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Qual a lógica da taxa de desemprego criticada por Bolsonaro

Presidente reclama de metodologia e insinua que dado engana a população. IBGE informa que segue padrões internacionais

     

    O presidente Jair Bolsonaro criticou, em entrevista exibida na noite de segunda-feira (1), na Rede Record, a metodologia utilizada para calcular a taxa de desemprego no Brasil. Os números oficiais do mercado de trabalho são calculados e divulgados mensalmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) como parte da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

    A crítica de Bolsonaro acontece em um momento em que a Pnad mostra o avanço do desemprego nos dois primeiros resultados que levam em conta os primeiros meses de 2019. Entre o último trimestre de 2018 e o trimestre móvel terminado em fevereiro, a taxa de desocupação avançou 0,8 ponto percentual. Aumentos nos inícios de cada ano são comuns na medição da Pnad.

    Desde o início da crise

     

    O presidente disse que a taxa de desemprego “parece” ter sido feita para “enganar a população” apesar de admitir que a metodologia é a mesma usada em outros países. Ele sugeriu ainda uma regra mais “simples” para a medição de desempregados no Brasil.

    O Nexo contextualiza abaixo as declarações do presidente e explica a metodologia utilizada pelo IBGE para calcular o desemprego e outras variáveis importantes no mercado de trabalho brasileiro.

    Caged: o dado mais ‘simples’

    Quando questionado sobre desemprego, o presidente da República criticou a metodologia utilizada pelo IBGE e aplicada no Brasil desde a implantação da Pnad Contínua, em 2012. No lugar, o presidente ofereceu como mais confiável o dado da Secretaria do Trabalho, provavelmente falando do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

    “Eu tenho dito, fui muito criticado, volto a repetir, não interessa as críticas, tem que falar a verdade. Com todo respeito ao IBGE, essa metodologia, em que pese ser aplicada em outros países, não é a mais correta. Acho que é fácil você ter a metodologia precisa no tocante à taxa de desemprego. É você ver dados bancários e dados junto à secretaria de Trabalho quantos empregos nós já geramos a mais por mês ou perdemos. É muito simples”

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República

    Esse número, no momento, é mais favorável ao governo Bolsonaro, que tomou posse em primeiro de janeiro. Em inícios de ano, o Caged costuma ser mais favorável que a Pnad por conta da metodologia de ambos.

    O Caged mede o saldo de empregos formais no período avaliado, contratos feitos e desfeitos, enquanto a Pnad avalia a situação presente do brasileiro em relação ao mercado de trabalho, se está ocupado ou não.

    Dezembro é um mês, tradicionalmente, de muitas demissões - por isso é ruim para o Caged. Mas o trabalhador demitido em dezembro só vai relatar a desocupação à Pnad nos meses seguintes.

    Por isso, dezembro é historicamente o pior mês para o Caged e o melhor para a Pnad. Os inícios de ano são ruins na Pnad e mais favoráveis no Caged.

    Ambas as pesquisas mostram uma lenta recuperação no mercado de trabalho. Abaixo, o gráfico da esquerda mostra o comportamento da taxa de desemprego da Pnad. O da direita aponta o saldo de vagas formais do Caged, ou seja, o número de contratações menos o de demissões.

     

    Os dois levantamentos são complementares. O Caged é mais preciso, pois considera todos os registros em carteira de trabalho, mas tem também o alcance mais limitado.

    A Pnad é mais ampla porque não considera apenas o emprego formal, conta a informalidade, os bicos, os trabalhadores por conta própria e várias outras situações. Por outro lado, ela é feita por amostragem. A partir de 211 mil domicílios visitados a cada três meses, o IBGE estima o Brasil inteiro.

    O universo do Caged é de 38,6 milhões de pessoas. Na Pnad, somente entre empregados e desempregados, o IBGE leva em conta 105 milhões de brasileiros.

    Por isso, apesar de mais preciso, considera-se que o Caged não é suficiente para se saber a situação da população em relação ao mercado de trabalho.

    As críticas à metodologia da Pnad

    Depois de dizer que prefere o dado da Secretaria de Trabalho, Bolsonaro passou a fazer críticas à Pnad. Foi nesse momento que ele disse que “parece que são índices feitos para enganar a população”.

    “O que acontece? Como é feita hoje em dia a taxa? Leva-se em conta quem está procurando emprego, só quem está procurando emprego. Quem não está procurando emprego, não é tido como desempregado. Quem está recebendo Bolsa Família é tido como não empregado, quem recebe auxílio reclusão também está tido como [não] empregado. Então quando há uma pequena melhora na questão do emprego no Brasil, essas pessoas que não estavam procurando emprego, procuram. E quando procuram e não acham, aumenta a taxa de desemprego. É uma coisa que não mede a realidade, parece que são índices que são feitos para enganar a população”

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República

    ‘Leva-se em conta só quem está procurando emprego’?

    Sim. A taxa de desocupação é medida levando em conta apenas o que o IBGE chama de força de trabalho. Ou seja, para o cálculo da taxa, é preciso saber quantas são as pessoas ocupadas e as desocupadas no país. E os desocupados são aqueles que procuram emprego e não encontram.

    A despeito das críticas do presidente, o IBGE informa que segue padrões estabelecidos pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) “com o intuito de garantir a comparabilidade com outros países”.

    ‘Quem está recebendo Bolsa Família é tido como não empregado’?

    Para as medições de mercado de trabalho, a Pnad sequer pergunta se a pessoa tem algum rendimento extra, seja algum programa de transferência de renda ou qualquer tipo de benefício. É desempregado quem está à procura de trabalho, independentemente de receber Bolsa Família, auxílio reclusão ou qualquer outro rendimento.

    Perguntas sobre Bolsa Família são feitas pelo IBGE apenas uma vez por ano na Pnad Contínua, mas não afetam a taxa de desocupação.

    ‘Quando há melhora no emprego, as pessoas procuram e aumenta o desemprego’?

    O fenômeno descrito por Bolsonaro é possível, uma vez que se as pessoas se animam e passam a procurar emprego, aumenta a força de trabalho, mas também o número de desocupados e, consequentemente, a taxa de desemprego. Não há, porém, indícios de que isso é o que está acontecendo no Brasil nos últimos anos.

    Desde o início da crise, em 2014, o número de desocupados praticamente dobrou, indicando que, sim, aumentou o número de pessoas que passaram a procurar trabalho. Mas houve um crescimento ainda mais significativo no número de desalentados.

    O desalentado é aquela pessoa que gostaria de trabalhar, está disponível, mas desistiu de procurar um emprego porque não tem esperanças de encontrar. Mesmo sem trabalho e com vontade de trabalhar, o desalentado não conta na taxa de desocupação. O Brasil tem hoje 13 milhões de desocupados e um número recorde de 4,9 milhões de desalentados - que poderiam fazer a taxa ser ainda maior caso fossem levados em conta.

    Como a Pnad chega à taxa de desocupação

    Para chegar aos dados oficiais de desemprego no Brasil, o IBGE faz entrevistas em 3500 municípios. A cada trimestre, são 211 mil domicílios visitados. É a partir das respostas desses moradores que o IBGE estima os resultados para os quase 70 milhões de lares existentes em todo o país.

    Todos os brasileiros estão no radar da pesquisa, mas somente os maiores de 14 anos são considerados para as estatísticas de mercado de trabalho. Dentro deles, só uma parcela é levada em conta para se medir a taxa de desemprego.

     

    A população brasileira

     

    O cálculo da taxa

     

     

    A trajetória do desemprego e da subocupação

    Bolsonaro argumenta que a desocupação está aumentando porque mais gente procura trabalho observando a melhora da economia. Mas o aumento na taxa de desocupação no início de 2019 foi causada por movimentos nas duas pontas. Aumentou o número de pessoas desocupadas e diminuiu o número de ocupados.

    O número de desocupados no trimestre móvel terminado em fevereiro, dado mais recente, foi de 13 milhões de pessoas. Isso é cerca de 800 mil a mais do que o registrado no trimestre anterior, terminado em novembro. Entre os ocupados, a queda foi de pouco mais de 1 milhão de pessoas: de 93,2 milhões em novembro para 92,1 milhões.

    Outro indício de que não é a melhora da situação da economia que anima as pessoas a procurarem é o número recorde de desalentados. Quando esses brasileiros são somados aos que não podem assumir um compromisso no momento, aos que trabalham menos horas do que precisariam e aos desempregados, o IBGE conclui que falta emprego para 28 milhões de brasileiros. A chamada subutilização da força é a maior da série histórica.

     

     

    O principal fator para o aumento da desocupação nos últimos cinco anos no Brasil é a perda de estabilidade financeira. Pessoas que, antes da crise econômica, não precisavam ter renda e eram sustentadas por outras pessoas, passaram a ter necessidade de procurar emprego.

    “O grande formador da desocupação é a perda de emprego, a demissão. Direta e indiretamente. Primeiro porque a pessoa que perde o emprego vai para a desocupação. Mas há também as pessoas que são afetadas por essa demissão, pelo desemprego de alguém. Se um pai perde o emprego, o filho pode ser obrigado a começar a procurar, a esposa também, todos entram para a desocupação”

    Cimar Azeredo

    coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE em entrevista ao Nexo em 2018

    Foi esse o movimento que fez a taxa de desemprego crescer acentuadamente ainda durante os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer.  Mesmo com o Brasil tendo ultrapassado a recessão, os efeitos da crise no mercado de trabalho permanecem.

    Colaborou Rodolfo Almeida (gráficos e gifs)

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