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Como Bolsonaro se aproxima de Dilma ao barrar alta do diesel

Governo federal impediu aumento de preço pela estatal, contrariando política liberal e promessa de autonomia

     

    A Petrobras anunciou na tarde de quinta-feira (11) que faria um novo aumento do preço do diesel nas refinarias. Na noite do mesmo dia, a estatal voltou atrás e declarou que adiaria esse reajuste. A empresa disse ter reavaliado os dados e que havia “margem para espaçar mais alguns dias” o aumento.

    Esse recuo repentino foi logo percebido por investidores, empresários e políticos como uma intervenção do governo Jair Bolsonaro, embora a empresa tivesse falado em critérios técnicos e tivesse negado interferência.

    Na sexta-feira (12), o presidente confirmou a decisão política e chamou para si a responsabilidade por barrar o aumento. Bolsonaro afirmou que a suspensão é temporária, para que os técnicos da empresa lhe apresentem números que justifiquem a subida.

    “Eu liguei para o presidente [da Petrobras] sim. Eu me surpreendi com o reajuste. (...) Se me convencerem, tudo bem, se não me convencerem, tudo bem. Não é resposta adequada para vocês, não sou economista. Já falei que não entendia de economia. Quem entendia de economia afundou o Brasil”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, nesta sexta (12)

    A ação do governo gera grande controvérsia porque, na campanha e na Presidência, Bolsonaro defendeu uma política econômica de caráter liberal, contrária a intervenções do Estado. Isso inclui autonomia à Petrobras, a maior estatal brasileira.

    Ao mesmo tempo, Bolsonaro tinha entre seus apoiadores o movimento dos caminhoneiros, que em maio de 2018, ainda no governo Michel Temer, parou o país justamente pelos seguidos aumentos do diesel decorrentes da política de preços na Petrobras.

    Do plano original à intervenção

    O plano original da Petrobras era subir o preço do diesel nas refinarias já na sexta (12) em 5,74%, seguindo a rotina de reajustes periódicos dos últimos meses. Como a estatal tem praticamente um monopólio das refinarias, o preço que ela estabelece acaba ditando o valor cobrado nos postos de combustível. O aumento nesse caso seria apenas sobre o diesel, não envolvia a gasolina. Não há previsão de quando haverá um novo reajuste do diesel.

    Com o represamento de Bolsonaro, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis estimou prejuízos de R$ 13 milhões por dia à Petrobras.

    As ações da Petrobras tiveram a maior queda da Bolsa de Valores de São Paulo na sexta (12), o que representou uma perda de aproximadamente R$ 32 bilhões no valor de mercado da empresa. Sinal de que o anúncio desagradou os investidores.

    Qual a semelhança com Dilma

    A intervenção no preço do combustível determinada por Bolsonaro se assemelha à política da Petrobras adotada durante o governo Dilma Rousseff (2011-2016).

    A petista considerava a estatal estratégica para a política econômica como um todo. Dilma usou o poder do governo, acionista majoritário da Petrobras, para ditar o rumo dos preços de combustíveis, represando aumentos. Era um plano para incentivar a produção e conter a inflação.

    A medida seguiu uma visão intervencionista da economia e recebeu críticas de economistas e investidores. Empresas e consumidores compraram por anos combustível mais barato, mas isso causou grandes prejuízos financeiros à estatal e, quando o preço aumentou, a inflação subiu junto. Já desgastada pela Lava Jato e esquemas de corrupção, a Petrobras entrou em crise.

    A mudança de Temer

    Dilma sofreu impeachment em 2016 e seu sucessor, Michel Temer, mudou a política da estatal, atrelando os preços ao valor do barril de petróleo do mercado internacional, cotado em dólar. Isso significa que o preço nas refinarias passou a ter reajustes frequentes, às vezes até diários.

    A medida seguiu uma visão liberal da economia e foi elogiada por investidores, que a viram como uma blindagem a interferências políticas e um modo de a empresa estar em sintonia com o mercado global, priorizando ganhos financeiros e boa gestão. A estatal recuperou valor de mercado e o preço subiu, seguindo cotações internacionais.

    Com a alta, a greve dos caminhoneiros foi um desafio para a política liberal do governo Temer, que acabou concedendo subsídios. Presidente da Petrobras na época da greve, Pedro Parente pediu demissão dizendo que a política de preços havia sido colocada em xeque.

    O atual governo e a atual gestão da Petrobras defendem seguir a política de preços do governo Temer. O Planalto afirma que a medida sobre o diesel foi pontual e não há intervencionismo nem semelhança com Dilma.

    O quesito caminhoneiros

    O fator determinante para a decisão de Bolsonaro foi evitar o descontentamento de caminhoneiros. O presidente afirmou nesta sexta (12) que eles “têm que ser tratados com devido carinho e consideração”.

    Em maio de 2018, a categoria realizou uma greve de proporção nacional, com bloqueio de estradas, a ponto de criar problemas de abastecimento de diferentes produtos pelo Brasil. O preço do diesel foi uma das principais pautas dos caminhoneiros.

    Na época, Temer negociou um subsídio federal para o combustível, o que fez o valor cair. O subsídio valia apenas até 31 de dezembro de 2018, último dia do mandato de Temer, e Bolsonaro optou por não renovar.

    Desde a virada do ano, o preço do diesel vem aumentando, seguindo a subida internacional do petróleo. Mesmo Bolsonaro tendo barrado o mais recente aumento, o valor do diesel hoje nas refinarias está cerca de 19% mais alto do que no fim de dezembro de 2018, nos últimos dias do subsídio.

    A intervenção contradiz promessas do presidente da República, do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, e do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

    “Não há qualquer possibilidade de intervenção nos preços dos combustíveis [na Petrobras]”

    Bento Albuquerque

    ministro de Minas e Energia, em 3 de janeiro de 2019, dia em que o novo presidente da Petrobras tomou posse

    Desde março de 2019, o diesel só pode ser reajustado a cada 15 dias, no mínimo, o que impede aumentos muito frequentes.

    A aproximação com caminhoneiros

    Em 2018, Bolsonaro elogiou várias vezes a paralisação dos caminhoneiros e recebeu apoio público de parte dos manifestantes. Dividido entre o compromisso eleitoral com a categoria e a política econômica liberal, Bolsonaro deu sinais ambíguos sobre o que implementaria caso eleito.

    Seu programa de governo na campanha dizia: “os preços praticados pela Petrobras deverão seguir os mercados internacionais, mas as flutuações de curto prazo deverão ser suavizadas”. Essas exceções, segundo ele, se justificariam pela alta carga tributária do país ou para mudanças abruptas.

    “Agradecemos mais uma vez ao governo, e ele mostra que está ao lado do povo”, disse nesta quinta (11) Wallace Landim, conhecido como Chorão e um dos líderes da greve dos caminhoneiros de 2018, ao jornal Folha de S.Paulo, sobre a medida que evitou novo reajuste.

    Em março de 2019, o presidente gravou um vídeo no qual diz: “Olá, amigos caminhoneiros de todo o Brasil. No dia de ontem [26 de março] anunciamos algumas medidas de interesse de vocês, como a periodicidade da recomposição do preço do diesel e também a questão do cartão caminhoneiro”. Isso indica que o presidente está atento a esse grupo e busca manter proximidade. Na verdade, oficialmente essas medidas foram da Petrobras e não do governo, como Bolsonaro afirmou.

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