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Quem é Abraham Weintraub, o novo ministro da Educação

Bolsonaro troca titular do MEC, mas mantém influência de Olavo de Carvalho. Novo ministro é economista, professor da Unifesp, com atuação no mercado financeiro

 

O presidente Jair Bolsonaro anunciou nesta segunda-feira (8) o nome do economista e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Abraham Weintraub para comandar o Ministério da Educação. Ele substituiu Ricardo Vélez Rodríguez, cuja breve passagem pelo MEC foi marcada por disputas internas, vaivém de decisões e paralisia. 

Na sexta-feira (5), em café da manhã com jornalistas, Bolsonaro já havia indicado que Vélez sairia. “É uma pessoa bacana, honesta, mas está faltando gestão, que é uma coisa importantíssima. Vamos tirar a aliança da mão esquerda e pôr na mão direita ou na gaveta”, disse. Com a demissão, o governo perde seu segundo ministro às vésperas de completar 100 dias. Antes dele, Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral da Presidência, havia caído em fevereiro.

Abraham e seu irmão, Arthur, que chegou a colaborar para a campanha de Marina Silva à Presidência em 2014, foram apresentados ao presidente pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, ainda em 2017, após um seminário internacional sobre Previdência realizado no Congresso. Naquele ano, os irmãos Weintraub passaram a apoiar a candidatura do então deputado federal e capitão reformado.

Eles atuaram na equipe de transição do governo Bolsonaro. Abraham ocupava o cargo de secretário-executivo da Casa Civil e é seguidor do escritor Olavo de Carvalho, assim como Vélez Rodríguez. O novo ministro também defende, assim como o antecessor no cargo, o combate ao que chama de “marxismo cultural”. Arthur Weintraub, por sua vez, é assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República.

A escolha de Abraham Weintraub é vista como uma maneira de tentar aplacar a briga interna no MEC entre os militares e o grupo de ex-alunos de Olavo de Carvalho ― o escritor dá cursos online de filosofia. Segundo a coluna Painel, do jornal Folha de S.Paulo, ele chancelou a indicação do novo ministro. Embora admirador de Olavo de Carvalho, Abraham não é diretamente ligado aos chamados “olavetes”, que vinham disputando espaço no ministério.

Em entrevista na segunda-feira (8) após ser nomeado, Weintraub disse que Carvalho “tem ideias muito boas”, mas que não segue tudo o que ele fala. “Sou um técnico. Minha missão é cumprir o que foi escrito no plano de governo de forma serena, tranquila e eficiente, de forma a gerar bem-estar ao cidadão”, afirmou.

Para representantes dos secretários estaduais e municipais de Educação ouvidos pelo Nexo, o novo ministro terá como principais desafios garantir o financiamento da educação pública no país, já que a existência do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) expira no final de 2020, e auxiliar na implantação da Base Nacional Comum Curricular, que definiu as habilidades e competências que serão exigidas dos alunos do ensino básico nos próximos anos.

Quem é Weintraub

“Comunico a todos a indicação do professor Abraham Weintraub ao cargo de ministro da Educação. Abraham é doutor, professor universitário e possui ampla experiência em gestão e o conhecimento necessário para a pasta. Aproveito para agradecer ao prof. Vélez pelos serviços prestados”, afirmou Bolsonaro, em sua conta no Twitter, no fim da manhã desta segunda-feira (8).

Economista formado pela USP em 1994, Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub não é doutor, como anunciou Bolsonaro. O presidente reconheceu que a informação estava incorreta e a corrigiu numa nova publicação feita cerca de duas horas depois, no Twitter.

Em seu currículo na plataforma Lattes, atualizado pela última vez pelo próprio em março de 2017, consta apenas o título de mestrado em administração na área de finanças pela Fundação Getulio Vargas.

Professor da Unifesp desde 2014, Weintraub se descreve, em seu currículo, como “executivo do mercado financeiro, com mais de 20 anos de experiência”.

Ele trabalhou 18 anos no Banco Votorantim, onde começou como office-boy. Chegou aos cargos de diretor estatutário, CEO da Votorantim Corretora no Brasil e da Votorantim Securities nos Estados Unidos e na Inglaterra e economista chefe da empresa por mais de dez anos.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, de agosto de 2018, o economista tornou-se sócio na corretora Quest Investimentos após ter sido demitido do banco.

Também foi membro do comitê de trading da BM&F Bovespa, conselheiro da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias) e representou o Banco Votorantim em encontros do FMI (Fundo Monetário Internacional), de acordo com seu currículo. Ao deixar a iniciativa privada, passou a dar aulas de ciências atuariais na Unifesp.

Em 2018, dizia-se perseguido e alvo de ameaças dentro da universidade depois que seu vínculo com Bolsonaro veio à público. O então deputado federal publicou em suas redes sociais um texto de autoria de Abraham e seu irmão no qual defendem a independência do Banco Central.

Representantes dos centros acadêmicos dos cursos de relações internacionais e economia da Unifesp criticaram a dupla. Eles responderam chamando os alunos de “ridículos” e dizendo que aguardavam “ansiosamente pela Ditadura do Proletariado”. Por causa da resposta, houve reclamações contra os irmãos na ouvidoria da universidade. O caso chegou ao Comitê de Ética Pública da instituição ― a conclusão dessa apuração do comitê não é conhecida.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Weintraub também foi investigado na Unifesp sob suspeita de usar o logotipo da instituição em consultorias. A sindicância, porém, foi arquivada em 2018, por falta de provas.

O pensamento antiesquerda do novo ministro

Abraham Weintraub tem um discurso público parecido com os discursos de Bolsonaro e Olavo de Carvalho quando o assunto é a esquerda. Além de se dizer contra o chamado “marxismo cultural”, cuja existência é contestada por especialistas em ciências sociais e política, o novo ministro vê o Foro de São Paulo como um perigo, mesmo se tratando de uma organização de influência limitada que reúne partidos de esquerda. Abaixo, o Nexo lista algumas frases de Abraham Weintraub.

“Esquerda ou direita, acho que é uma rotulação pobre. Somos humanistas, democratas, liberais, lemos a Bíblia (Velho e Novo Testamento) e a temos como referência”
“Durante o século 20, mais da metade das pessoas do mundo viveram sob alguma forma de terror. Hoje, a América do Sul, e o Brasil em particular, faz parte do espaço vital de uma estratégia clara para a tomada de poder por grupos totalitários socialistas e comunistas”
“Eu não acreditava nisso. Achava que era teoria da conspiração. Todavia, está tudo documentado! O Foro de São Paulo é uma realidade! As Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] eram convidadas de honra. O crack foi introduzido no Brasil de caso pensado. Vejam os arquivos, está na internet!”

Abraham Weintraub

em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em agosto de 2018

“Dá para ganhar deles [esquerda]. É Olavo de Carvalho adaptado. E como ganhamos deles? Não sendo chatos. Temos que ganhar com humor e inteligência”

Abraham Weintraub

durante participação na Cúpula Conservadora, em Foz do Iguaçu, no fim de 2018

O MEC no governo Bolsonaro

Em quase 100 dias à frente do ministério, Ricardo Vélez Rodríguez colecionou crises seguidas. A seguir, o Nexo lista os principais episódios do ministro à frente da pasta.

Sucessão de problemas

A pressão dos evangélicos

Em novembro de 2018, o ex-secretário de Educação de Pernambuco e atual diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, chegou a ser convidado para assumir a pasta. A escolha de um nome técnico e respeitado na área educacional foi elogiada no meio. Mas Ramos sofreu oposição e foi barrado pela bancada evangélica, que apoiou a eleição de Jair Bolsonaro. Em 22 de novembro de 2018, Ricardo Vélez Rodríguez, até então desconhecido no meio acadêmico e sem experiência em gestão educacional, foi anunciado. Indicado pelo escritor Olavo de Carvalho, ele defendia bandeiras do movimento Escola sem Partido, que prega o fim da doutrinação marxista nas salas de aula.

Edital dos livros didáticos

Nos primeiros dias de governo, o MEC alterou um edital que definia as regras para os livros didáticos. O documento deixava de exigir que as obras tivessem referências bibliográficas, entre outros pontos. Após repercussão negativa, o ministro exonerou o chefe de gabinete do FNDE (Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação) e mais nove funcionários comissionados. O edital foi anulado, e o MEC chegou a culpar o governo anterior pelas mudanças, mas o ex-ministro da Educação Rossieli Soares negou qualquer envolvimento no episódio.

Declarações controversas

Em entrevista à revista Veja, em fevereiro, o ministro, que nasceu na Colômbia, comparou os brasileiros que viajam a canibais. “Rouba coisas dos hotéis, rouba assentos salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo.” Vélez foi notificado pela ministra do Supremo Rosa Weber a prestar esclarecimentos sobre as declarações. No mesmo mês, pediu desculpas e disse que suas frases tinham sido tiradas de contexto. Na mesma entrevista, atribuiu ao cantor Cazuza, morto em 1990, uma frase que não havia sido dita por ele. “Liberdade não é o que pregava Cazuza, que dizia que liberdade é passar a mão no guarda. Não! Isso é desrespeito à autoridade, vai para o xilindró”, afirmou. Lucinha Araújo, mãe do cantor, disse considerar “inadmissível” que um ministro citasse uma pessoa pública “sem compromisso com a verdade”. Vélez ligou para ela para pedir desculpas. 

Carta às escolas

No final de fevereiro de 2019, o MEC enviou às escolas do Brasil um e-mail solicitando aos diretores que lessem uma carta do ministro aos alunos, professores e funcionários. Os estudantes deveriam permanecer perfilados diante da bandeira do Brasil para a execução do hino nacional no momento da leitura do documento, que trazia, ao final, o slogan de campanha de Bolsonaro. A mensagem também solicitava que a cena fosse gravada em celulares e enviada à pasta. Criticado até por aliados do governo, Vélez reconheceu o erro. Ele voltou atrás e reformulou a carta. O Ministério Público Federal decidiu apurar se ele cometeu improbidade administrativa.

A dança das cadeiras

O episódio da carta abriu uma guerra dentro do MEC entre três grupos que compõem a pasta: os ex-alunos do escritor Olavo de Carvalho, os militares e os técnicos saídos do Centro Paula Souza, de São Paulo. Houve várias demissões após pressão de Olavo de Carvalho e intervenção de Bolsonaro nas disputas internas. Até 15 de março de 2019, Vélez havia feito 13 mudanças no alto escalão do MEC em apenas oito dias e havia sido chamado três vezes ao Planalto numa mesma semana, o que levantou a hipótese de que seria demitido.

A avaliação da alfabetização

A prova estava marcada para outubro de 2019, por decisão do governo anterior. Devido ao baixo desempenho apontado pela Avaliação Nacional de Alfabetização, de 2016, a gestão de Michel Temer anunciou, em 2018, que iria extinguir a prova e calcular o desempenho da alfabetização mais cedo (em alunos de sete anos, do segundo ano, e não mais do terceiro ano) por meio do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), que é realizado a cada dois anos. A gestão de Vélez anunciou que a avaliação seria suspensa por dois anos. Devido à má repercussão da medida, o governo voltou atrás, em mais um recuo.

Revisão de 1964

Na última polêmica antes da demissão, Vélez afirmou ao jornal Valor Econômico que a chegada dos militares ao poder em 31 de março de 1964 não foi golpe e que a revisão desse momento histórico seria incluída, progressivamente, nos livros didáticos. “O papel do MEC é garantir a regular distribuição do livro didático e preparar o livro didático de forma tal que as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi a sua história.” A declaração foi vista como uma tentativa de agradar Bolsonaro para permanecer no cargo, mas desagradou os militares, que pediram sua demissão.

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