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Quem é o marechal que comanda a ofensiva rebelde na Líbia

Grupos leais a Haftar prometem marchar sobre a capital Trípoli em novo capítulo de crise aberta em 2011

 

Em outubro de 2011, o então presidente líbio, Muammar Gaddafi, foi encontrado escondido dentro de uma tubulação de rua, na cidade litorânea de Sirte. Ele foi arrancado de lá, baleado no rosto, empalado com uma baioneta e arrastado pela rua por uma turba enfurecida.

A queda e a morte brutal de Gaddafi pôs fim a um regime despótico que durou 42 anos, em meio à série de protestos pela região que ficou conhecida como Primavera Árabe. Junto com Gaddafi, ruiu também a coesão política no país. Desde então, diferentes grupos armados passaram a disputar o controle, guerreando entre si.

A ONU (Organização das Nações Unidas) teve papel fundamental na deposição e morte de Gaddafi em 2011. Foi, afinal, seu Conselho de Segurança quem aprovou a Resolução 1973. Ela autorizava o uso de “todos os meios necessários” para proteger a população líbia contra as ameaças que vinham sendo feitas por Gaddafi.

O Conselho tem cinco membros permanentes com poder de veto. São eles EUA, França, Reino Unido, China e Rússia. Com a resolução, o órgão abriu caminho para o bombardeio do comboio em que Gaddafi viajava, obrigado-o a se esconder nas tubulações de Sirte, de onde seria arrancado e morto no final.

 

 

Desde então, a mesma ONU tenta sem sucesso fortalecer um novo governo que seja capaz de reunificar a Líbia sob novas bases e prover os mínimos serviços públicos à população de 6,3 milhões de pessoas.

A melhor aposta das Nações Unidas até então recaiu, a partir de 2016, sobre Fayez Al-Sarraj. Baseado na capital, Trípoli, Sarraj vinha tentando manter de pé seu Governo de Unidade Nacional, com apoio principalmente das potências europeias.

Mas, no dia 4 de abril de 2019, o principal grupo rebelde do país, o ENL (Exército Nacional Líbio) começou a marchar a partir de seu reduto em Tobruk, no noroeste da Líbia, em direção a Trípoli. O líder do ELN, marechal Khalifa Haftar, prometeu derrubar o governo Sarraj, contrariando as Nações Unidas, e reunificando o país sob seu poder.

2.800

é o número de civis deslocados à força em cinco dias de combates

Em cinco dias, quase 40 pessoas foram mortas e mais de 100 ficaram feridas nos combates entre as forças de Sarraj e de Haftar. Os rebeldes atacaram e levaram ao fechamento do aeroporto de Mitiga, o único em funcionamento na capital.

Os confrontos abriram um novo capítulo na crise que se arrasta há oito anos na Líbia e trouxeram o marechal Haftar para o primeiro plano dessa crise, à medida em que ele demonstra vontade e capacidade militar de disputar o poder, a despeito da preferência das potências europeias pelo governo de Sarraj.

A volta de um ex-aliado de Gaddafi

O marechal Haftar foi um dos apoiadores de Gaddafi. Ele lutou nos anos 1960 contra o domínio britânico e firmou-se desde então como um militar expressivo do campo nacionalista.

Nos anos 1980, ao liderar tropas líbias no conflito com o Chade, Haftar acabou capturado por inimigos. Libertado, acabou desertando e unindo-se à FNSL (Frente Nacional de Salvação da Líbia), que, com o apoio do então presidente dos EUA, Ronald Reagan, passou a tramar pela deposição de Gaddafi.

A boa relação com Reagan – por quem foi apelidado de “o cão raivoso do Oriente Médio”– marcou o período de exílio de Haftar no estado americano da Virgínia, de onde só retornou para a Líbia em 2011, para participar da ofensiva que terminaria com a deposição e morte de Gaddafi.

Haftar esperava assumir o poder, mas teve seus planos frustrados no arranjo de forças que se seguiu. Assim, voltou aos EUA, de onde costurou o apoio do Egito e dos Emirados Árabes para tentar emplacar um governo seu, a partir de 2014.

Na ofensiva iniciada no dia 4 de abril, Haftar recebeu mais um apoio de peso. A Rússia bloqueou a adoção de uma resolução contra o marechal rebelde no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Haftar e Sarraj se encontraram diversas vezes nos últimos anos e chegaram até mesmo a assinar um memorando de entendimento, no qual falavam em disputar eleições. Um novo encontro poderia ocorrer em 14 de abril, numa reunião convocada pelas Nações Unidas na cidade líbia de Ghadamès, mas Haftar parece ter optado por tentar acelerar suas pretensões políticas com o uso da força, ao prometer “marchar sobre Trípoli”.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto trazia um mapa do Líbano, não da Líbia. A informação foi corrigida às 15h de 10 de abril de 2019.

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