O papel de mulheres solteiras na gentrificação de Hong Kong

Segundo estudo, número de mulheres que exercem funções bem remuneradas e não se casam ou se casam mais tarde impactou mercado imobiliário da ilha

     

    Ao lado de Singapura e Paris, Hong Kong é a cidade mais cara do mundo para se viver, segundo um ranking divulgado em março de 2019.

    Como consequência, estima-se que 100 mil de seus habitantes vivam atualmente em condições inadequadas de moradia, segundo a ONG Society for Community Organization.

    Um dos processos responsáveis pelo deslocamento forçado da população de uma região, e por tornar a cidade cada vez mais cara, é a gentrificação.

    Um estudo publicado em junho de 2018 analisa as transformações ocorridas em Hong Kong ao longo de duas décadas, dos anos 1980 aos 2000, com foco em como a mudança de status das mulheres na sociedade e sua atitude em relação ao casamento impactou o mercado imobiliário da cidade.

    Sua descoberta foi que as mulheres solteiras tiveram um papel “surpreendente e pouco estudado” na gentrificação de Hong Kong nas últimas décadas.

    O termo vem do inglês “gentrification”, cunhado nos anos 1960 pela socióloga Ruth Glass para descrever mudanças no perfil de bairros da Zona Norte de Londres. Se refere a um processo no qual investimentos que promovem a renovação de um bairro ou região atraem frequentadores e moradores de classes mais altas e provocam a saída de seus habitantes originais, de uma faixa de renda mais baixa. 

    O estudo ainda ressalta o papel delas não só como agentes, mas como principais vítimas da gentrificação, “devido à feminização da pobreza, fenômeno global e onipresente”.

    O conceito de feminização da pobreza corresponde ao aumento absoluto ou relativo da pobreza entre mulheres ou entre famílias chefiadas por mulheres.

    Mudanças demográficas

    As mulheres passaram a se casar mais tarde em várias partes do mundo a partir da segunda metade do século 20, tendência que reflete mudanças culturais e teve desdobramentos econômicos. 

    Nesse período, principalmente no leste e sudeste da Ásia, o número de mulheres e homens solteiros cresceu significativamente: de 1950 a 1990, o número de jovens solteiras na Ásia, excetuando a China, aumentou quase quatro vezes.

    Hong Kong se tornou um dos epicentros dessa mudança na região. Em comparação com a China, a forma como as solteiras são socialmente vistas na ilha é mais positiva.

    No continente, mulheres não casadas com mais de 27 anos são chamadas de “sheng nu” (sobras ou restos, em tradução livre). Em Hong Kong, são conhecidas como “xing nu”, algo como “mulheres em florescimento”.

    O número crescente de mulheres solteiras, que com o tempo também passaram a exercer funções mais bem remuneradas, impulsionou a demanda por moradia em determinadas regiões da cidade.

    As transformações identificadas pela pesquisa, em 3 pontos

    De inquilinos para proprietários

    Nos bairros de Hong Kong onde o estudo identificou gentrificação, uma das transformações ocorridas foi o aumento do número de habitações ocupadas pelos proprietários, de casas próprias.

    A quantidade de unidades com esse padrão de ocupação cresceu de 45,5% em 1986 para 64,2% em 2006, reduzindo, em contrapartida, a proporção de pessoas desses bairros que moravam de aluguel.

    O dado é, provavelmente, consequência da expulsão da população de renda mais baixa devido à valorização do bairro e ao consequente aumento dos aluguéis.

    Ao Nexo, a pesquisadora Minting Ye, uma das autoras do estudo, esclareceu ser improvável se tratarem das mesmas pessoas, inquilinos que acabaram comprando o imóvel. Foram analisadas 55 variáveis, incluindo escolaridade e ocupação, e o perfil dos moradores, de acordo com essas variáveis, se alterou drasticamente.

    Perfil ocupacional dos residentes

    A pesquisa também identificou uma mudança nas ocupações exercidas pelos moradores dos bairros gentrificados.

    Ao longo das duas décadas que o estudo compreende, o número de moradores empregados em áreas tradicionais da classe trabalhadora, como o setor manufatureiro, diminuiu de 177.917, em 1986, para 73.870 em 2006.

    Ao mesmo tempo, o número de residentes empregados nas áreas de finanças, seguros, no setor imobiliário e serviços triplicou, de 49.276 em 1986 para 150.237 em 2006.

    Apesar de ter havido uma reestruturação econômica em Hong Kong, que gerou mudanças no perfil ocupacional da população como um todo, Ye explicou ao Nexo que, nos bairros gentrificados, as mudanças foram mais dramáticas, acima da média em relação ao restante da cidade.

    Crescimento do número de mulheres solteiras ou divorciadas

    A principal descoberta observada é que os bairros gentrificados de Hong Kong foram dominados por mulheres solteiras – que nunca se casaram ou divorciadas.

    Proporcionalmente, a presença delas cresceu muito mais nesses bairros do que a de homens solteiros.

    Ao longo de duas décadas, o número de mulheres solteiras aumentou em 53% nos bairros gentrificados, enquanto a dos homens solteiros cresceu apenas 15%. Da mesma maneira, a presença de mulheres divorciadas e separadas nesses bairros cresceu duas vezes mais do que a dos homens no mesmo estado civil.

    A quantidade de domicílios chefiados por mulheres solteiras cresceu de 25,8% para 47% entre 1986 e 2006 nos bairros gentrificados.

    Novamente, de acordo com a pesquisadora Minting Ye, esta foi uma mudança que ocorreu na cidade como um todo no período, mas que foi ainda mais expressiva nos bairros gentrificados.

    Como o estudo foi feito

    Conduzido por Minting Ye, acadêmica visitante da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e Igor Vojnovic, professor da mesma universidade, o estudo se baseou em dados padronizados dos censos de 1986 a 2006.

    A análise levou quatro anos e identificou que cerca de 34% do território de Hong Kong sofreu gentrificação no período.

    Embora o estudo tenha focado na metrópole asiática, seus autores afirmam haver razões para crer que o mesmo fenômeno está ocorrendo em outras partes do mundo, como Nova York, Londres, Singapura e Vancouver, uma vez que o número crescente de mulheres solteiras em empregos de alta remuneração vem ocorrendo há anos também nessas cidades.

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