Como a Amazônia está perdendo água, segundo este estudo

Análise sobre imagens feitas entre 1985 e 2017 mostra que região da floresta tem 350 km² de superfícies aquáticas a menos ao ano

 

Um estudo divulgado na sexta-feira (22), Dia Mundial da Água, pela ONG WWF-Brasil e o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente na Amazônia) mostra que, de 1985 a 2017, a região da Amazônia perdeu em média 350 km² de área (extensão um pouco maior que a da cidade de Belo Horizonte) coberta por ambientes aquáticos ao ano.

A análise, publicada na revista Water, foi elaborada a partir da coleta e processamento de dados de imagens de satélite sobre a floresta durante 33 anos. É a primeira vez que um estudo divulga dados do tipo. Ele faz parte do projeto MapBiomas, coleção de mapas sobre o uso da terra na floresta sul-americana, e teve apoio do Google Earth Engine.

A pesquisa relaciona a redução da superfície hídrica na Amazônia a atividades humanas como o desmatamento e obras de infraestrutura na floresta. A alteração nos ecossistemas aquáticos também é influenciada a nível local pela mudança climática, segundo os autores do estudo.

A água na Amazônia

Extensão

A Amazônia reúne as maiores reservas de água doce do mundo. Seu maior rio é o Amazonas, o mais extenso (cerca de 6,9 mil km) e caudaloso do planeta, que nasce nas Cordilheiras dos Andes e deságua em um ponto brasileiro do Oceano Atlântico. A Bacia Hidrográfica do Amazonas tem área de mais de 7 milhões de quilômetros quadrados (extensão tão grande quanto a da Austrália), não só no Brasil. A pesquisa do WWF-Brasil e Imazon, contudo, não avalia toda a bacia — analisa apenas as águas da região brasileira do bioma amazônico, que anualmente tem apresentado cerca de 130 mil km² (extensão um pouco menor que a do Amapá) de área aquática.

Impacto regional

A cobertura vegetal e a dinâmica das águas na Amazônia ajudam a regular o clima no Brasil e na América do Sul. Isso porque a floresta, por meio da evapotranspiração, produz um regime de chuvas intenso, responsável por manter a umidade do ar mesmo quilômetros adentro do continente. É esse processo que marca as características do clima tropical no país e nas regiões sul-americanas próximas à floresta. Ele ainda tem influência sobre atividades econômicas como a agricultura.

20 bi

de toneladas de água são “evaporadas” pela floresta por dia, segundo o relatório de 2014 “O futuro climático da Amazônia

Impacto local

Os rios e lagos da Amazônia são importantes não só para a regulação do clima regional, mas porque são os locais de reprodução de peixes e outras espécies que vivem na floresta. É em parte das margens de rios locais que tartarugas nativas colocam seus ovos, por exemplo. A água também serve como fonte de alimento e limpeza de outros animais (além dos aquáticos). Esse mesmo impacto vale para populações indígenas e ribeirinhas, que dependem de lagos e rios para sobreviver.

40%

das espécies vivas do planeta estão na Amazônia

Qual o alcance da redução da água

 

Ao mapear 33 anos de movimento das águas na Amazônia, a pesquisa constatou que a perda de 350 km² de superfície aquática a cada 12 meses — no total, 11,5 mil km² entre 1985 e 2017 — é resultado de uma alteração recente nas dinâmicas locais de inundações e secas.

A partir dos anos 2010 — os mais quentes na floresta desde a era pós-industrial, a partir do século 19, segundo a pesquisa —, o movimento natural de expansão e retração de rios e lagos nos períodos de inundação e seca deu lugar a uma retração constante, sem recuperação da água perdida.

130 mil km²

é a extensão média de superfície de água doce encontrada a cada ano pelos pesquisadores do WWF e Imazon no bioma amazônico

116 mil km²

foi a extensão média de superfície aquática encontrada a cada ano na década de 2010, quando houve mais retração de água desde 1985

Evolução ano a ano

 

De 2010 a 2017, a extensão das águas superficiais no bioma diminuiu 13 mil km² — proporcionalmente, 10% da área aquática média detectada na região a cada ano, de 130 mil km². O número representa uma retração anual de 1.400 km², a mais significativa desde 1985.

Alguns eventos que marcaram esse período foram uma seca de 2010 que enxugou parte dos cursos d’água na Amazônia e o El Niño de 2016, que causou “aquecimento recorde” na floresta. Como o aumento da temperatura local tem sido crescente, é possível que a perda constante de água esteja relacionada à mudança climática, indica a pesquisa.

As mudanças da superfície aquática natural se acentuaram em regiões de zonas úmidas (áreas de pântanos, charcos etc.) e de várzeas (que costumam inundar em períodos de cheias) nas beiras de lagos e rios, onde em geral há maior concentração de água doce natural na floresta.

As imagens de satélite utilizadas para a pesquisa foram feitas entre os meses de junho e outubro de 1985 a 2017 — o período de “seca” (ou seja, o menos chuvoso) da região amazônica. Por esse motivo, a água superficial detectada em cada ano representa o nível mais baixo de rios, lagos e várzeas da floresta nesses períodos.

Como foi feita a pesquisa

Área de estudo

A pesquisa mapeou toda a região do chamado bioma amazônico no Brasil — no total, uma área de 4,2 milhões de km², englobando florestas, pastagens naturais, áreas úmidas e regiões convertidas para a agricultura ou pecuária. A região abriga 40% das espécies vivas do planeta e algumas das maiores reservas de água doce do mundo.

Coleta de dados

A pesquisa coletou 194 imagens do banco de dados do programa de satélites Landsat disponíveis na plataforma Earth Engine do Google. As imagens, coletadas entre os meses de junho e outubro de cada ano (o período de seca na região, melhor para análise), mostram a mudança da superfície aquática na Amazônia. Outras duas bases de dados — os mapas anuais de desmatamento do Prodes (do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e imagens de hidrelétricas do sistema de monitoramento por satélite da Amazônia — serviram para avaliar a relação entre as atividades humanas e a dinâmica das águas na região.

Análise dos dados

Por meio de ferramentas de processamento de imagens específicas para a análise ambiental, a pesquisa identificou manchas de água, vegetação, terra e áreas urbanas na região amazônica. A partir daí, isolou aquelas que indicavam corpos aquáticos naturais (rios, lagos, zonas úmidas) e artificiais (hidrelétricas, pequenas barragens, áreas de mineração) de tamanho relevante e comparou, ano a ano, se cada uma dessas áreas havia se expandido (e quanto), tomando o lugar de manchas de terra, ou se reduzido, perdendo espaço para área terrestre.

Qual o impacto da atividade humana

Ao mesmo tempo em que a superfície aquática na Amazônia recuou, a pesquisa do WWF-Brasil e Imazon identificou que a área de recursos hídricos associados à atividade humana — barragens ligadas a usinas hidrelétricas, à agricultura e à mineração — cresceu a partir de 2000.

As construções de barragens do tipo acompanharam a redução dos níveis de água de fontes naturais (como lagos e rios) na Amazônia, segundo imagens de satélite usadas na pesquisa. Isso significa que as novas construções desviaram o curso natural da água, interrompendo fluxos, alterando áreas inundadas e interferindo no equilíbrio do bioma.

8.831 km²

foi a extensão de superfície aquática associada a atividades humanas identificada na Amazônia em 2017; ano teve o maior índice desde 1985

Evolução ano a ano

 

Entre as novas construções, destacam-se as usinas hidrelétricas, que em 2017 representaram 85% das superfícies aquáticas associadas à atividade humana na floresta. As barragens ligadas à agricultura foram 14% do total. Aquelas ligadas à mineração, menos de 2%.

Por considerar o impacto dessas obras como algo global, a análise não listou obras ou construtores específicos que tenham causado mais ou menos impacto na Amazônia — ainda que tenha mencionado construções como a hidrelétrica de Belo Monte (iniciada em 2011), além de minas próximas ao rio Tapajós, no Pará.

Além de provocar o desvio de lagos e rios, barragens ligadas à agricultura, à mineração e ao setor de energia podem levar ao desperdício ou à contaminação da água que utilizam. Por esse motivo, seu impacto torna-se tão relevante para a manutenção da qualidade da água na Amazônia quanto os efeitos da mudança climática.

Quais os desafios para a gestão de águas

O Nexo conversou com Bernardo Caldas de Oliveira, especialista em conservação do WWF-Brasil, sobre o que o estudo divulgado na sexta-feira (22) revela sobre a situação das águas na Amazônia, os efeitos da supressão hídrica na região e os desafios para a gestão local.

Quais são os efeitos da redução da superfície hídrica amazônica?

Bernardo Caldas de Oliveira A Amazônia é uma das maiores reservas de água doce do mundo. É uma área importante, por exemplo, para a mudança climática. A floresta “transpira”, há processos de evapotranspiração na Amazônia que afetam outras regiões na América do Sul. Alguns ciclos de precipitação também são gerados a partir da floresta amazônica. Ela ajuda a regular o clima, e por conta disso é uma região muito importante para a agricultura, por exemplo. A Amazônia também abriga espécies [vegetais e animais] únicas, uma biodiversidade muito específica. Há também pessoas que vivem lá, que dependem de rios saudáveis, da floresta saudável. Tudo isso é importante de se considerar, tanto na Amazônia quanto fora dela.

Em específico, essa redução da superfície de água desfavorece a população de peixes local. Os ambientes mais afetados [pela redução hídrica] são lagoas marginais, áreas inundáveis, que são importantes para espécies como botos e quelônios, que se reproduzem ali. Se a gente não conseguir reverter essa situação, estaremos catalisando processos de extinção. Obviamente, isso afetará a segurança alimentar, porque haverá menos estoques pesqueiros, as populações de peixes irão reduzir. É um problema que não afeta só a biodiversidade, mas afeta a nós, seres humanos, que dependemos dessa biodiversidade.

O que o estudo revela sobre a política de águas na Amazônia?

Bernardo Caldas de Oliveira É difícil responder a essa pergunta de maneira específica. A gestão de águas é muito complexa — envolve níveis de governança municipais, estaduais, nacionais e até mesmo internacional. A bacia amazônica engloba vários países, e a água não respeita barreiras políticas. É possível dizer com tranquilidade que a ocupação na Amazônia e suas novas infraestruturas — como hidrelétricas e estradas — acompanham a redução de água no bioma. A ideia do estudo é melhorar a gestão a partir de informações como essa, e passar a mensagem de que a Amazônia é de responsabilidade de todos. Todos devem garantir a conservação do ambiente, os ecossistemas e os serviços ambientais amazônicos. Mais do que qualificar a política, queremos reforçar que cuidar da Amazônia é uma ação que deve ser feita de maneira coletiva, por todos esses entes. Esperamos contribuir com as discussões sobre o planejamento da Amazônia e ajudar na tomada de decisão ao incorporar, de maneira específica, informações sobre um elemento importante como a água.

Quais os desafios para a gestão das águas no local?

Bernardo Caldas de Oliveira Acho que o mais importante é a gente passar a ter essa visão sistêmica da Amazônia. Não pensar a nível local, mas na região como um todo, e em como ações locais podem afetar todo o sistema. Muitas vezes uma alteração regional em um lugar que eventualmente não fica nem dentro do bioma amazônico pode afetar a Amazônia porque está inserida na mesma bacia hidrográfica.

Por isso, as ações precisam ser tomadas e planejadas dentro de um contexto amplo, onde os impactos e as ações se relacionam muitas vezes por distâncias enormes. A gente tentou trazer isso no estudo.

 

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