A falência da gráfica que faz o Enem. E os efeitos na prova

Empresa RR Donnelley, que imprimia exames desde 2009, encerrou as atividades no Brasil por causa de ‘dificuldades do mercado editorial’ no país. Anúncio ocorre em meio à crise no MEC

     

    A gráfica RR Donnelley, que imprime as provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) desde 2009, pediu falência na segunda-feira (1º). O anúncio põe em risco a realização da prova de 2019, em novembro. Pelo cronograma, ela deve ser impressa já em maio. O Ministério da Educação informou na terça-feira (2) que o prazo está mantido e que “alternativas seguras” estão sendo avaliadas.

    A impressão dos cadernos de questões com cerca de seis meses de antecedência é importante para que todas as etapas da cadeia de distribuição do teste, enviado para 1.725 municípios, consigam ser cumpridas. Em 2018, 5,5 milhões de pessoas se inscreveram no Enem.

    O encerramento das operações da empresa, justificado pelas “atuais condições do mercado”, ocorre em momento turbulento para o MEC. Em três meses de gestão do ministro Ricardo Vélez Rodríguez, ao menos 16 funcionários do alto escalão foram exonerados ou pediram demissão. A crise é causada por disputas internas e recuos devido a ações controversas da pasta.

    Já havia preocupação quanto à realização do Enem por causa da exoneração, em 26 de março, do presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Marcus Vinicius Rodrigues, e do pedido de demissão, no dia seguinte, do chefe da diretoria de avaliação da Educação Básica do órgão, Paulo César Teixeira. O Inep é responsável pelas avaliações que determinam os indicadores da educação básica. Teixeira era o responsável pelo Enem. 

    O pedido de falência

    A RR Donnelley no Brasil é subsidiária de uma gráfica fundada em Chicago, nos Estados Unidos, em 1864. Na primeira metade do século 20, foi responsável pela impressão de revistas como a Time e a Life. Ela chegou ao Brasil em 1997, ao adquirir a gráfica Hamburg. Em 1999, investiu US$ 30 milhões numa unidade em Indaiatuba, na região de Campinas, para produzir listas telefônicas. Nos anos 1990, chegou a ser líder em impressão comercial na América do Sul, com fábricas também na Argentina e no Chile.

    Em 2018, registrou um faturamento de quase US$ 7 bilhões (R$ 27 bilhões). Apesar disso, a empresa podia declarar autofalência no Brasil sem afetar os negócios da matriz.

    Segundo a empresa, a decisão de encerrar as operações se deve às “atuais condições de mercado na indústria gráfica e editorial tradicional, que estão difíceis em toda parte, mas especialmente no Brasil”.

    “Recentemente, a RR Donnelley perdeu um de seus principais clientes e registrou uma drástica redução no volume de trabalho contratado”, afirmou, em nota. Ela tinha escritório em Barueri, na Grande São Paulo, e mantinha gráficas em Osasco e Tamboré, na mesma região, além de Blumenau, em Santa Catarina.

    O anúncio representa mais um baque para o mercado editorial brasileiro e afeta diretamente algumas editoras. A Intrínseca, por exemplo, havia comprado 70 toneladas de papel para imprimir na RR Donnelley 200 mil cópias do novo livro de Mark Manson, autor do best-seller “A Sutil Arte de Ligar o F*da-se”, a obra mais vendida no Brasil em 2018. A empresa terá, agora, de buscar outra alternativa.

    A impressão do Enem

    A RR Donnelley passou a imprimir o Enem em 2009 por meio de um contrato em caráter emergencial. Naquele ano, a prova do Enem vazou, conforme revelou o jornal O Estado de S. Paulo.

    O teste havia sido furtado da gráfica Plural, contratada pelo consórcio Connasel. O vazamento ocorreu dois dias antes da aplicação do exame, o que levou ao seu cancelamento. A decisão prejudicou 4,1 milhões de candidatos.

    O MEC, então, pagou R$ 31 milhões à RR Donnelley. O novo exame foi realizado mais de dois meses depois do vazamento. Regras de segurança da gráfica tornaram-se mais rigorosas, para evitar novos problemas.

    Segundo o Inep, para entrar no local, uma pessoa passava por três etapas de fiscalização. Funcionários usavam uniformes de cores diferentes, para controlar os acessos, e a área da impressão era restrita. Havia um sistema de vigilância por câmeras.

    Mesmo assim, falhas pontuais ainda aconteceram. Em 2010, quando a RR Donnelley venceu a licitação para continuar imprimindo a prova, uma professora vazou o tema da redação, em Remanso, na Bahia. No ano seguinte, uma escola particular de Fortaleza, no Ceará, foi acusada de ter vazado 14 questões aos alunos.

    Em 2011, a Controladoria-Geral da União chegou a divulgar que, no ano anterior, o Inep havia direcionado a licitação para beneficiar a RR Donnelley. O órgão negou irregularidades e disse que a contratação havia acontecido por meio de um pregão eletrônico em “conformidade com as disposições legais”.

    O governo continuou a trabalhar com a gráfica por tê-la considerado eficiente e segura. Em 2016, ela venceu novamente a licitação, para um contrato que permitia renovações até 2020. A Plural contestou o resultado de 2016 no Tribunal de Contas da União, alegando direcionamento. Não houve ainda decisão sobre o caso.

    A história e os números do exame

    O Exame Nacional do Ensino Médio foi criado em 1998, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), para avaliar a qualidade do ensino médio no país. No ano seguinte, a prova passou a ser aceita em vestibulares como parte da nota.

    Sua grande transformação, porém, ocorreu em 2009, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A prova pulou de 63 para 180 questões, respondidas em dois dias, e começou a substituir o vestibular em instituições federais. Atualmente, o Enem é aceito por cerca de 500 instituições de ensino públicas e privadas e considerado o segundo maior vestibular do mundo, atrás apenas do Gaokao, na China, feito por quase 10 milhões de estudantes em 2018.

    5,5 milhões

    de pessoas se inscreveram na prova em 2018

    1.725

    cidades recebem a prova; é o equivalente a 31% dos municípios brasileiros

    600 mil

    pessoas trabalham na aplicação do Enem

    11 milhões

    de cadernos de questões foram impressos em 2018

    2 mil

    toneladas de papel são usadas na produção da prova

    Em 20 de março, o MEC criou uma comissão com três pessoas para avaliar as questões do Enem de 2019. O grupo poderá entrar na área de segurança máxima onde ficam as perguntas para “verificar sua pertinência com a realidade social, de modo a assegurar um perfil consensual do exame”, de acordo com o ministério.

    A iniciativa surgiu depois que Bolsonaro criticou uma questão na prova de 2018, que falava de um dialeto usado por transexuais. O presidente chegou a dizer que veria a prova antes de ser aplicada.

    O cronograma, segundo o MEC

    Em 2019, as provas serão realizadas em 3 e 10 de novembro de 2019, dois domingos. As inscrições ficarão abertas de 6 a 17 de maio.

    Em comunicado, o Inep afirmou que o cronograma está mantido. “Em relação à falência da gráfica contratada para a diagramação e impressão dos cadernos de prova da edição deste ano do Enem, existem alternativas seguras sendo avaliadas”, afirmou o órgão.

    Em março, segundo o jornal Folha de S.Paulo, o Inep chegou a consultar a Casa da Moeda, estatal que imprime o papel-moeda oficial do país, para assumir a impressão dos cadernos de questões, mas as conversas não foram adiante por conta da crise no MEC.

    Em 26 de março, o presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Marcus Vinicius Rodrigues, foi demitido por Vélez depois da má repercussão do anúncio de que a avaliação da alfabetização de crianças seria adiada por dois anos. A demissão foi vista como uma punição a ele. O adiamento foi anulado.

    Ao deixar o cargo, o ex-chefe do Inep afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o ministro é uma “pessoa do bem”, mas com “muitos limites no que diz respeito à gestão e também à sua formação em educação”. Bolsonaro chegou a dizer que o ministro é “novo no assunto” e não tem “tato político”. Sua permanência no cargo é incerta.

    As demissões no Inep, órgão responsável pelas avaliações que determinam os indicadores da educação básica no país, já eram vistas como uma ameaça à realização do Enem. No dia seguinte à demissão de Marcus Vinicius Rodrigues, o chefe da diretoria de avaliação da Educação Básica do Inep, Paulo César Teixeira, também pediu demissão, em solidariedade. Teixeira era o responsável pelo exame.

    Os problemas na impressão do exame envolvem questões de segurança, para evitar vazamentos, e logística, para a distribuição.

    “Uma coisa é fazer a prova em novembro, outra coisa é o que tem que ser feito agora, há uma cadeia para ser viabilizada. Não é qualquer gráfica que pode imprimir o Enem, há um risco grande”

    Ocimar Alavarse

    especialista em avaliação e professor da USP, ao jornal O Estado de S. Paulo

    “Imprimir é fácil, o difícil é a logística. Exige segurança, fiscalização e muito bom senso”

    João Scortecci

    presidente da Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica), ao jornal Folha de S.Paulo

    Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica, ao jornal Folha de S.Paulo, o número de companhias capazes de assumir o lugar da RR Donnelley não passa de cinco no Brasil.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: