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Os 50 anos de ‘Matadouro Cinco’, clássico antiguerra

Obra inspirada na experiência de Kurt Vonnegut na Segunda Guerra Mundial trouxe narrativa inovadora e mistura de estilos

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    “Matadouro Cinco” é considerado um dos mais potentes e originais livros antiguerra da literatura americana. Foi publicado em 1969 por Kurt Vonnegut (1922-2007), autor nascido nos EUA. No cinquentenário da obra, editoras por todo o mundo programaram edições especiais em comemoração. Como a brasileira Intrínseca, que apresenta uma nova tradução para o clássico, do escritor Daniel Pellizzari.

    É a experiência de Vonnegut como soldado americano na Segunda Guerra Mundial (1938-1945) que serve como base para o livro. Capturado pelos nazistas na Batalha das Ardenas, na Bélgica, em 1944, o escritor se tornou prisioneiro de guerra e foi mandado para Dresden, na porção leste da Alemanha. Lá, foi abrigado no “matadouro cinco”, localizado na área central da cidade.

    Entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, a cidade foi reduzida a escombros por um intenso bombardeio das forças aliadas. A guerra se aproximava do fim, e as tropas de Adolf Hitler perdiam força. Protegidos no subsolo do matadouro, Vonnegut e seus companheiros encontraram um cenário apocalíptico ao voltar para a superfície. Cerca de 25 mil civis morreram no ataque. O autor e outros prisioneiros foram incumbidos de procurar cadáveres nas ruínas.

    Durante anos, Vonnegut tentou escrever sobre sua experiência em Dresden. Desistiu de buscar um relato descritivo dos fatos. “Nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre”, escreveu no primeiro capítulo de “Matadouro Cinco”. Dispensando-se da obrigação factual, criou uma narrativa amparada em ficção científica, surrealismo e humor negro. Em “Matadouro Cinco”, o tempo é embaralhado e o protagonista fictício Billy Pilgrim, baseado em um companheiro de tropa do autor, transita entre épocas.

    O bordão “É assim mesmo”, conformado e estoico, pontua a história. Repetido 106 vezes no texto de quase 300 páginas, se torna um recurso para o autor encarar o desumano e o grotesco das situações vividas, da guerra como um todo e dos traumas posteriores. “Ele está tentando descobrir, ‘OK, acabou de acontecer algo muito horrível? Como eu vou lidar com isso?’”, disse Julia Whitehead, fundadora e diretora do Museu e Biblioteca Kurt Vonnegut, em Indianápolis, EUA, ao jornal The New York Times. Segundo ela, é uma indicação de que o escritor sofreu de transtorno de estresse pós-traumático por conta dos eventos da guerra.

    A repercussão do livro

    Vonnegut tinha 47 anos quando lançou “Matadouro Cinco”. Era o sexto romance de sua carreira. Livros anteriores como “Revolução no futuro”, sua estreia de 1952, e “Cama de Gato”, de 1963, vinham construindo sua reputação, mas “Matadouro Cinco” foi amplamente elogiado pela crítica e um best-seller de fato. Permaneceu 16 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times.

    O livro saiu em meio à Guerra do Vietnã (1955-1975), que tinha seu propósito e saldo de morte e destruição cada vez mais questionados pela sociedade americana. Era a obra certa na hora certa. Suas inovações com o formato da narrativa, a mescla “pós-moderna” de gêneros, também estavam em sintonia com um período da cultura popular em que a experimentação era bem-vista.

    Nos EUA, a obra encontrou resistência de setores conservadores, especialmente devido a seu uso de palavrões e referências sexuais. Cópias foram queimadas na Dakota do Norte na década de 1970. Um conselho escolar no estado de Nova York descreveu o livro como “depravado… e anticristão”. Em uma contagem de 2011, o livro já tinha sido banido ou questionado em bibliotecas e currículos escolares 18 vezes.

    Nas palavras de Vonnegut na obra, “não há começo, nem meio, nem fim, nem suspense, nem moral, nem causas, nem efeitos. O que amamos em nossos livros são as profundezas de muitos momentos maravilhosos vistos todos de uma única vez”.

     

     

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