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Como o brasileiro vê as chances de ascensão social e a desigualdade

Pesquisa mostra que maior parte da população reconhece problema da distância entre ricos e pobres, acha que vai melhorar de vida em breve e tem fé religiosa como prioridade

 

O brasileiro acredita que diminuir a desigualdade é necessário para que o país progrida. Essa resposta foi dada por 86 de cada 100 entrevistados em uma pesquisa feita pela Oxfam, organização não-governamental que reúne entidades que abordam a questão da desigualdade no mundo, em parceria com o instituto Datafolha.

Com a crise econômica que atingiu o país entre 2014 e 2016, e que ainda tem consequências na sociedade, a desigualdade parou de cair no Brasil. A estagnação entre 2016 e 2017 medida pela própria Oxfam em relatório publicado no fim de 2018 interrompe uma sequência de resultados positivos.

Entre 2002 e 2014, país vinha sempre melhorando no quesito. Não é possível comparar os dados até 2014 com os dois últimos anos por conta de mudanças na metodologia da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A aferição da desigualdade de renda, nesse caso, é feita pelo índice de Gini. O índice é um coeficiente matemático criado para medir concentração, não só de renda, e varia de 0 a 1. O número 0 corresponde à igualdade total e o número 1 corresponde à desigualdade completa, com apenas uma pessoa recebendo toda a renda e as demais não recebendo nada.

 

O problema é percebido pela população, que vê maior dificuldade para negros e mulheres, por exemplo, de conseguirem oportunidades. Para melhorar de vida, quase um terço dos entrevistados apontam a "fé religiosa" como prioridade. A alternativa foi mais escolhida do que "estudar" ou "ter acesso a saúde".

O que o brasileiro não sabe com precisão é qual o seu lugar na pirâmide social, qual a renda dos pobres e quanto dinheiro tem alguém que está entre os 10% mais ricos.

A pesquisa foi feita entre os dias 12 e 18 de fevereiro e ouviu 2.086 pessoas em 130 cidades de todos os estados do país.

Onde você está, quem são os pobres e ricos

A grande maioria dos brasileiros acha que é pobre. Quando a pesquisa perguntou se o entrevistado achava que estava na metade mais rica ou mais pobre da população, 85% respondeu que estava na parte de baixo.

É essa noção que faz com que o brasileiro não tenha total ideia do que é ser pobre no país. Para o Banco Mundial, é pobre no Brasil quem tem renda familiar per capita menor que R$ 400 por mês. Mais da metade dos entrevistados que acha que pobre é quem ganha entre R$ 701 e R$ 1.000 mensais.

Menos do que a maioria pensa

 

A percepção sobre os 10% mais ricos também é distante do real. Para estar no grupo, um brasileiro precisava ter renda individual de cerca de R$ 4.290 em 2017. Mas os entrevistados enxergam a riqueza bem acima do real. Para 49% dos entrevistados, é preciso mais de R$ 20 mil para estar entre os 10% mais ricos.

O passado e as perspectivas

O brasileiro também é otimista com relação ao futuro. Dois terços dos entrevistados se consideram pobres ou integrantes da classe média baixa, mas somente 22% se vê aí daqui a cinco anos. Sete em cada dez entrevistados acha que dentro de cinco anos será classe média ou média alta.

Passado, presente e futuro

 

A esperança de progresso é individual, não vale para a sociedade. Isso porque ao mesmo tempo que têm expectativa de ascender, os entrevistados não acreditam que a desigualdade no país vai melhorar. Apenas 40% concorda, total ou parcialmente, com a afirmação de que “a desigualdade no Brasil vai diminuir”. Os que discordam totalmente são 44%, outros 13% discordam em parte.

O papel do mérito

A população brasileira se divide quando questionada sobre o papel do mérito na ascensão social de uma pessoa. Entre os entrevistados, 41% acredita que “uma pessoa de família pobre que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito”. E 49% acredita que “uma pessoa de família pobre que estuda muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também estuda muito”.

Meritocracia

 

 

Os brasileiros também admitem as maiores dificuldades encontradas por negros e mulheres, em alguns casos. Dois terços concordam que mulheres ganham menos por serem mulheres, número que cai para 52% no caso dos negros. Os brasileiros acreditam, no entanto, que o racismo atrapalha os negros na hora de serem contratados, em abordagens policiais e na Justiça – todas as alternativas tiveram mais de 70% de concordância.

Perguntados sobre quais devem ser as prioridades para quem quer mudar de vida, 28% dos entrevistados citou a "fé religiosa" como a prioridade máxima. O percentual superou "estudar" e "ter acesso a saúde".

Os caminhos da ascensão

 

 

Políticas públicas

O papel do Estado na construção de uma sociedade mais igualitária é visto como fundamental. Mais de 80% dos brasileiros acham que é função do Estado reduzir as desigualdades. Esse número é parecido entre os que ganham menos de um salário mínimo e os que ganham mais que cinco salários mínimos – 83% e 85%, respectivamente.

Mais de três quartos dos entrevistados apoiam massivamente o aumento de tributação sobre os mais ricos, mas não o aumento de tributação geral. Vale lembrar que a pesquisa também mostra que os brasileiros superestimam a renda necessária para ser considerado rico, além do fato de menos de 1% dos entrevistados se considerarem ricos.

Aumentou, na comparação com a edição de 2017 da pesquisa, o apoio dos brasileiros à tributação para financiar políticas públicas. Esse número, no entanto, não é majoritário e há diferenças significativas de acordo com a renda dos entrevistados.

Minoria

 

A pesquisa também pediu aos entrevistados que escolhessem as políticas prioritárias do Estado para a redução de desigualdades. A mais citada foi o combate à corrupção. A opção aparece à frente de políticas de saúde, educação e programas de assistência social, como o Bolsa Família.

Políticas de redução de desigualdade

 
 

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