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3 análises sobre o escritório do Brasil em Jerusalém

Especialistas de visões diferentes falam ao ‘Nexo’ sobre os resultados do recente alinhamento entre Brasil e Israel

 

Desde que desembarcou em Israel, no domingo (31), o presidente Jair Bolsonaro fez uma série de anúncios e de gestos com a intenção de abrir “um novo capítulo na história das relações entre os dois países”.

A visita, planejada para terminar nesta quarta-feira (3), teve como ponto alto o anúncio de que o Brasil pretende abrir “um escritório em Jerusalém para a promoção do comércio, investimento, tecnologia e inovação”.

A abertura do escritório foi anunciada por Bolsonaro logo no desembarque no aeroporto de Tel Aviv, onde foi recebido pelo primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu.

Abrir um “escritório” em Jerusalém é menos do que Bolsonaro havia dito que pretendia fazer. Na campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro havia prometido transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém.

Uma embaixada é a representação mais importante que um país pode ter no exterior. Um escritório comercial é bem menos que isso.

 

O anúncio da abertura do “escritório” foi saudado por Netanyahu. Mas o premiê israelense disse querer mais: “espero que este seja o primeiro passo para a abertura da embaixada brasileira em Jerusalém”.

A importância de Jerusalém para Israel

As Nações Unidas consideram que Israel ocupa ilegalmente a totalidade de Jerusalém desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e, em respaldo a essa posição da ONU, os demais países se abstêm de manter suas embaixadas na cidade, que é considerada sagrada pelas três maiores religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, até hoje, a história de Jerusalém é marcada pela busca dos israelenses de consolidar sua presença na cidade inteira, transformando-a na capital do país, instalando nela a sede de seu Parlamento e militarizando sua área, a despeito da desaprovação das Nações Unidas e das maiores potências mundiais.

Do lado oposto, os palestinos também consideram Jerusalém a capital de um futuro Estado próprio, a ser criado na região. Nessa disputa, os dois lados mesclam períodos de tolerância e de intransigência, transbordando muitas vezes para conflitos abertos.

Para Israel, a importância da decisão brasileira está em demonstrar que suas pretensões de soberania sobre Jerusalém são respaldadas por um número cada vez maior de países.

O primeiro a reconhecer essa pretensão israelense foram os EUA, sob o governo de Donald Trump. O anúncio de mudança da embaixada americana para Jerusalém foi feito em dezembro de 2017, e concretizado em outubro de 2018.

A importância de Jerusalém para os evangélicos

No Brasil, o anúncio também repercutiu entre líderes evangélicos que apoiaram Bolsonaro. O pastor Silas Malafaia disse que Bolsonaro “vai ter que ser macho” para fazer o que prometeu, mas que a mudança leva tempo e tem que ser feita paulatinamente. O presidente não deu data precisa, mas disse que a promessa será cumprida antes do fim do mandato (2022).

Em ensaio publicado no sábado (30), no Nexo, o cientista político Guilherme Casarões, colaborador do Instituto Brasil-Israel, explicou a razão pela qual os evangélicos brasileiros têm tanto interesse em Jerusalém e no Estado de Israel.

“Entre muitos evangélicos, sobretudo os adeptos do neopentecostalismo, há o entendimento de que o reconhecimento de Jerusalém como capital ‘una e indivisível’ de Israel faz parte de uma profecia bíblica, o prenúncio do retorno de Jesus Cristo para salvar a humanidade. Por isso, manter boas relações com Israel é garantir as bênçãos ao Brasil”

Guilherme Casarões

cientista político, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e colaborador do Instituto Brasil-Israel, em ensaio publicado no Nexo em 30 de março de 2019

Bolsonaro anunciou ainda uma série de acordos de cooperação nas áreas de transporte aéreo, saúde e medicina, além de acordos nas áreas de segurança e pesquisas científicas. O presidente, no entanto, não havia dado detalhes sobre esses acordos até o fim da tarde de segunda-feira (1º). “Logo traremos mais informações aos brasileiros”, disse pelo Twitter.

Os reflexos negativos com os palestinos

A decisão brasileira de abrir apenas um “escritório” em Jerusalém foi ao mesmo tempo considerada insuficiente por Israel e excessiva para os palestinos.

O grupo armado Hamas – considerado grupo terrorista pelos EUA e Israel –, que controla o território palestino da Faixa de Gaza, protestou contra o Brasil publicando uma nota.

Nessa nota, o Hamas diz condenar “veementemente” a visita do presidente brasileiro a territórios palestinos ocupados por Israel – em referência à visita que Bolsonaro fez ao Muro das Lamentações, com Netanyahu, em Jerusalém.

O Hamas pediu ainda que o Brasil reveja “imediatamente” a decisão de abrir um escritório em Jerusalém, dizendo que esse gesto pode ter impacto negativo nas relações brasileiras com as “nações árabes e islâmicas” (O Nexo tem um vídeo que trata das nuances do conflito).

Bolsonaro disse, em relação à reclamação do Hamas, que “é direito deles protestar”. Já o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse, ao saber que o embaixador palestino havia sido chamado de volta para dar explicações sobre a posição brasileira: “daqui a pouco ele volta”.

A criação do escritório sob análise

O Nexo perguntou a três estudiosos de relações internacionais o que o Brasil ganha e perde com a abertura do escritório em Jerusalém. Aqui estão as respostas.

‘Visita inócua e sem repercussão’

Samuel Feldberg

doutor em ciência política pela USP, professor do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da USP, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e das Faculdades Integradas Rio Branco

“A visita de Bolsonaro é relativamente inócua, apesar de toda a fanfarra. Com o retrocesso em relação à [promessa de] mudança da embaixada [brasileira de Tel Aviv para Jerusalém], Netanyahu deixa de ter um trunfo eleitoral [ele está há dez anos no cargo e disputa novo mandato na eleição do dia 9 de abril] e provavelmente não haverá nenhuma repercussão na América Latina.

Escritório de negócios em Jerusalém é quase uma piada. A aproximação entre o Brasil e Israel vem acontecendo nos últimos anos com a intensificação das relações comerciais e agora com a guinada prevista nas votações junto aos organismos internacionais [o Brasil vem votando a favor de Israel em instâncias da ONU, rompendo tradição de se abster, por exemplo, na disputa pelas Colinas de Golã]. É isso que conta e importa para Israel. Bolsonaro, mais que refletir o interesse nacional, se move em função de impulsos pessoais e dívidas com seus eleitores evangélicos.”

‘O Brasil só tem a ganhar com essa aproximação’

André Lajst

mestre em ciência política e diretor-executivo da StandWithUs Brasil, centro de estudos israelense não-governamental e sem fins lucrativos com sede em Jerusalém e escritório em São Paulo

“O Brasil só tem a ganhar ao se aproximar de Israel. Não por estar escolhendo um dos lados, mas por estar corrigindo uma posição de alguns anos de não ter um equilíbrio em relação a Israel e aos conflitos na região.

É comum ouvirmos discursos de ex-presidentes brasileiros, principalmente no tempo do PT, de que os dois povos [palestinos e israelenses] têm direito à autodeterminação e que só diálogo traz a paz. Mas isso são palavras. Os atos concretos revelam facilmente um viés ideológico mais alinhado com os países não alinhados [grupo de países que, durante a Guerra Fria, de 1945 a 1991, decidiram manter equidistância dos EUA e da URSS], numa clara demonstração de falta de conhecimento sobre o que acontecia na região.

Exemplo disso é o fato de o Brasil votar contra Israel nos últimos anos. No máximo se abster nessas votações. Não havia neutralidade. O que Bolsonaro faz agora é corrigir essa neutralidade. Não pode haver neutralidade entre grupos terroristas, como o Hamas, e Israel. O Brasil só tem a ganhar se alinhando com países democráticos, em vez de ficar em cima do muro. Ser neutro, nesse caso, é prejudicial à democracia e aos próprios palestinos, que são reféns do Hamas, grupo que ataca civis indiscriminadamente há mais de 20 anos.

O Brasil pode ter ainda ganhos no âmbito econômico. Há ganhos em tecnologia, na área de irrigação, de agricultura, de segurança pública, e isso não significa necessariamente armas, mas ferramentas, como câmeras, softwares para procurar foragidos da Justiça. Nisso Israel pode ajudar muito. Sem falar nas trocas acadêmicas, universitárias, na área de engenharia, o que ajudou Israel a ter muitas start-ups. O Brasil tem muito a ganhar, sem deixar de falar com o mundo árabe, com o mundo islâmico. Não acho que haverá problema aí, pois muitos desses países também vêm se aproximando de Israel naquela região.”

‘O Brasil mais perde do que ganha’

David Magalhães

doutor em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP-PUC-UNICAMP) e professor de relações internacionais da PUC-SP e da FAAP

“Os memorandos de cooperação firmados nos campos da ciência, tecnologia e inovação podem trazer benefícios pontuais ao Brasil. Entretanto, da forma como a viagem foi desenhada, o Brasil mais perde do que ganha.

Em primeiro lugar, é problemática a decisão de enfatizar questões de governo em detrimento de interesses de Estado. Sabe-se da compatibilidade ideológica entre Netanyahu e Bolsonaro, ambos representantes do populismo de direita em ascensão no mundo e críticos do que chamam de globalismo. No entanto, seria importante avaliar que no dia 9 de abril há eleições em Israel e, pelas últimas pesquisas de opinião, Netanyahu está sensivelmente atrás do candidato centrista Benny Gantz.

Caberia ao Itamaraty aconselhar o presidente a pensar as relações com Israel para além das agendas ideológicas do momento. Governos vão, Estados ficam. A coalizão de Gantz já alertou que, se vencer as eleições, não pretende aprofundar relações com governos populistas como o de Bolsonaro.

No começo deste ano, as votações do Brasil na ONU em favor de Israel já sinalizavam uma ruptura profunda na forma como a política externa brasileira tradicionalmente abordava o conflito israelo-palestino. A visita, como desenhada, consolida essa ruptura. Ainda que represente um recuo, a decisão de abrir um escritório em Jerusalém fere um consenso internacional ao sugerir que o Brasil endossa a narrativa da Terra Santa como capital israelense. Outro evento simbólico é a visita de Bolsonaro ao Muro das Lamentações acompanhado de Netanyahu. Trump foi o primeiro presidente dos EUA a visitar o Muro das Lamentações, em 2017. No entanto, recusou a participação de Netanyahu porque poderia produzir efeitos políticos negativos entre os árabes. Vale lembrar: o Muro das Lamentações está na Cidade Velha que, por sua vez, está em Jerusalém Oriental, considerada pelo direito internacional como uma região disputada entre palestinos e israelenses. A mensagem que o Brasil passa para os palestinos e para o mundo é a de que apoia a expansão dos assentamentos, a brutal ocupação na Cisjordânia e a judaização de Jerusalém. Por fim, vale lembrar que o resultado da viagem pode trazer problemas com nossos parceiros comerciais no mundo árabe, afetando nossas exportações e criando obstáculos à retomada do crescimento econômico brasileiro.”  

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