre eles o prestigiado Festival de Cannes, “Be Natural” é narrado pela atriz Jodie Foster e investiga por que, apesar de ter alcançado fama e sucesso financeiro e ter tido uma carreira mais longa do que qualquer um de seus contemporâneos, a cineasta foi esquecida pela indústria que ajudou a criar.

    O documentário foi bancado por um financiamento coletivo na plataforma Kickstarter e por contribuições de alguns dos cineastas contemporâneos entrevistados.

    A vida de Guy-Blaché

    Nascida em 1873 em Saint-Mandé, nos arredores de Paris, Alice Guy era filha de um editor e livreiro e passou a primeira infância entre o Chile, devido aos negócios do pai, e a Europa, onde estudou em um internato de freiras na fronteira da França com a Suíça.

    Já crescida, perdeu o pai nos anos 1890 e, com isso, precisou arranjar uma maneira de sustentar a si e à mãe.

    Foi contratada como secretária em uma empresa de fotografia, onde trabalhou com Léon Gaumont, que se tornaria dono da empresa e, mais tarde, iniciaria a sua própria, a Gaumont, uma potência da indústria cinematográfica francesa até os dias de hoje.

    Foto: Domínio Público
    Retrato de Alice Guy-Blaché em 1912
     

    Alice Guy acompanhou Gaumont à medida que ele crescia no ramo do cinema, assumindo um cargo importante na empresa, o que lhe deu chance de  realizar suas primeiras produções.

    Nessa época, realizou o ambicioso “La vie du Christ” (A vida de Cristo, em tradução livre), um filme de 35 minutos lançado em 1906 e feito com um grande orçamento para a época e centenas de figurantes. O filme conta a história de Jesus Cristo por meio da encenação das passagens bíblicas.

    Em 1907, casou-se com o também cineasta, produtor e roteirista Herbert Blaché. Logo depois, Guy entregou seu cargo na Gaumont e o casal se mudou para os Estados Unidos.

    Em parceria com George A. Magie, os dois fundaram em 1910 seu próprio estúdio, chamado Solax, nas proximidades de Nova York, antes do estabelecimento de Hollywood, na outra costa do país.

    No Solax, Guy-Blaché não só dirigiu como participou de todos os aspectos da produção dos filmes.

    Depois de duas décadas de carreira, trabalhando nos dois principais polos cinematográficos do início do século 20, a França e os Estados Unidos, e de mais de 1.000 filmes que assina como diretora, roteirista ou produtora, a cineasta desapareceu da história do cinema.

    Inovações técnicas de uma visionária

    Entre os filmes de Alice Guy, há comédias, faroeste e dramas que lidam com temas como imigração, abuso infantil, planejamento familiar e o feminismo.

    É creditada a ela, além disso, a primeira narrativa cinematográfica conhecida a ter sido estrelada por um elenco inteiramente negro, “A Fool and His Money” (“Um Tolo e Seu Dinheiro”, em tradução livre), de 1912, em uma época em que câmeras sequer eram fabricadas para captar a imagem de uma pessoa que não tivesse a pele branca.

    Tecnicamente, ela também foi uma das primeiras a empregar em seus filmes o close, um plano fechado no rosto de uma pessoa ou em um objeto, a adotar a colorização manual, quadro por quadro, do filme preto e branco, amplamente usada também nos filmes de Georges Méliès e fazer uso da sincronização do som com a imagem, bem antes do cinema falado, que só surgiria em meados da década de 1920.

    A investigação de ‘Be Natural’

    O documentário de Pamela B. Green pergunta a um sem número de pessoas do meio cinematográfico sobre quem foi Alice Guy-Blaché. As múltiplas vezes em que respondem nunca ter ouvido falar dela evidenciam o apagamento sofrido pela pioneira.

    Até então desconhecido, um arquivo pessoal repleto de documentos e fotos da cineasta foi adquirido no fim da década de 1990 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, ao qual pertence até o presente.

    Muitos outros artefatos que pertenceram a Alice Guy, porém, não estão em nenhum museu, e permanecem sob a posse de descendentes.

    Em entrevista ao documentário, o historiador de cinema Anthony Slide afirma ter descoberto, em um levantamento sobre o início do cinema americano, muitos filmes produzidos no início do século 20 por mulheres, entre elas Alice Guy.

    Segundo Slide, uma razão para não serem conhecidas hoje e para muitos de seus filmes não terem sido preservados é a falta de menção por críticos da época, que consideravam seu trabalho banal ou desimportante.

    Livros e trabalhos de pesquisa têm se debruçado sobre a trajetória da cineasta, mas a falta de conhecimento e de difusão de sua filmografia completa ainda impedem que ela se torne mais conhecida. 

    Ao longo das últimas décadas, retrospectivas da cineasta foram realizadas e alguns de seus filmes podem ser encontrados no YouTube.

    No site Hollywood Reporter, a crítica Leslie Felperin avaliou que “Be Natural” representa “uma contribuição oportuna para o diálogo internacional em curso sobre os desafios enfrentados por cineastas mulheres, ao mesmo tempo em que eleva a reputação de alguém que, de fato, deveria ser mais conhecida como um modelo a ser seguido. Como ferramenta de ensino e de conscientização, [o filme] será um recurso indispensável”.

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