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As viagens ao exterior de presidentes em 100 dias de governo

Bolsonaro bate recorde de dias fora do país desde a redemocratização. Dois professores falam ao ‘Nexo’ sobre a importância de visitas presidenciais

Jair Bolsonaro retorna nesta quarta-feira (3) ao Brasil, após uma visita oficial a Israel. O presidente brasileiro prometeu abrir um escritório de negócios em Jerusalém, prestou homenagem a vítimas do holocausto e visitou, na companhia do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, o Muro das Lamentações.

Desde que assumiu o cargo, em 1º de janeiro de 2019, Bolsonaro fez viagens oficiais a quatro países: Suíça (para o Fórum Econômico Mundial de Davos), Estados Unidos, Chile e Israel.

Entre os cinco presidentes eleitos diretamente desde a redemocratização, Bolsonaro é quem passou mais tempo no exterior, contando os primeiros cem dias de governo, segundo levantamento do Nexo.

O atual presidente também supera os vices que chegaram ao poder por meio de morte ou impeachment do titular — caso de José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer. Está incluso o período interino, quando os vices já começaram a governar de fato.

  • Sarney: nenhum dia
  • Collor: 7 dias (Paraguai e Itália)
  • Itamar: 8 dias (Senegal, Argentina e Uruguai)
  • FHC: 5 dias (Uruguai e Chile)
  • Lula: 8 dias (Equador, Suíça, Alemanha e França)
  • Dilma: 6 dias (Argentina, Portugal e China)
  • Temer: nenhum dia
  • Bolsonaro: 15 dias (Suíça, EUA, Chile e Israel)

Para o governo Bolsonaro, existe no horizonte outra visita oficial a um país de peso, a China. Sem data definida, há uma promessa de ele ir no segundo semestre de 2019 ao país asiático, atualmente a segunda maior potência econômica do mundo e maior parceiro comercial do Brasil.

A viagem à Suíça se destinou a um encontro multilateral, com autoridades, economistas e investidores. As demais foram visitas oficiais de Estado, com encontro bilateral. Desde a campanha eleitoral, Bolsonaro elogia EUA e Israel, a quem chama de parceiros e referências mundiais. A aproximação dele é também pessoal com Donald Trump e Binyamin Netanyahu.

No mundo atual, visitas oficiais entre presidentes, primeiros-ministros e monarcas são praxe na política internacional. Delas surgem muitos acordos dos quais os países se beneficiam econômica, militar e estrategicamente, criando uma rede diversificada de parcerias.

Histórico dos presidentes da República

Os presidentes brasileiros passaram a fazer mais viagens a partir do governo do general João Figueiredo (1979-1985), último presidente da ditadura militar, como mostra um gráfico do Nexo publicado em 2018.

Argentina e EUA são, nesta ordem, os principais destinos dos presidentes brasileiros historicamente.

A partir das décadas de 1980 e 1990, sobretudo com o fim da Guerra Fria, a economia internacional passou a ser mais globalizada e interconectada — a Organização Mundial do Comércio, por exemplo, surgiu em 1995. Findada a bipolarização entre americanos (capitalistas) e soviéticos (socialistas), se diversificaram as relações diplomáticas entre os países em geral. Além disso, ficou menos caro e mais fácil fazer longas viagens internacionais, assim como mais prático se comunicar com os aliados que ficaram no país.

Luiz Inácio Lula da Silva passou 16% do seu mandato em viagens oficiais no exterior, recorde entre todos os ex-presidentes. O petista conduziu uma política externa que almejava uma participação maior do Brasil em discussões globais, liderar o chamado “Sul global” (as nações em desenvolvimento) e inaugurou relações diplomáticas com diversos países na África e no Caribe anglófono.

Em segundo lugar está seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, que passou 11% dos oito anos de governo em compromissos oficiais em território estrangeiro.

Duas análises sobre as viagens presidenciais

O Nexo ouviu professores que estudam a política externa a respeito do peso que viagens ao exterior têm para um presidente da República, para o Brasil e especificamente para Bolsonaro:

  • Marco Aurélio Nogueira, professor de ciência política da Unesp
  • Flavia de Campos Mello, professora de relações internacionais da PUC-SP

Qual é a importância de viagens internacionais para um presidente da República, em geral?

Marco Aurélio Nogueira É uma importância enorme. Presidir um país num mundo marcado pela interdependência entre os Estados significa se colocar como parte ativa desse mundo. As viagens presidenciais servem basicamente para apresentar o país ao mundo — e o país aparece muitas vezes sob a forma do governo da vez, seu programa e suas figuras — ao mesmo tempo em que se fazem negociações para buscar o que se chama de interesses nacionais. Sobretudo na área da economia, comércio e tecnologia, mas também na área cultural, questões que dificilmente estão separadas. As viagens têm valor muito estratégico. No caso do Brasil, em que o presidente é tanto chefe de Estado quanto chefe de governo, nunca foi estabelecida com clareza uma separação entre essas duas funções. A Presidência da República ao mesmo tempo cuida do Estado e cuida do governo, e é algo que transparece nas viagens internacionais — o presidente brasileiro participa do protocolo mais formal e simbólico e ao mesmo tempo acompanha as tratativas de caráter governamental, nos diversos setores, muitas vezes acompanhado de ministros. Em países que são duas autoridades distintas, é provável haver uma separação mais nítida — por exemplo, na França, Alemanha ou em monarquias constitucionais.

Flavia de Campos Mello A importância dessas viagens tem a ver com romper com diretrizes de governos anteriores, quando se trata do início de mandato. Visitas oficiais têm simbolismo para demarcar o afastamento de afinidades anteriores. Podemos pensar, por exemplo, em rupturas da política externa brasileira tanto em 1964, a partir do golpe militar que mudou totalmente as circunstâncias do Brasil, como também em 1990, no início do governo Collor, eleito com a promessa de romper com o passado e presidente num contexto internacional particular de grandes mudanças, no imediato pós-Guerra Fria. A primeira visita busca já instalar o tom do relacionamento bilateral dali em diante, com ou sem afinidade ideológica — por exemplo quando Lula foi pela primeira vez aos EUA [em 2003] e ele e George W. Bush [2001-2009] estabeleceram um diálogo, apesar das diferenças entre os dois. Nem sempre, porém, essas visitas iniciais ficam apenas no campo do simbólico. É comum que, mais adiante no mandato, se trate de parcerias e acordos em curso, com medidas práticas, em diversas áreas. No início não há muito tempo para obter algo concreto, até por isso o valor é mais emblemático.

Qual é a importância para Bolsonaro das viagens internacionais que ele fez até agora?

Marco Aurélio Nogueira Na lógica do governo Bolsonaro, essas viagens serviram basicamente para atender o público interno que o apoia. Até aqui ele escolheu ir a esses países por conta muito mais das preocupações ideológicas do que das preocupações estratégicas do país. Ele escolheu ir aos EUA porque é Trump, se fossem [os opositores democratas] Barack Obama ou Hillary Clinton, provavelmente ele não teria escolhido. Optou pelo Chile por conta da discussão de criar um novo órgão sul-americano, o Prosul [com perfil de direita], em substituição à Unasul [com histórico de esquerda], e também por conta da figura histórica de Augusto Pinochet [general que foi ditador do Chile de 1973 a 1990], que Bolsonaro admira e já falou em várias oportunidades. Sobre Israel, a viagem era uma promessa de campanha de Bolsonaro e uma espécie de retribuição à atitude de Netanyahu ter comparecido à posse de Bolsonaro em Brasília. Do meu ponto de vista, essas três viagens tiveram alguma relevância e, pelo meu entendimento, planejadas para seu público interno e seguindo seu discurso político. No caso dos EUA, se aproveitou a visita para também fazer medidas concretas, como o acordo sobre a base militar de Alcântara e um acordo entre o FBI e a Polícia Federal. Israel também é um polo de tecnologia, e pode ter havido negociações pragmáticas ali também. Mas o que fica para o grande público é a dimens��o simbólica. Acredito que foram viagens inócuas do ponto de vista do desempenho governamental de Bolsonaro, auxiliar que ele governe melhor ou agregar algo ao seu programa.

Flavia de Campos Mello O tempo de Bolsonaro no exterior inclui a visita ao encontro de Davos, que acontece sempre em janeiro e coincide com o início de mandato dos presidentes brasileiros. Foi uma oportunidade de se apresentar à comunidade financeira internacional. Em Davos ele teve um baixo perfil, não impressionou ninguém. Já as viagens aos EUA e a Israel são parte de um compromisso da campanha eleitoral, de promessa de aproximação por afinidade ideológica. O Chile foi algo mais peculiar, pois lá se começou a encaminhar um novo arranjo internacional, com o possível órgão multilateral sul-americano Prosul. Em Washington, Bolsonaro recebeu de Trump uma aula de negociação, quando o presidente americano condicionou o apoio para o Brasil entrar na OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, grupo de países desenvolvidos] à renúncia do status especial na OMC [Organização Mundial do Comércio] por ser um país em desenvolvimento. Ou seja, isso mostrou que a primeira grande reivindicação do governo brasileiro com os EUA foi recebida com reservas, um exemplo de que medidas concretas que extrapolam o simbólico encontram um campo mais complicado.

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