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O que é a Otan. E quais seus desafios contemporâneos

Aliança militar formada após a Segunda Guerra Mundial completa 70 anos sob a sombra persistente da Guerra Fria

 

A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) celebra seus 70 anos nesta quinta-feira (4) preocupada com os desafios do século 21, mas presa ao mesmo tempo em rivalidades do século 20.

O bloco foi formado em 1949, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), por um grupo de 20 países. A ideia era criar um mecanismo de defesa coletiva contra a ameaça que a União Soviética começava a representar aos países ocidentais – EUA, Canadá e países do oeste da Europa e da Europa Central – no período da Guerra Fria (1945-1991).

Quando os ministros das relações exteriores dos 29 Estados-membros da aliança se reunirem em Washington, nos EUA, a partir desta segunda-feira (1º), para uma série de eventos que devem durar uma semana, a atenção estará voltada a três pontos centrais.

Desafios adiante

Rússia

O país governado por Vladimir Putin tornou-se o maior antagonista nos campos político e militar da maior parte dos países-membros da Otan, assumindo o papel que a União Soviética desempenhou – guardadas as proporções – no passado. A Rússia foi um país central na antiga União Soviética e, em grande medida, herdou o papel antes reservado aos soviéticos. Esse cenário trouxe para o século 21 as disputas que deram origem à própria Otan, na transição da Segunda Guerra para a Guerra Fria.

Terrorismo

Os conflitos entre Estados era a marca do período em que a Otan foi criada. Porém, na passagem para o século 21, as potências do bloco passaram a ser confrontadas pela ação de grupos terroristas como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, que nascem e se fortalecem no interior de Estados fragilizados ou falidos, em partes do Oriente Médio e da África.

Orçamento

Os países-membros da Otan assumem o compromisso de investir o correspondente a 2% de seu PIB (Produto Interno Bruto) em defesa, mas nem todos o fazem. O presidente americano, Donald Trump, diz abertamente que seu país não seguirá pagando a conta dos demais.

O desejo brasileiro de entrar na aliança

O Brasil não faz parte da Otan, mas o presidente Jair Bolsonaro recebeu de Trump a promessa de que os EUA trabalharão para que o país venha a fazer parte da aliança no futuro.

Ao visitar a Casa Branca, no dia 19 de março, Bolsonaro ouviu de Trump que os EUA já consideram o Brasil como um aliado prioritário extra-Otan, o que daria acesso ao país à transferência de tecnologias e equipamentos militares.

A ideia, no entanto, foi rechaçada pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da França, Agnes von der Mühll. Ela disse que o Brasil não pode entrar, pois o bloco está delimitado geograficamente aos países situados no Atlântico norte e o Brasil se situa no hemisfério sul. A posição francesa é importante porque as decisões na Otan são tomadas exclusivamente por consenso entre seus membros.

Os primeiros passos da aliança

Quando a Otan foi criada, a Europa emergia de um conflito de proporções globais que, por seis anos, havia colocado as maiores potências do continente em lados opostos.

O fascismo que havia emergido nos anos 1930 na Alemanha, na Itália e na Espanha acabou derrotado em 1945 por uma ampla aliança da qual fizeram parte não apenas países europeus, mas também as duas maiores potências que emergeriam do pós-guerra: a URSS e os EUA.

Como resultado, a Segunda Guerra deixou grande parte da Europa destruída e o mundo dividido em dois pólos: o capitalista, liderado pelos americanos, e o comunista, liderado pelos soviéticos.

Após a Segunda Guerra, a URSS tomou para si países do Leste Europeu que haviam sido ocupados pela Alemanha. Além disso, regimes comunistas alinhados com os soviéticos assumiram o controle sobre a porção oriental da própria Alemanha, dividindo ao meio a capital, Berlim, com um muro que só seria derrubado em 1989.

Nesse contexto, a Otan apareceu como uma aliança para fazer frente ao que era percebido como um perigo comunista. As tensões cresceram à medida que americanos e soviéticos entraram também numa corrida armamentista e nuclear.

A saída da França em 1966

 

O papel dos EUA foi fundamental para a derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial. Por isso, o arranjo do pós-guerra colocou por muito tempo os americanos não apenas na posição de parceiros e aliados dos europeus, mas também na posição de credores morais.

No caso da França, essa espécie de dívida moral foi ainda maior, pois o país havia sido liberado da ocupação nazista graças a uma ofensiva capitaneada por britânicos e americanos, a partir da costa da Normandia, no chamado Dia D, no 6 de junho de 1944.

Finda a Segunda Guerra, a reconstrução da imagem da França e de seu poder militar se deu em torno da figura do general Charles De Gaulle, que havia sido veterano da Primeira Guerra (1914-1918) e que, durante a Segunda Guerra, incentivou e inspirou a chamada Resistência Francesa, articulando o envio de armas e munições, e fazendo transmissões de rádio a partir do exílio, em Londres.

De Gaulle regressou a Paris como herói após a Segunda Guerra e passou a trabalhar para reerguer moralmente o país. O patriotismo do general, no entanto, logo colocou os franceses em posição incômoda em relação a um governo americano que dava as cartas na Otan e se mantinha como fiador da estabilidade europeia diante dos soviéticos.

Assim, De Gaulle retirou a França do Comando Integrado da Otan em 1966. Num cenário de corrida nuclear entre EUA e URSS, os franceses também passaram a apostar num programa atômico próprio e autônomo que, bem sucedido, terminou por colocar os franceses entre os poucos membros do clube de potências nucleares.

A decisão de De Gaulle só seria revertida 43 anos depois, quando o presidente Nicolas Sarkozy colocou o país de volta na estrutura do comando militar da Otan, já em 2009.

Da URSS à Rússia de Putin

A URSS, percebida como a ameaça que motivou a criação da Otan, chegou a seu fim em 1991. Dois anos antes, em 1989, o Muro de Berlim havia caído, anunciando o fim da Guerra Fria e a reunificação da Alemanha. 

A queda do Muro e o fim da URSS fez com que a Otan incorporasse países que antes orbitavam ao redor do regime soviético: Polônia, Hungria, República Tcheca,  Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Albânia e Croácia.

O movimento foi percebido pela Rússia como uma tentativa de isolamento, como um movimento agressivo de cooptação e de interferência em seu entorno.

São frequentes os atritos retóricos entre Putin e os países-membros da Otan. O debate reflete em grande medida o clima de disputa da Guerra Fria. Putin diz que é preciso mais cooperação e menos insensatez de parte da Otan.

Terrorismo assume protagonismo

O ataque às Torres Gêmeas, em Nova York, em 11 de setembro de 2001, colocou para a Otan o desafio de enfrentar grupos terroristas cuja ação nem sempre está atrelada a um governo de um país específico.

Quando o grupo terrorista Al-Qaeda, comandado pelo saudita Osama Bin Laden, atacou as Torres Gêmeas, a Otan recorreu pela primeira vez ao trecho de seu documento de fundação, que determina que “um ataque armado contra um ou mais de seus membros na Europa ou na América do Norte deve ser considerado um ataque contra todos”.

A reação dos países-membros da Otan foi dirigida sobretudo contra o Afeganistão, que servia de base de treinamento para esse e para outros grupos terroristas, como o Talebã.

Situação semelhante ocorreu na Síria, onde países-membros da Otan conduziram ataques aéreos contra enclaves do Estado Islâmico. No caso da Síria, a agenda do século 21 (combate ao terrorismo) se cruzou com a agenda do século 20 (a disputa com os russos), pois Putin era um dos fiadores do presidente sírio, Bashar al-Assad, e via nas ações da Otan uma maneira escamoteada de enfraquecer seu aliado.

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